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No limite do biopoder: os campos de concentração

4. Perspectivas, Arendt e Foucault

4.1 Poderes, Arendt e Foucault

A filósofa da banalidade do mal lida com o poder detectando de início seu alcance, interpelações e delimitando o que a ele não pode ser atribuído como elemento indissociável - a violência. Não nega que nas relações sociais a força, autoridade, vigor e violência aproximam-se e afastam-se do poder de forma tão aleatória como são os transcursos das vivências políticas do social. O poder não é característica inerente a

alguns, e sim construção de um aceite social a uma causa/exercício. Até este contexto encontramos bastante aproximação com o poder sugerido por Foucault.

Para o filósofo da biopolítica, o poderé menos objetivo, uma vez que é percorrido por dispositivos, gradações, diagramas e discursos. Poder, nessa perspectiva, também não é prerrogativa, e sim exercício. Não se identifica necessariamente nem com os indivíduos em concerto nem com o regime do estado; inibe comportamentos, falas, práticas, mas é criador de saber, potencialidades, crenças; enfim, suas atividades são regidas pela polaridade repressão-prazer, ou limitação-criação.

A partir da análise arendtiana do poder, ao visualizarmos um outro momento de sua obra no qual ela se atém a descrição do governo totalitarista da Alemanhanazista, particularmente quando trata dos campos de extermínio, sua exposição evoca um ambiente que não dá margem a escolhas, decisões, opiniões, enfim, a participação comum. Diante de um contorno social tão extenuante e repressivo, onde a violência é anunciada como a grande mediadora da relação entre os homens, como pensar o poder como fluidez como nos sugere Foucault?

Se para Foucault o poder é relacional, não estanque em uma esfera ou função como fazer entender a categorização dos campos quando apenas um lado impõe? Ao atrelarmos ao poder uma positividade de que modo podemos verificar a mesma no ambiente concentracionário? Instalada a construção da subjetividade por obra do poder como traduzir em possibilidade inteligível a perda de qualquer identidade descrita pelas testemunhas do genocídio?Como pensar o poder em meio a absoluta impossibilidade de expressão? De resto, e, essencialmente, como pensar o poder nos termos foucaultianos sem visualizar no totalitarismo seu limite?

Trazer ao enredo a descrição do poder disciplinar e sua feição de total visibilidade na arquitetura do panóptico de Bentham não nos ajuda a notar a semelhança em graus de sujeição ao regime totalitário? Essa associação seria plausível se: os prisioneiros do panóptico não passassem apenas um tempo determinado em cumprimento de suas penas; se um dos fatores de sua obediência fosse a fiscalização permanente sobre si, e não a possibilidade de; se fossem alheados integralmente da possibilidade de greve de fome, rebelião ou qualquer outra forma de insubordinação; se, de início ao fim convivessem com o extermínio de milhões, alémda constante iminência do seu próprio. O poder no panóptico transparece em focos de manobra, maquinações e

armadilhas com fins de imposição. Porém, mesmo na gerência exemplar de governo biopolítico, ele não pode ser equiparado em intensidade e consequências com o universo totalitário.

A biopolítica também trouxe à paisagem costuras de poder no âmbito do corpo biológico individual tal como no corpo social, ambas em conjunto sendo fruto de uma política de estado. Visto isso, mais dificuldades são trazidas ao diálogo por entendermos que a biopolítica só é possível em extensão e aplicação por ser uma tecnologia de poder identificada com o estado, não reduzida a ele, mas com grande associação. Se por toda sua amarração teórica em torno do poder, Foucault, permanentemente discorreu sobre a insuficiência das interpretações que fincavam raízes ao poder, como coadunar isso com o vínculo entre biopolítica e estado? Logo, apontamos a escolha pela não negação – em um aspecto preciso - entre poder e a sedimentação provinda da biopolítica de estado, afastando, por isso, da leitura do próprio Foucault.

Em face disso, como pensar o poder foucaultiano sob a luz do sistema totalitário? Ou devemos admitir que esse é o seu limite, ou seja, a impossibilidade de aplicação de sua perspectiva sobre o poder ao ambiente concentracionário. Efetivamente, o poder em Foucault não cobre representações sociais onde a liberdade já fora eliminada. As análises empreendidas pelo filósofo incidem nas relações de poder, e para que estas existam seus componentes-indivíduos devem ser suscetíveis a sofrer uma ação bem como a reagir.

Essa análise das relações de poder constitui um campo extremamente complexo; ela às vezes encontra o que se pode chamar de fatos, ou estados de dominação, nos quais as relações de poder, em vez de serem móveis e permitirem aos diferentes parceiros uma estratégia que os modifique, se encontram bloqueadas e cristalizadas. Quando um indivíduo ou um grupo social chega a bloquear um campo de relações de poder, a torná-las imóveis e fixas e a impedir qualquer reversibilidade do movimento – por instrumentos que tanto podem ser econômicos quanto políticos ou militares -, estamos diante do que se pode chamar de um estado de

Logo, o regime totalitário, expoente máximo dos implementos de governo biopolítico segundo Agamben, pela disciplinarização, uso do “fazer morrer”, introjeção da obediência como marca indissociável aos prisioneiros, encontro total, enfim, entre corpo biológico – ou animal laborans, para Arendt – e a administração rigorosa do corpo população. Essa biopolítica, descrita por Foucault, em seu caráter de domínio absoluto (nos campos de concentração) cria um acontecimento político que ultrapassa a possibilidade de associação com seus elementos fundantes – as relações de poder.

Os que agiram como Eichamann, a banalidade do mal e os campos de extermínio mostraram que há um espaço incompreendido e não percorrido pela biopolítica entre o “fazer viver” e o assassinato de milhões, a gerência da potencialização da vida e a permissão de seu holocausto, a liberdade necessária para as relações de poder e os estados de dominação. Nestes termos, a biopolítica transmutara- se em tanatopolítica26. Levando o próprio Foucault a reconhecer que “a tanatopolítica é, portanto, o avesso da biopolítica” (Ibidem, p.316). Por isso, não julgamos equivocada a paráfrase: o assassínio de milhões é, portanto, o avesso da biopolítica.

No capítulo seguinte, realizaremos um diálogo a partir de Agamben, completando a ultrapassagem da perspectiva biopolítica para a tanatopolítica de nosso tempo.

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CAPITULO III