1.1. INTERDEPENDÊNCIA COMO UM TIPO IDEAL
1.1.5. Política e ideologia
Para sair do enfoque até então desenvolvido e adentrar ao campo da
política, pode-se empregar o pensamento de Nye e Keohane que afirmam que a
economia tem aumentado sua importância na política internacional, entretanto a
ciência econômica ocidental abstrai a política em seus cálculos para obter maior
precisão nas explicações econômicas. Porém, para os cientistas políticos isto não é
suficiente, pois devem considerar os elementos não apreciados pelos economistas
(NYE; KEOHANE, 1977, p. 38-39).
Tal como versam Jackson e Sorensen (2007, p. 325), a política é o mapa
guia das ações governamentais, um curso ou método de ação selecionado entre
alternativas pra orientar e determinar decisões. É parte da conduta e da
administração racional do governo no gerenciamento das questões do país. Desta
forma, deve-se procurar elementos, além dos anteriormente estudados nas relações
de interdependência, que possam explicar tal dimensão política.
Nye e Keohane (idem, p. 37; 127) consideram que os processos políticos em
condições de interdependência podem ser analisados a partir de cinco elementos:
a) objetivos dos atores; b) instrumentos da política de Estado; c) formação da
agenda; d) articulação das questões; d) papel das organizações internacionais.
Sobre os objetivos dos atores, estes podem variar de acordo com cada
questão em pauta, sendo que objetivos transgovernamentais, tratados
exclusivamente pelos agentes dos Estados,são mais difíceis de serem alcançados,
ao passo que os objetivos perseguidos pelos atores transnacionais não
governamentais podem não ser os mesmos do governo e, por vezes, são
alcançados com menores percalços.
Quanto aos instrumentos de política do Estado, os autores destacam os
recursos de poder, que variam de acordo com a questão a ser tratada. Destacam
igualmente a manipulação da interdependência como um importante instrumento,
pois está diretamente ligado à posse de recursos de poder e de capacidade de
utilizá-los.
A formação da agenda pode ser influenciada pela mudança na distribuição
dos recursos de poder e pela politização de questões que ganham maior
importância. Grupos internos podem levantar uma questão latente e politizá-la;
havendo agitação e controvérsia, tal questão pode chegar ao topo da agenda
governamental (ibidem, p. 33).
Para a articulação de questões entre Estados, a abordagem de Nye e
Keohane restringe-se, neste ponto, a destacar que entre Estados fortes ou com mais
recursos de poder, a articulação não será efetiva devido à disputa pelo poder,
enquanto que Estados fracos tendem a articular-se através da aproximação com
organizações internacionais.
Por último, cabe citar o papel das organizações internacionais, sobre as
quais os autores salientam que seu papel no processo político concentra-se em
induzir coalizões e assumir o papel como arena de ação política de Estados fracos,
participando de fóruns internacionais, procurando influenciar nas votações e
tornando assim a mobilização um importante recurso político.
Esta breve descrição tem o intuito de demonstrar que destes elementos, os
três primeiros encontram no objeto de estudo desta pesquisa um terreno fecundo
para compor uma análise política, enquanto que os dois últimos têm papel
secundário. Sendo assim, os objetivos dos atores, os instrumentos da política de
Estado e a formação da agenda são os elementos utilizados na abordagem política
desenvolvida, considerando-se a definição de Jackson e Sorensen para eleger os
conceitos que aqui se tornaram úteis.
Desta forma, observada a questão a que esta pesquisa se propõe a
responder, a análise dos fatores políticos terá como base o pressuposto de que os
governos dos Estados buscam objetivos definidos, priorizados de acordo com a
formação da agenda do governo e executados utilizando os instrumentos
disponíveis para a política estatal, sendo o principal destes instrumentos a posse de
recursos de poder4.
Para o presente objeto de estudo, pode-se qualificar o objetivo como a
busca da efetivação e manutenção do comércio do recurso energético entre as
partes com menores custos e maiores benefícios possíveis e os recursos de poder
como a posse dos recursos físicos e tecnológicos envolvidos na relação, bem como
o grau de vulnerabilidade e dependência.
Porém, há outro elemento de suprema importância para o processo político.
Em condições de interdependência, as questões políticas internas e externas são
difíceis de serem separadas e os fatores internos freqüentemente influenciam nas
decisões da política externa (ibidem, p. 8). Assim, quando um Estado realiza
negociações com outro, deve conhecer sua realidade interna e as suas intenções de
política externa (JACKSON; SORENSEN, 2007, p. 326). Nesta ligação entre política
interna e externa e na influência de uma sobre a outra, reside este outro fator que
pode determinar a escolha de uma opção política em detrimento de outra: a
ideologia.
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