2 DISCURSO E (DES)LEGITIMAÇÃO SOCIAL NA ERA VIRTUAL
2.3 PODER, ACESSO DISCURSIVO E (DES)LEGITIMAÇÃO
2.3.1 Poder social, poder simbólico e a questão do acesso
O poder é aqui entendido como algo relacional – ou seja, contingente a uma relação, não podendo ser abstraído de tal relação (CASTELLS, 2009) – dinâmico e difuso, mais bem compreendido como poder social, e não ao nível do indivíduo (no sentido de alguém que detém o poder). Nas palavras de Fairclough (1989, p. 43, tradução nossa), “poder […] nunca é definitivamente detido por uma pessoa, ou grupo social, porque poder pode ser obtido e exercido somente em situações de, e através de, luta social em que ele pode ser também perdido”.15 Ou ainda, conforme Giddens (2003, p. 37) “Dominação e poder não podem ser
considerados unicamente em termos de assimetrias de distribuição, mas têm de ser reconhecidos como inerentes na associação social.” De modo que poder é algo contingente, conjuntural e emergente das relações que se realizam em determinado momento histórico; é o exercício de poder. Exercício esse que independe de uma fonte absoluta de poder (como a figura do ditador, ou regimes de governo ditatoriais), mas que enquanto algo relacional, também é praticado por nós mesmos, atores sociais, sobre nós mesmos e sobre outros.
Uma das formas de se exercer o poder, de se produzir realidades, é através do discurso, como observamos nas configurações sociais ocidentais contemporâneas. Nas sociedades em que o poder se exerce e se mantém através de articulações estratégicas de interesses e projetos, ou seja, hegemonicamente, o discurso, mais que a força física ou mecanismos burocráticos de poder, é o caminho ora legitimado para a constante (re)estruturação da hegemonia social. Castells (2015) aponta que:
A coerção e intimidação, baseadas no monopólio do Estado sobre a capacidade de exercer violência, são mecanismos essenciais para a imposição da vontade daqueles que controlam as instituições da sociedade. Contudo, a construção de significados na mente das pessoas é uma fonte mais eficiente e estável de poder. A maneira como as pessoas pensam determina o destino das
15 No original: “power [...] is never definitively held by any one person, or social grouping, because power can be won and exercised only in and through social struggles in which it may also be lost” (FAIRCLOUGH, 1989, p. 43).
instituições, normas e valores através dos quais as sociedades são organizadas. (CASTELLS, 2015, p. 5, tradução nossa)16
Assim, o poder social converte-se em controle sobre o discurso, sobre sua produção e disseminação, ou seja, em poder simbólico, como colocaria Bourdieu (1989). Dessa forma, tanto a manipulação e o controle de grupos sociais como a contestação e subversão de relações assimétricas de poder podem ser discursivamente levadas a cabo.
No modelo tridimensional de análise do discurso de Fairclough (2001), em que o discurso é ao mesmo tempo texto, prática discursiva e prática social, a prática social é vista como sendo responsável por dar conta de “circunstâncias institucionais e organizacionais do evento discursivo e como elas moldam a natureza da prática discursiva e os efeitos constitutivos/construtivos referidos anteriormente” (FAIRCLOGUH, 2001, p. 22). A ideia central, portanto, é que, ao realizar análises de textos como práticas discursivas que constituem e são constituídos por práticas sociais, pode-se conferir os efeitos dessa mútua constituição. Agregando o aspecto sociocognitivo de análise tentamos explicar como a produtividade do poder funciona nas negociações de sentido entre as pessoas, levando-as à (re)formulação de conhecimento compartilhado sobre o que seria legítimo, sobre como agir, ou seja, levando-as a construir realidades. Daí a fundamental importância de Estudos Críticos do Discurso de perspectiva sociocognitiva, que, além de explicar os processos linguísticos e discursivos de construção de conhecimento, buscam explicar os investimentos cognitivos nesses processos, nos posicionamentos marcados, nas ideologias etc. como formas de controle, manipulação e exercício de poder.
Porém, nem toda produção discursiva é recebida da mesma forma, com o mesmo valor social ou com a mesma força legitimadora. O discurso produzido por instituições sociais (governo, academia, órgãos legisladores, imprensa) e atores sociais de prestígio é revestido de maior valor simbólico e cultural, tendo maior potencial para a produção de consenso e manutenção de hegemonia, até porque geralmente são os discursos com maior penetração social, os discursos das elites simbólicas17 (VAN DIJK, 2010). Trata-se, portanto, de uma
16 No original: “Coercion and intimidation, based on the state’s monopoly of the capacity to exercise violence, are essential mechanisms for imposing the will of those in control of the institutions of society. However, the construction of meaning in people’s minds is a more decisive and more stable source of power. The way people think determines the fate of the institutions, norms and values on which societies are organized” (CASTELLS, 2015, p. 5).
17 Van Dijk (2010, p. 23) define as elites simbólicas como certas classes de atores sociais “tais como políticos, jornalistas, escritores, professores, advogados, burocratas e todos os outros que têm acesso especial ao discurso
questão de acesso. Castells (2009) propõe, dentro de seu modelo de sociedade em rede que uma forma de exercício de poder comum a todas as redes, em qualquer nível (macro ou micro) social, é através da exclusão de atores e grupos sociais das próprias redes, ou seja, restringindo de alguma forma seu acesso. Por outro lado, havendo a possibilidade de acesso aos espaços discursivos das elites simbólicas, abre-se a possibilidade da mudança social, pois, “os discursos não apenas refletem ou representam entidades e relações sociais, eles as constroem ou as ‘constituem’” (FAIRCLOUGH, 2001, p. 22); é a produtividade do poder através do discurso. A questão do acesso pode ser abordada de duas formas: uma diz respeito à (im)possibilidade de acesso à produção discursiva (quando e como os movimentos sociais falam diretamente na imprensa, interferem na criação de legislação etc.); outra se refere à qualidade da inserção de determinados grupos sociais em pautas e discursos da elite simbólica (por exemplo, de que maneira movimentos sociais aparecem representados em reportagens da imprensa, por exemplo) (VAN DIJK, 2010; FALCONE, 2003). Em nosso estudo, enfocaremos ambos aspectos na análise do acesso ao discurso jornalístico, uma das instituições de maior prestígio discursivo nas configurações sociais contemporâneas. Nessa análise, remeteremos à categorização e tratamento mais prototípico ou estereotipados dos diferentes grupos e atores sociais que têm acesso ao discurso jornalístico, por exemplo. Paralelamente, mais adiante neste capítulo, realizamos uma reflexão sobre as potencialidades que o espaço virtual apresenta nesse contexto para a subversão do monopólio discursivo instituído através das mídias de massa, bem como para a manutenção das relações assimétricas de poder e acesso como se configuram hoje.