• Nenhum resultado encontrado

Políicas públicas e o lugar do jovem no mundo rural

Rosemeire Aparecida Scopinho

Neste texto, procuro discuir as tensões existentes entre a concep- ção de trabalho familiar presente nos projetos de assentamentos de refor- ma agrária e as reais possibilidades de inserção e permanência dos jovens, a parir da análise das políicas públicas para a juventude rural, especial- mente aquelas desinadas a promover a inserção dos jovens no mundo do trabalho.

Os assentamentos rurais de reforma agrária, recentemente criados no estado de São Paulo, têm procurado resgatar a ideia de comunidade rural sustentável ao incorporar no processo organizaivo a preocupação com o meio ambiente, o incenivo ao trabalho familiar e à organização de associações, cooperaivas e outros disposiivos comunitários de pla- nejamento e controle da produção que tentam recuperar as formas de solidariedade presentes nas relações de parentesco e vizinhança ípicas do tradicional rural brasileiro (Ministério do Desenvolvimento Agrário – Incra, 2000; Concrab, s/d). No entanto, as distâncias que separam os as- sentamentos idealizados (tanto pelo governo quanto pelos movimentos sociais) e os legalizados, mas ainda não realizados e emancipados, são, às vezes, imensuráveis, apesar da boa vontade e dos esforços dos agentes sociais que estão envolvidos no processo organizaivo. Se, por um lado, esses assentamentos signiicam moradia e subsistência para uma popu- lação que vive do trabalho incerto e precário, por outro lado, eles estão longe de signiicar a melhoria real das condições de vida dos trabalhado- res rurais assentados. Do ponto de vista do desenvolvimento da econo- mia, entre os principais problemas enfrentados estão: a ausência de in- fraestrutura mínima para a produção (especialmente água, energia e base técnica adequada); o excesso de burocracia e a morosidade no processo de liberação de créditos para produzir e outros recursos para viabilizar a vida comunitária; a insuiciência dos recursos inanceiros diante das crô- nicas carências dos trabalhadores assentados; a insuiciência e inadequa-

ção dos programas de assistência técnica e extensão rural; a ausência de canais adequados de comercialização, entre outros. No que se refere à organização social e comunitária, os trabalhadores assentados ressentem- -se da carência de recursos básicos tais como escolas, assistência à saúde, assistência social e lazer, principalmente.

Neste cenário de precariedades econômicas e vulnerabilidades so- ciais, emerge como questão central para pensar o futuro dos assentamen- tos rurais − entendidos como espaços de relações sociais onde, teorica- mente, se pode desenvolver uma economia fundamentada no trabalho familiar, na cooperação e na agroecologia − o problema de como inserir e manter os jovens nessas comunidades.

Estudos recentes sobre as problemáicas que envolvem as relações entre trabalho rural e juventude apontam certa indisposição generaliza- da entre os jovens para dar coninuidade aos projetos de trabalho dos familiares na pequena agricultura. No geral, as análises apontam para a existência de uma crise social na agricultura familiar, na medida em que os ilhos dos agricultores não podem ou não querem exercer a mesma proissão de seus pais porque as suas aspirações educacionais e prois- sionais, assim como as suas preferências pelo local de moradia (rural ou urbana), são orientadas por uma formação escolar urbana e até mesmo pelos valores das próprias famílias que, por mais que necessitem da força de trabalho dos ilhos e reconheçam os impactos negaivos da migração campo-cidade, tendem a reforçar ou incenivar a opção por uma escolha proissional não-agrícola realizada na cidade. Os jovens, por sua vez, crii- cam e desvalorizam o trabalho rural e, em geral, descartam a possibilidade de trabalhar e viver no campo (Abramovay et al.,1998; Baladoi, 2007). No entanto, são ainda escassos os estudos que se dedicam a entender a problemáica dos jovens que permanecem no campo e os estudos que analisam o movimento contrário, ou seja, a inserção dos jovens em assen- tamentos rurais cujas famílias migraram da cidade para o campo em busca de melhores condições de sobrevivência.

A pesquisa O que você vai ser quando crescer? As representações so-

ciais de jovens assentados sobre trabalho familiar e juventude (Scopinho,

2011), teve como uma das suas preocupações fundamentais contribuir para preencher esta lacuna ao procurar compreender as representações sociais dos jovens de dois assentamentos rurais localizados na região de

Ribeirão Preto-SP sobre trabalho familiar e juventude. Nestes assenta- mentos, a problemáica dos jovens conigura-se a parir do movimento da migração cidade-campo. As famílias, embora no passado tenham ido algum ipo de relação com a terra, migraram das periferias das cidades para o campo buscando na luta pela reforma agrária uma alternaiva de sobrevivência econômica e segurança social (Gonçalves, 2010; Scopinho, 2012). Os jovens consituem uma parcela expressiva da população, mas não trazem consigo as heranças e a experiência do trabalho na agricultu- ra porque nasceram e se criaram nas periferias urbanas em famílias cuja relação com o campo, no limite, era de assalariamento temporário. No vácuo da insuiciência de políicas públicas que viabilizem a transforma- ção desses espaços em comunidades organizadas do ponto de vista socio- econômico e políico, por estarem os assentamentos localizados próximos a grandes centros urbanos e por comportarem uma população que traz a herança do desenraizamento, a questão que se coloca é a da possibi- lidade de os jovens assentados vivenciarem e reproduzirem os mesmos problemas que hoje enfrentam os que habitam as periferias das cidades: a diiculdade de acesso à escola; a inadequação da formação escolar e proissional recebida para enfrentar o mundo do trabalho; as diiculdades de inserção no trabalho, tanto na cidade quanto no campo, especialmente quando se trata do primeiro emprego.

Se, como aponta a literatura, frequentar escola e trabalhar na ci- dade são estratégias do jovem rural para migrar para as cidades, cabe perguntar: Como se apresenta e qual é o futuro do trabalho familiar nos assentamentos rurais? Como é possível manter trabalhando no campo jo- vens assentados que possuem formação educacional e experiências pro- issionais urbanas?

Para releir sobre as condições de inserção e permanência de jo- vens trabalhadores neste ipo de assentamento rural é importante anali- sar qual é o lugar que tem sido desinado à pequena agricultura familiar no processo de desenvolvimento do mundo rural e do país. É necessário também considerar as especiicidades sociais e culturais do jovem rural em relação ao jovem urbano e também reconhecer as semelhanças exis- tentes entre eles, especialmente no que se refere aos hábitos de lazer, consumo, linguagem, interesses e gostos diversos, porque eles conigu- ram grupos sociais historicamente construídos no contexto de formações

socioculturais concretas. E, ainda, é fundamental veriicar quais são as respostas que a sociedade organizada tem dado (ou não) à problemáica dos jovens rurais. Este é o percurso analíico deste texto.

Trabalho familiar e jovem rural

No Brasil, a linha divisória que separa o campo da cidade tem icado cada vez mais tênue em razão das transformações econômicas e políicas em curso. Com formatos cada vez mais níidos, o complexo e polêmico fenômeno da ruralidade tem assumido expressões pariculares em dife- rentes espaços sociais do país.

Abramovay (2000) e Veiga (2004) consideram que este é um con- ceito mulissetorial, porque, atualmente, no espaço rural desenvolvem-se aividades produivas de vários setores da economia e não somente da agropecuária e, sobretudo, é um conceito territorial, porque também diz respeito ao conjunto das caracterísicas, relações e valores que envolvem a sociedade rural. Em suma, diz respeito, essencialmente, às relações so- ciais que se estabelecem e são manidas em territórios com baixa densi- dade populacional, pequenas cidades que interagem de modo paricular com os centros urbanos assumindo dimensões materiais e simbólicas lo- cais bastante peculiares em relação à sociedade mais ampla. O conceito é polêmico porque as diferentes aproximações entre campo-cidade podem ser pensadas como processos ainda sem curso deinido: trata-se de “no- vos” rurais, onde o avanço tecnológico tem sido apregoado como solução para o renascimento do rural porque é capaz de fazer superar o isola- mento e o atraso? Ou representa a intensiicação das diferentes formas de genocídio cultural, causadas pela destruição das tradições e costumes ípicos do mundo rural?

Especialmente no estado de São Paulo, as transformações recentes do rural têm sido vistas como parte da composição de um “novo” rural, deinido pelo fato de que a produção agropecuária e o extraivismo (aivi- dades econômicas do setor primário) combinam-se com as da indústria, do comércio e da prestação de serviços, envolvendo “novas” relações campo-cidade, cujas marcas caracterísicas são: a modernização e tecni- icação da base produiva, o trabalho pluriaivo desenvolvido em parte do tempo com aividades ipicamente agropecuárias e outra parte com

aividades não agropecuárias, especialmente as de agroindustrialização e comercialização do que se produz na propriedade e a prestação de servi- ços, geralmente, no ramo de lazer e turismo (Graziano da Silva, 1999). A defesa da criação de empregos não-agrícolas tem sido feita como forma de manter os trabalhadores no campo e assim, supostamente, resolver os problemas urbanos atribuídos ao êxodo rural.

Mas, é importante ressaltar que o “novo” não é tão novo assim, por isto o termo está aqui destacado entre aspas. Estudos clássicos da So- ciologia Rural brasileira (Cândido, 1971; Queiroz, 1973) já ideniicaram diferentes modalidades de relacionamento campo-cidade e a relação de coninuidade que se estabelece entre esses espaços sociais no interior paulista. Ocorre que, atualmente, o esgotamento do modelo de desen- volvimento urbano-industrial ípico tem contribuído para generalizar e intensiicar as diferentes modalidades de relações campo-cidade: tanto os do campo vão à cidade quanto os da cidade vão ao campo em busca de melhorias de condições de existência.

Sem dúvida, os tempos são outros e as mudanças são, realmente, necessárias. A meu ver, o problema é que a ideia do “novo” rural tem sido apontada como a panaceia para solucionar os problemas do rural, em de- trimento de outras medidas tais como a reforma agrária, democraização do sistema de crédito rural, a melhoria da infraestrutura produiva, a am- pliação e proteção dos canais de comercialização, a melhoria na oferta de serviços educacionais, de saúde e de proteção social, medidas essas que, combinadas, poderiam contribuir para promover o desenvolvimento rural e diminuir a (ideológica) dicotomia campo-cidade.

Neste senido Fernandes (2003), em arigo elaborado a pedido da Comissão Pastoral da Terra, argumentou que a ideia do “novo rural” foi uma construção intelectual realizada pela intelligentsia do governo Fer- nando Henrique Cardoso para, a parir da divulgação de outra leitura da questão agrária nacional, enfraquecer a crescente territorialização da (secular) luta pela terra no país na virada do milênio. Assim, juntamente com os disposiivos repressivos, neste governo, a agricultura campone- sa foi transformada em agricultura familiar como estratégia para minar as lutas sociais e resolver a (eternamente não resolvida) questão agrária nacional e convencer os agricultores a integrarem-se ao mercado e ao ca- pital agroindustrial. Na visão deste autor, o que diferencia a agricultura

camponesa da agricultura familiar não é o modo de produzir, mas é, justa- mente, a estratégia políica de reprodução: a primeira elege a luta contra o avanço do capitalismo no campo e a segunda, ao contrário, integra-se a ele. A jusiicaiva é que, historicamente, este avanço tem provocado de- semprego, êxodo, empobrecimento, além de graves problemas ambien- tais, e não garante a sobrevivência dos pequenos produtores, estejam eles integrados ou não aos grandes.

O fato é que, as transformações tecnológicas e organizacionais, ao mesmo tempo em que izeram crescer a diversiicação produiva e os ín- dices de produividade agropecuária, provocaram inúmeros impactos nas relações e condições de trabalho no campo. De um lado, visualiza-se uma agricultura de grande escala integrada ao capital inanceiro que incorpo- rou a informáica, dentro e fora da porteira, e ganhou espaço no mercado internacional; de outro lado, a pequena agricultura integrada ou não à agricultura empresarial e, entre esses extremos, uma grande diversidade de ipos e situações concretas que envolvem a problemáica do campo brasileiro que, a meu ver, não autorizam a elaboração de esquemas clas- siicatórios simplistas.

No Brasil rural – “redescoberto” pelo Projeto de Cooperação Técnica Incra/Fao – Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimenta- ção, que analisou os dados do Censo Agropecuário 1995/6 (Guanziroli, Romeiro, Baunaim, Di Sibato, & Bitencourt, 2001), nunca foi tão forte a ideia de que a agricultura familiar tem papel fundamental no processo de desenvolvimento econômico e social do país. Desde a década passada, esta ideia tem sido, estaisicamente, sustentada pelas análises baseadas nos úlimos censos agropecuários que demonstraram a diversidade de i- pos e o potencial produivo dos agricultores familiares (Guanziroli et al., 2001; Insituto Brasileiro de Geograia e Estaísica - IBGE, 2006a).

Poliicamente, a apologia da agricultura familiar tem sido realizada tanto pelos movimentos populares quanto pelos governos, embora haja disinções importantes entre as concepções e signiicados atribuídos às experiências. Sob a bandeira da agricultura camponesa, os movimentos sociais no campo pressionam e reivindicam a distribuição equitaiva da terra, infraestrutura e recursos inanceiros para os pequenos produtores como forma de combater o desemprego, o êxodo e a pobreza dos traba- lhadores rurais e garanir a soberania alimentar. Do ponto de vista dos

governos, a agricultura familiar é uma forma de combater as pressões dos movimentos sociais pela reforma agrária e minimizar os conlitos sociais pela posse da terra, de resolver o problema do abastecimento alimen- tar interno integrando o pequeno ao grande produtor rural (IBGE, 2006a; França, Del Grossi, & Marques, 2009). Em resumo, a perspeciva gover- namental caminha no senido da integração da pequena agricultura ao agronegócio; a dos movimentos sociais é a de manter a autonomia e as condições de vida do pequeno produtor.

Nas deinições de agricultura familiar, encontradas na legislação e na literatura acadêmica1, o ponto em comum que interessa aqui é o fato de que a família possui a posse dos meios de produção, gerencia e realiza o trabalho embora possa contar, eventualmente, com trabalho adicional.

Veiga (2004) e Abramovay (1992) deinem o agricultor familiar como produtor integrado ao mercado, que conta com o apoio de políicas pú- blicas e incorpora tecnologia no processo produivo. Neves (2001) não re- conhece a agricultura familiar como conceito teórico. A autora alega que o termo apenas descreve e classiica um segmento de produtores rurais que está sendo, poliicamente, forçado a modiicar a forma de integração econômica e social e sugere um padrão ideal de ser e de exisir como agri- cultor, pressupondo que as históricas diiculdades subjeivas e materiais dos pequenos produtores brasileiros foram superadas. Também para Fer- nandes (2003), agricultura familiar não é conceito, é apenas condição para organização do trabalho na lavoura e os agricultores familiares também podem ser chamados de pequenos agricultores, posseiros, arrendatários, meeiros, quilombolas, assentados, entre outros, porque o que os deine como grupo social é o fato de lutarem para ter e permanecer na terra.

Polêmicas conceituais à parte, o fato é que os números oiciais têm revelado a expressiva paricipação da pequena agricultura familiar na economia do país que, em 2006, era desenvolvida em 84,4% dos esta-

1 Em síntese, a delimitação do que é agricultura familiar envolve o tamanho da área disponível,

a renda da família, a quaniicação da natureza do trabalho uilizado e a gestão da proprie- dade. As diferenças entre os critérios uilizados para delimitar o que é agricultura familiar, encontram-se no tamanho da área e na renda. De acordo com a Lei da Agricultura Familiar – Lei n. 11.326 de 24/06/2006, ela é desenvolvida por proprietários de até quatro módulos is- cais cuja renda é, predominantemente, originada das aividades ali desenvolvidas; o estudo Incra/Fao (Guanziroli et al., 2001), deiniu uma área superior, 15 módulos médios regionais, e uilizou a renda apenas como elemento para classiicar os ipos de agricultores familiares (França et al., 2009).

belecimentos agrícolas, ocupava 24,3% da área e se responsabilizava por produzir os principais itens do abastecimento alimentar: 87,0% da pro- dução nacional de mandioca, 70,0% do feijão, 46,0% do milho, 38,0% do café, 34,0% do arroz, 58,0% do leite, 59,0% do plantel de suínos, 50,0% do plantel de aves, 30,0% dos bovinos, e produziam 21,0% do trigo e 16,0% da soja. 12,3 milhões de pessoas estavam vinculadas à agricultura familiar (74,4% do pessoal ocupado no campo) sendo que 90% dessas pessoas possuíam laços de parentesco com o produtor. No entanto, 909 mil pes- soas inham menos de 14 anos de idade e sete milhões não sabiam ler e escrever (IBGE, 2006a). A parir desta informação é possível inferir que a paricipação dos jovens na agricultura familiar tem sido expressiva. Uili- zando método especíico para delimitar o universo da agricultura familiar, Guanziroli et al. (2001), criaram uma ipologia para estabelecer uma dife- renciação socioeconômica entre os produtores familiares e ideniicaram quatro ipos: os agricultores capitalizados (a); em processo de capitaliza- ção (b); em processo de descapitalização (c); e os descapitalizados (d).

É com base na perspeciva de Fernandes (2003) que o termo agricul- tura familiar está sendo aqui uilizado, porque se trata de situar o trabalho do jovem rural, justamente, no espaço compreendido entre uma deter- minada concepção de trabalho que tem a família como agente central de planejamento e execução do processo produivo e a possibilidade de con- tar (ou não) com a paricipação dos jovens.

Ocorre que os assentados de reforma agrária são, de acordo com a classiicação de Guanziroli et al. (2001), ipicamente, produtores fami- liares do ipo D ou descapitalizados, embora eles não formem um grupo homogêneo do ponto de vista socioeconômico e cultural em razão da re- gião onde vivem, do tempo de existência do assentamento, das caracte- rísicas socioculturais das famílias, entre outros fatores, como mostraram Sparovek (2003) e Leite, Heredia, Medeiros, Palmeira, e Cintrão ( 2004). Assim sendo, surge a questão de como desenvolver projetos produivos nos lotes de modo a, de fato, inserir e manter os jovens nos assenta- mentos rurais e dar coninuidade ao projeto políico de reprodução da pequena agricultura.

Aqui residem duas questões importantes para releir sobre as políi- cas públicas de inserção e permanência dos jovens no campo. O primeiro é que a apologia da agricultura familiar e o não correspondente invesimen-

to em políicas efeivas de ixação dos trabalhadores adultos ou jovens no campo provocam tensões e pode comprometer o futuro dos assen- tamentos rurais como unidades de reprodução da pequena agricultura. O segundo problema é que, entre os trabalhadores rurais assentados, o jovem é uma categoria social ainda pouco estudada e, ao ser estudada, ela tem sido representada de forma ambígua: ora como apáica, portado- ra de expectaivas educacionais, culturais e proissionais inferiores às dos jovens urbanos, o que expressa os olhares generalizantes e preconceituo- sos com que a questão tem sido tratada; ora como agentes de mudanças, portadores de capacidade de empreender lutas sociais em favor dos seus interesses.

A relexão proposta neste texto fundamenta-se no entendimento de que os limites que se interpõem entre as diferentes gerações são constru- ções históricas e sociais, expressam relações de poder que delimitam cam- pos, designam lugares, produzem ordens e hierarquias sociais de modo que os grupos que se encontram numa determinada idade biológica são heterogêneos, do ponto de vista psicossocial. Assim, as representações dos jovens sobre trabalho e vida variam conforme as diferentes juven- tudes, como disse Bourdieu (1983). Também apoiadas neste referencial, Nakano e Almeida (2007) referiram que, para compreender a condição juvenil contemporânea, é necessário levar em conta as relações que os jovens estabelecem com o trabalho e os movimentos e ritmos próprios de três importantes instâncias de reprodução social: família, escola e trabalho. A representação social de juventude como fase de preparação para entrada no mundo do trabalho tem sido hoje quesionada diante do aumento dos índices de desemprego e da necessidade que possuem os jovens de combinar trabalho e escola. Para essas autoras juventude é categoria abstrata e jovem é sujeito concreto, que sofre constrangimentos em função do lugar que ocupa na estrutura social e das relações que se estabelecem entre as gerações. Atualmente, os jovens formam os grupos sociais mais vulneráveis diante das mudanças do mundo do trabalho.

Embora as fronteiras do rural não estejam, atualmente, tão delimi- tadas do ponto de vista socioeconômico e cultural, os jovens que habitam os espaços rurais têm as suas especiicidades. Castro, Marins, Almeida, Rodrigues, e Carvalho (2009), ao analisarem temas e categorias uiliza- das nos estudos sobre juventude rural, mostraram uma modiicação nas

concepções de jovens rurais a parir da década noventa: de reprodutores da unidade familiar para migrantes em busca de melhores condições de existência. Segundo as autoras, os jovens tornaram-se personagens cen-