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2. Os processos de Orfeu

2.5 Poesia, o “estudo” sobre Orfeu

A poesia, tal como todas as vertentes que citam a figura mitológica, baseia-se em Orfeu para criar uma representação. Esta cria com base na inspiração, recriando por vezes a representação do mito ou das figuras a que estas pertencem.

Em relação à poesia são inúmeros os casos de inspiração/reflexão sobre a mitologia de Orfeu em poetas europeus. Poderíamos nos debruçar sobre estes poetas, mas seria um estudo exaustivo, desviando-se do propósito da dissertação. O importante a extrair da poesia, serão algumas relações resultantes entre poetas e artistas. Além destas relações é importante, também, destacar os sentimentos mais comuns, assim como os pensamentos que são mais recorrentes na poesia sobre Orfeu.

Alguns poetas serão mais referidos que outros, devido a relações diretas estabelecidas que nos permitem colocar em evidência a influência do mito, ou o uso do mito como reflexo de sentimentos oprimidos e partilhados no meio artístico.

Para contextualizar o caso da poesia no caso português, apoiar-nos-emos no estudo

Motivos clássicos na poesia portuguesa contemporânea: o mito de Orfeu e Eurídice, da

Dra. Maria Helena da Rocha Pereira, que foi publicado na Revista Humanitas da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (Pereira). A época contemporânea

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utilizada aqui pela Dra. Maria Helena é conveniente à dissertação, pois compreende o período de estudo em questão.

Os poetas irão recriar a mitologia e os motivos clássicos à época que vivem, adaptando- os por vezes a figuras correspondentes ao quotidiano. É evidente que a cultura clássica influenciou, e continua a influenciar, a civilização ocidental, e como tal as suas criações apresentam evidentes características diretas ou indiretas. Tratam-se de características culturais antropológicas. Maria Helena da Rocha Pereira inicia o seu estudo sobre os poetas contemporâneos referindo a antiguidade do mito, sendo que a primeira referência do mito surge em 438 a.C., com Eurípedes19, muitas passagens sobre Orfeu surgem em breves momentos em diferentes estórias, o que nos permite ter noção das diversas aventuras pelas quais a figura passa.

Foram muitos os poetas que criaram e recriaram sonetos alusivos ao mito de Orfeu, sendo um fenómeno na cultura ocidental, criações estas que acompanham muitas vezes as artes plásticas/visuais. Enumerando alguns escritores/poetas, que se inspiram em Orfeu como poeta, e criam textos com base na figura temos: Miguel Torga, Carlos de Oliveira, Sophia de Mello Breyner Anderson, Eduardo Lourenço, José Gomes Ferreira, Sá de Miranda. Estes são os nomes que Maria Helena refere, sendo que a maioria deles, modernistas portugueses, baseiam-se na catábase de Orpheu, envolvendo a ironia e o dramatismo no regresso de Orfeu dos infernos.

A mitologia surge nos poetas como encontro de campos de reflexões que lhes permite explorar a psicanálise, a antropologia, a sociologia e até a história da religião.

A autora faz ainda referência a uma certa influência rilkeana da escritora Sophia de Mello Breyner Anderson na poesia referente a Orfeu. Esta ligação não nos é de todo estranha, sendo que Rainer Maria Rilke criou os Sonetos a Orfeu (Moura, 2007), poemas lindíssimos que transportam por completo os sentimentos da figura para o leitor. Fazendo referência às principais passagens do mito, e Auguste Rodin, seu mestre, criou peças escultóricas alusivas à “segunda” morte ou à morte definitiva de Eurídice, repletas de esperança, ansiedade e sofrimento. Estes são alguns casos da influência do

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mito no modernismo português, mas em toda a Europa irá se refletir o desejo de criar textos referentes a Orfeu.

Deste modo temos como principal exemplo Rainer Maria Rilke que fora secretário de Auguste Rodin - estes conhecem-se após a esposa de Rilke ter sido estudante de escultura de Rodin (Rilke, 2014) - a relação de ambos fora transcendente ao mito, e ambos criaram através da sua visão da figura e da sua mitologia, obras emblemáticas, portadores de emoção.

As relações entre artistas e poetas irão despertar algumas subjetividades que nos fazem ponderar se Orfeu seria apenas uma fonte de inspiração criativa ou se serviria de exemplo de vivência, ou se este seria a mistificação perfeita para o tipo de vida que alguns artistas estariam a experienciar na primeira metade do século XX. Como tal raciocínio temos a Revista Orpheu, a revista mais debatida em Portugal nos últimos 100 anos, tornando-se tanto um ex-líbris artístico como uma espécie de santo Gral que não se deve contestar ou desmembrar além de contextualizações e considerações analíticas sobre as suas produções.

São óbvios os motivos que levam os artistas a escolher esta figura para criarem peças, obras ou textos, mas devemos procurar um pouco mais além e tentar definir o que esta figura representaria a nível pessoal para quem se apoiava nela para inspiração criativa. Orfeu, a nível mitológico, é uma figura que supera o que há de mau no mundo através da sua arte, a poesia e a música, sendo capaz de ultrapassar tudo e recuperar a sua amada da morte, mas não consegue devido à ansiedade de tê-la. Devemos ver este momento como uma metáfora para a vida, apesar de todos os dons que lhe foram concebidos, Orfeu nunca poderia trazer de novo à vida quem já faleceu, por muitos que fossem os seus dons. Após este fenómeno Orfeu entra em depressão, sendo que em algumas reflexões sobre o mito, este perde o interesse por completo nas mulheres após perder a sua grande paixão, e como tal, encontra-se e entrega-se aos jovens, e a ensiná- los a amar (Pereira). Motivo pelo qual as cícones/ménades o dilaceram. Estes são de facto elementos que permitem os artistas se inspirarem e criarem, ao seu tempo, diversas obras, tornando-as sempre atuais.

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No entanto em alguns casos existe a sensação de que Orfeu não seria apenas uma fonte de inspiração, mas também um modo de vida, uma vez mais são questões subjetivas, mas que despertam a atenção pelas diversas coincidências. O Grupo de Orpheu, assim chamado o grupo de artistas futuristas que encheram as páginas dos periódicos e diários dos primeiros anos do século XX irão nos proporcionar uma visão algo diferente sobre a utilização desta figura como designação de um grupo de jovens rapazes poetas e artistas. Diversas dissertações e estudos já foram publicados sobre a Revista Orpheu e os seus integrantes, sendo um assunto muito sensível à cultura portuguesa por tudo aquilo que representaram na época. Em 2015, ao se realizar o primeiro centenário da publicação do primeiro número da Revista, inúmeros foram os artigos (papers), as notícias, conferências e comemorações, mas devemos tomar o grupo e a revista pelo que foram e não pela rutura conturbada que representaram.

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CAPÍTULO 3

A revista Orpheu representa um momento de revelação e inovação literária no panorama cultural português do século XX, um conjunto de ações levadas a cabo por jovens artistas que haviam tido contato com as vanguardas que se sentiam na restante Europa, mas que tardavam a alcançar Portugal.

Estes jovens, e a sua “rebeldia”, através do nome Orpheu construíram um movimento literário que pretendia muito mais do que mover a cultura, pretendia criar um rompimento com antigas instituições e libertar o pensamento. A utilização do nome da figura mitológica não foi mero acaso, o que tem de ser tido em conta e de como este nome representaria diversas condições pessoais e emocionais na vida dos jovens artistas que procuravam tornar-se um mito.