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Poesia – especificidade dos géneros poéticos

PARTE I ENQUADRAMENTO TEÓRICO

e 4.º anos: «Escrever em termos pessoais e criativos», em que se prevê “Escrever diferentes textos mediante proposta do professor” e se sugere como forma de

2. Poesia – especificidade dos géneros poéticos

Ao longo dos tempos temos assistido a várias tentativas de problematização das práticas literárias, constatando-se uma evolução da noção de género literário e dos modelos de teorização sobre estes géneros (Kanvat, 1999).

Das nossas leituras, pudemos apurar que há uma grande diversidade de perspetivas em torno dos géneros literários e que essa divergência se deve à heterogeneidade textual de que se compõe todo o ato de discurso. Kanvat (1999, p. 66), apoiando-se em Bakhtine, afirma que os géneros são “types relativement stables d’énoncés”, inseridos num contexto de utilização da língua. Segundo o autor, o que define esses enunciados é o seu tema, o estilo da escrita (seleção pelo autor dos meios lexicais e sintáticos que a língua lhe proporciona) e a construção/composição da estrutura dos enunciados. Outros acrescentam a esta definição o objetivo dos enunciados de produzir uma resposta ou reação por parte do destinatário, defendendo a heterogeneidade dialógica de que se revestem os atos de discurso, que englobam outros discursos, interagindo entre si. (J. Authier-Revuz, citado por Kanvat, p. 67).

Kanvat refere que “le genre fonctionne comme une norme prescriptive qui intervient, explicitement ou implicitement, dans la structuration des énoncés individuelles au même titre que les formes de la langue” (1999, p. 69), reconhecendo ao género um papel mais ou menos normativo e organizador, que permite, a par com o uso da língua, situar em determinado género os textos com as mesmas características.

Na tentativa de encontrar alguma estabilidade e sistematização na discussão em torno dos géneros textuais, infinitos, surgiram múltiplas classificações de tipologias textuais, finitas, nas quais se insere o texto de tipo retórico ou poético como aquele que,

não assentando num ato de discurso em particular, corresponde a um tipo textual específico de que podem ser exemplo os géneros poema, a canção, o slogan, o provérbio, o ditado e a máxima (Adam, citado por Kanvat, 1999).

No entanto, textos que designamos, em termos de tipologia, por poéticos fazem, com frequência, fronteira e têm interseções com outros géneros e tipologias… tendo, portanto, contornos muito híbridos – nos textos poéticos, também se narra, se argumenta, se descreve… No sentido de dar resposta a este problema da heterogeneidade textual que se coloca com uma classificação de tipologias textuais, surgiu o reconhecimento pela comunidade científica de que um texto pode alternar diferentes sequências de texto, tendo sido propostas classificações de tipologias textuais híbridas, em que se inserem a tipologia sequencial de Adam, isto é, a figura da “sequência dominante” - aquela que assume um papel predominante no texto -, e a tipologia situacional de Bronckart, que coloca a tónica no contexto situacional de enunciação do discurso (Kanvat, 1999, p. 73).

As classificações de sequências textuais, grosso modo, manifestam um caráter descritivo, apenas relativamente a questões linguísticas; são, como dissemos, finitas e tentam categorizar a multiplicidade. Já os “géneros de texto” têm uma identidade própria, fruto dum conjunto de parâmetros definitórios, identidade ou especificidade essa que não se consegue apenas pela “soma” ou predominância de certos tipos de sequência textual: os géneros são por si infinitos e impossíveis de categorizar e tipologizar de forma tão fechada. São, portanto, dois contributos teóricos diferentes, mas complementares no nosso conhecimento sobre o funcionamento dos textos.

Assim, Kanvat (1999) aponta para uma determinada disposição tipográfica, caracterizada pela forma versificada, regular ou livre, como definições imediatas características dos géneros textuais abarcados pela “poesia”. Alertando, no entanto, para o facto de também se poder encontrar a poesia na forma de prosa poética, o autor refere que os géneros poéticos são facilmente identificáveis graças aos outros critérios que o definem, como a sua densidade ou a utilização particular da linguagem.

Com base nas propostas de diferentes autores, Kanvat (1999, p. 87) sugere cinco grupos de elementos para situar um texto em determinado género literário: i) elementos de ordem institucional (os que remetem para os dispositivos simbólico-sociais que envolvem a produção dos textos, como, por exemplo, o estatuto do género); ii) elementos enunciativos (dizem respeito ao estatuto do enunciador, se é real, fictício, fingido, … ou ao ato de enunciação); iii) elementos funcionais (a intenção comunicativa); iv) elementos formais (estruturas textuais, macroestruturas, elementos gramaticais, fónicos, prosódicos, métricos, recursos estilísticos, …); v) elementos temáticos (os aspetos semânticos, como

o sujeito, o tema, o mundo construído pelos textos, …). O autor salvaguarda, porém, que não é forçoso que cada género apresente todos os componentes, podendo estes variar de género para género (idem, p. 87).

Por conseguinte, apoiando-nos na literatura consultada, identificamos na poesia um conjunto de elementos que lhe são próprios - correspondentes à sua disposição espacial e organização formal: espaço branco à volta do texto, constituído por versos e estrofes (Kanvat, 1999, p.119), também por elementos fónicos, prosódicos e métricos - a rima e o ritmo -, assim como pelos recursos estilísticos de que se socorre (ibidem, p. 87), contendo, simultaneamente, outros elementos que permitem enquadrá-la enquanto género literário, como é o caso dos componentes de enunciação do texto poético (o sujeito, e o ato de enunciação, por exemplo, sério ou lúdico), dos componentes temáticos (de ordem semântica) e dos componentes funcionais (que remetem para a intenção dos textos) (ibidem, p. 87).

Neste ponto, apesar de termos salientado a dificuldade de “nomear e identificar” géneros textuais, em geral, e poéticos, em particular, procurámos ressaltar algumas características para as quais a literatura da especialidade chama a atenção como elementos mais ou menos regulares na “Poesia” que nos permitem dizer que estamos perante “géneros poéticos”.