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“eu tenho surto, mas eu lembro de tudo. Tudo, tudo, desde que eu era criança.” (Fabrício, experiente)

Quase um apelo, uma afirmação de que apesar dos surtos, Fabrício se mantém na condição de sujeito. Como nesta afirmação,

tantas outras conversas me permitiram perceber que a condição de sujeição aos diagnósticos psiquiátricos, em geral, não inviabilizam o protagonismo destas pessoas, mas como ensina Butler (1997), é somente estando assujeitado, nunca de forma exaustiva, que se constituem as condições a partir das quais o sujeito pode existir e resistir. Se ele é sujeitado pelo poder biomédico, no caso dos sujeitos ditos sem razão, é ai que se colocam as possibilidades para que haja resistência e potência. Isso é perceptível em algumas experiências de desinstitucionalização em que se visibilizam as possibilidades de constituição de modos de subjetivação capazes de escapar dos saberes e poderes constituídos.

Durante algumas conferências, ouvi de alguns experientes alegações do tipo: “o pessoal não vem cedo, todo mundo [os experientes] toma remédio e não consegue acordar”, “tem que entender que o cara é da saúde mental” (expressão que justificava algum comportamento entendido como em desacordo com um comportamento supostamente “normal”), ou ainda, “ele está querendo dizer que...” (expressão em geral enunciada por alguma outra pessoa que pretendia auxiliar aquele experiente percebido com pouca capacidade de se fazer entender) e “ele sempre faz isso...” (expressão que parecia indicar, por exemplo, a tentativa de participação, como um sintoma), que pareciam reificar o lugar social dos experientes.

Além disso, os próprios experientes, confirmando os argumentos de Goffman (1975) de que as pessoas fazem uso dos papéis que desempenham para negociar com o mundo, afirmavam algumas limitações e diferenças na tentativa de reivindicarem espaços ou então serem reconhecidos como sujeitos de direitos. Numa de minhas conversas com uma experiente ela me relatou um episódio em que havia feito uma manifestação na frente de um serviço de saúde mental e quando perguntei se não temia que os profissionais chamassem a polícia, considerando o caráter “vandalístico” de seu comportamento, me respondeu: “eu estava ali manifestando, de manifestação. E se eles chamassem a polícia eu ia lá pro judiciário (se referindo ao hospital psiquiátrico judiciário), porque eu sou louca né?!? Não ia no presídio. Eu sei essas coisas aí.”

No desenvolvimento da pesquisa, foi possível perceber que tais espaços públicos de participação política não garantem o desinvestimento da roupa de louco, seja por parte dos assim considerados como dos

demais. Ainda que possam ocupar determinados espaços, por vezes tal protagonismo é ativado em conjunto com a roupa de “louco”.

Outras vezes pode-se perceber que o protagonismo não é possibilitado pelas estratégias de poder que circulam no processo da reforma psiquiátrica brasileira, especialmente, onde as disputas são mais intensas bem como pelas demandas diferenciadas entre as pessoas que participam do mesmo (“usuários”, familiares, trabalhadores, gestores, dentre outros). Durante a pesquisa, alguns interlocutores falavam que o protagonismo dos usuários era um “protagonismo de hora marcada” e, em alguns momentos do trabalho de campo foi possível perceber isso. Por exemplo, na Conferência Municipal de Saúde Mental de Florianópolis a pergunta de uma participante, cujo discurso não correspondia à lógica dos presentes, foi desconsiderada, ainda que tenha feito, do meu ponto de vista, uma pergunta bastante pertinente ao palestrante questionando sua filiação política, ao que não foi respondida.

Também não foram poucas as vezes em que os mesmos, ainda que presentes, foram invisibilizados. Tais estratégias de invisibilidade, presentes nos espaços que frequentei, estão relacionadas com o modo de considerar os experientes como sujeitos ou não. Várias vezes estive envolvida em conversas com trabalhadores ou familiares em que se falava sobre os experientes como se eles não estivessem presentes, como discutido anteriormente. Além disso, entre os experientes ouvi expressões como “as pessoas sofredoras de saúde mental tem hora que não vão estar legal e aí tem que ter alguém para assumir” ou também situações em que a invisibilidade aumentava como quando em uma assembleia da Repart uma experiente levantou a mão para fazer parte da comissão de transição da mesma e seu familiar, que estava do outro lado da sala, a impediu de participar com um gesto simples. Em resposta, sem nada dizer, ela obedeceu.

No ano em que realizei a pesquisa de campo o país realizava a sua eleição presidencial e uma discussão frequente girava em torno dos candidatos a presidência da república e ainda que todos os experientes pudessem participar das discussões sobre este momento no país, nem todos poderiam votar em função de serem interditados. Ao final de uma de nossas discussões, um deles me disse: “é, mas não adianta nada né?!? eu não vou votar mesmo.” Perguntei porque e ele me disse: “porque não posso, desde que fiquei assim não posso.” Ouvi também de outros interlocutores que era melhor não precisar votar mesmo, seja

porque acreditavam que não adiantava nada votar, seja para se liberar de tal responsabilidade.

A questão da interdição dessas pessoas está diretamente relacionada com a possibilidade de protagonismo das mesmas. Como mencionado anteriormente, a interdição ou curatela é uma medida criada pela legislação civil em que, através de um processo judicial, a pessoa é declarada pelo estado como incapacitada para os atos da vida civil. Para estes atos ela deve ser representada por outra pessoa considerada capaz, que é denominada como sua curadora. O processo de interdição é baseado primeiro em parecer médico e, logo, judiciário. O processo de reversão da interdição por parte do interditado é, apesar das mudanças no novo código civil, um tanto complicado, pois depende primeiramente do interesse do curador e não do curatelado.

Na realidade italiana, este processo de interdição está representado pelo Tratamento Sanitário Obrigatório, em que as pessoas são obrigadas a frequentar serviços de saúde mental e, além disso, ficam sob a tutela de outrem. Tal tratamento é justificado quando um perito médico considera a pessoa incapaz para decidir pelo seu tratamento. Com algumas pesquisadoras com quem conversei, estas alegaram que o mesmo era usado como uma forma de punição para comportamentos considerados desviantes. Outras alegaram ser uma ação necessária, visando proteger a pessoa e as demais com quem ela teria contato.

Apesar das interdições, e mesmo do protagonismo de hora marcada, a participação dos experientes em alguns acontecimentos de ordem coletiva e de âmbito nacional foram bastante relevantes e significativos no contexto brasileiro durante o período de realização da pesquisa. Um deles foi a Marcha dos Usuários pela reforma psiquiátrica antimanicomial, realizada em setembro de 2009 na cidade de Brasília.

A Marcha teve como objetivo mobilizar a sociedade civil para a reivindicação da IV Conferência Nacional de Saúde Mental junto ao governo federal. Para tanto, foi organizada com apoio do Conselho Federal de Psicologia e da Rede Internúcleos da Luta Antimanicomial (Renila). A chamada principal era “Marcha dos Usuários pela reforma psiquiátrica antimanicomial! Brasília vai ouvir nossa voz”, numa clara referência de que os “usuários” deveriam ser escutados. Além disso, a referência à Reforma Psiquiátrica “Antimanicomial”, traz a tona a crítica quanto aos rumos que as transformações possam estar tomando no Brasil.

Como resultado de tal mobilização, foi realizada no ano de 2010, a IV Conferência de Saúde mental, neste ano com a participação de outros setores além da saúde, o que agregou a tal conferência o caráter intersetorial81. Com isso, a paridade na representação foi remodelada ficando 70% para o setor saúde (dos quais 50% para “usuários”, 25% para gestores e 25% para trabalhadores) e 30% para a intersetorialidade (onde se destacam os setores da educação, trabalho, cultura, dentre outros), o que garantiria a ampla participação dos “usuários”. Ainda que eu não tenha participado da Conferência Nacional, foi nas conferências municipais, regionais e estadual de Santa Catarina que pude perceber alguns aspectos da participação dos mesmos.

As conferências são espaços de disputa e relações complexas de poder, onde são colocados em jogo vários elementos que mobilizam os participantes de diferentes maneiras. As possibilidades de expressão, entendimento e participação não deixam de estar atravessadas pela condição historicamente construída dos “loucos” e suas (im)possibilidades. Na conferência estadual, ao entender que a plenária não estava compreendendo o que um experiente estava falando, outro experiente diz à plenária: “vocês tem que entender né?!!?! isso aqui é uma conferência de saúde mental!!”, destituindo de sentido a fala do outro.

Não quero com isso dizer que os experientes não protagonizam suas vidas ou que o mesmo só ocorre quando é permitido por outrem, mas sim que mesmo no contexto das transformações da reforma psiquiátrica esse é um protagonismo conquistado arduamente por eles.

Como será discutido no próximo capítulo, tanto o protagonismo como as estratégias micropolíticas se declinam em experiências fortemente marcadas pelas relações estabelecidas com os outros, com os psicofármacos, através dos corpos e nas cidades.

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Considerando a proposta de transformação cultural que a reforma psiquiátrica brasileira reivindica, a participação de outros setores, além da saúde, é quase uma exigência deste processo.

QUARTO CAPÍTULO - SUJEITOS E(M) EXPERIÊNCIAS Este capítulo gravita em torno da questão dos desdobramentos das reformas psiquiátricas na vida objetiva e subjetiva dos sujeitos. A discussão gira em torno das experiências dos sujeitos atravessadas pela dimensão do gênero bem como pela preponderância da terapêutica medicamentosa, expressada pelos usos, abusos e desusos dos psicofármacos por parte dos sujeitos. Além disso, discuto como os corpos das pessoas e as cidades foram impactados pelo processo da reforma psiquiátrica brasileira.