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2.2 DISCURSIVIDADES NA CIDADE

2.2.2 Política e imprensa

No tocante à segunda década do século XX, destaca-se que a mesma foi marcada por uma situação de crise no Rio Grande do Sul, devido à recessão econômica e ao recuo da demanda mundial, sendo o setor pecuarista o mais atingido, visto a retração no consumo de carnes na Europa no período. Nessa conjuntura desfavorável, Borges de Medeiros50, presidente do Estado na época, pôs em prática uma política de modernização dos transportes, cobrando dívidas dos criadores de gado, fato que levou muitos destes à falência e a um conseqüente descontentamento51, resultando na chamada Revolução de 1923 a qual teve, como uma de suas principais causas, tal política adotada pelo borgismo, bem como a excessiva incidência de fraudes eleitorais no pleito de 1922.

Neste ano, Borges resolveu se candidatar mais uma vez à presidência do Estado, contando com a força do PRR, cuja política aceitava fazer uso de alternativas com base na violência, com o intuito de garantir a reeleição, o que de fato ocorreu. Objetivando destituir o poder das mãos de Borges de Medeiros, articularam-se três grupos oposicionistas ao governo, os federalistas, os

49 ALVES, IDEM.

50 Representante da primeira geração republicana, Borges de Medeiros procurou dar continuidade ao projeto político do castilhismo do qual foi um dos maiores representantes, sendo fiel executor do positivismo. Manteve-se no poder de 1898 até 1928 e sua única interrupção como governante ocorreu entre os anos de 1909 a 1913, quando, impedido de se reeleger, faz seu sucessor, Carlos Barbosa Gonçalves.

51 KÜHN, IDEM, p. 120.

democratas e os dissidentes republicanos, sendo todos formados por parcelas descontentes da elite rio-grandense.

Destaco que o coronelismo foi politicamente importante no Rio Grande do Sul – fato que influenciou não só na política do Estado, mas também as relações de gênero – ao menos até 1937, quando a implantação do Estado Novo fez perder sentido o sistema representativo e, conseqüentemente, a base da estrutura de poder dos coronéis, ou seja, o controle das eleições. A fraude eleitoral constituía-se em prática corrente, através da falsificação de atas, do voto de pessoas já falecidas, e de estrangeiros, além do chamado voto de cabresto52, sendo este uma das características primordiais de tal política.

Visto que o jornal analisado ligava-se aos ditos dissidentes republicanos, a crítica referente ao sistema eleitoral fraudulento estava presente no interior do discurso de O Tempo, como pode-se aferir no trecho a seguir:

O voto feminino

(...) Os cavalheiros que andam a cogitar a extender o direito de voto ás mulheres estão apenas a querer fazer-lhes um gracioso presente. São muito gentis. Mas procederiam melhor tratando primeiro, com um pouco de esforço tenaz e sincero, de transformar em realidade essa ficção que é „eleitor‟ indígena e essa mentira que são as „eleições‟ no Brasil (...)53.

É interessante observar certas contradições no interior do discurso do periódico, no que concerne à imbricação entre o pensamento positivista e a concepção republicana versus a ideologia da dissidência – defendida por Cadaval. Como já explicitado, fixada no Rio Grande do Sul a partir do século XIX, a imagem da mulher como “anjo da casa” deveu-se à forte influência do positivismo no Estado, cujos ideais remetiam a Auguste Comte e foram largamente difundidos a partir do governo de Júlio de Castilhos54.

Considerando que o diário analisado encontrava-se em posição contrária ao regime republicano, de que forma ocorreu a apropriação destes estereótipos referentes às identidades de gênero55? Ao considerar que as mudanças nas mentalidades se processam lentamente no interior de uma dada sociedade, certos arquétipos identitários modificam-se apenas através da longa

52 “Do ponto de vista eleitoral, o „coronel‟ controlava os votantes em sua área de influência. Trocava votos, em candidatos por ele indicados, por favores tão variados quanto um par de sapatos, uma vaga no hospital ou um emprego de professor” FAUSTO, Boris. História concisa do Brasil. São Paulo, Editora da USP: 2006, p. 149.

53 O Tempo, 10/07/1923: ano XVII nº 169. 1ª p. 2ª coluna.

54 Eleito presidente do Estado em novembro de 1893. FAUSTO, 2006, p. 144.

55 “A oposição aberta ao sufrágio feminino foi declarada não apenas nos tribunais, mas também na imprensa – livros, revistas e jornais, com artigos e caricaturas satíricas - nas permanentes conversações entre pessoas de todas as classes e níveis, nas ruas e nas casas. (HAHNER, 2003: p. 316 e 317)”.

duração. Mesmo colocando-se em oposição ao governo vigente, o jornal imprimia a consideração de que a população feminina fazia-se inapta a exercer qualquer atividade política, caracterizando-a como infcaracterizando-antil; tcaracterizando-al como caracterizando-a ideologicaracterizando-a56 cujo cerne almejavam combater.

Ressalto que os primeiros anos da República brasileira foram demasiado conturbados, visto a crescente decepção com o regime, que havia sido implantado no ano de 1889, ou seja, menos de meio século vigente. Além disso, a conjuntura histórica do Rio Grande do Sul no período também contou com inúmeras atribulações, as quais suscitaram a chamada Revolução de 1923. Nesse sentido, a indignação com a política no país imbricou-se ao surgimento do movimento feminista, o que parecia ter desagradado ainda mais àqueles que detinham poderes e meios de influenciar a sociedade57.

Na medida em que a crise do período ligava-se de forma mais evidente ao setor agropastoril, a cidade do Rio Grande encontrava-se em posição privilegiada no que se refere à economia, pois não era sustentada, primordialmente, por esta atividade. Possuía mais de trinta fábricas, cujos produtos, geralmente bens de consumo não-duráveis, eram comercializados em todo o país, e abrigava um dos mais importantes portos marítimos do período, sendo este a

“principal porta da Província58”, onde se realizava comércio de importação de produtos europeus, principalmente ingleses, além de negócios com a região platina e o comércio interior59.

Nesse sentido, Rio Grande foi considerada uma das maiores e mais influentes cidades sul-rio-grandenses à época60. Nesse âmbito, a cidade, contava, em princípios da década de 1920, com a soma populacional orçada em 50.500 habitantes61. Conforme se depreende do estudo do historiador Bittencourt62 sobre os teatros no Rio Grande do Sul, já na década de 30 do século XIX, a cidade do Rio Grande construíu o seu primeiro teatro, o Sete de Setembro, demonstrando a predisposição do poder público e da comunidade em apoiar e promover as atividades culturais.

56 Neste caso, ligada ao republicanismo e ao positivismo.

57 “Como os positivistas do século XIX, outros antifeministas, afirmando considerar as mulheres „diferentes‟ e não

„inferiores‟, declaravam que a superioridade moral da mulher requeria o seu confinamento ao lar, longe do mundo corrupto da política (HAHNER, 2003, p. 317)”.

58 ISABELLE, Arsène. Viagem ao Rio Grande do Sul (1833-1834). Porto Alegre, Martins Livreiro: 1983, p. 77.

59 ALVES, Francisco das Neves. A imprensa na cidade do Rio Grande. Um catálogo histórico. Coleção Pensar a História Sul-Rio-Grandense, nº 32. Rio Grande, FURG: 2005, p. 09.

60 Embora a cidade não tenha permanecido alheia aos fatos de 1923, fato que fica evidente no discurso da fonte selecionada.

61 Sendo, em sua maioria, descendentes de portugueses, estes provenientes da ilha dos Açores, e adeptos à religião católica romana.

62 BITTENCOURT, E. Da Rua ao Teatro, os prazeres de uma cidade: sociabilidades e cultura no Brasil Meridional.

2ª ed. Rio Grande: Editora da FURG, 2007.

Tal observação pode ser confirmada se levarmos em conta que, no período destacado anteriormente, esse número de instituições aumentou substancialmente. Se ao final do século XIX destacavam-se o Theatro Sete de Setembro (1831) e o Polytheama Rio-grandense (1885), na primeira metade do século XX acrescenta-se àqueles a Sociedade União Operária (1902), o Cine-Teatro Carlos Gomes (1922), o Cine-Cine-Teatro Guarani (1922), o Cine-Cine-Teatro Avenida (1929), entre outros. Para Mascarenhas,

Neste ambiente cosmopolita, a vida cultural era intensa e sofisticada: as companhias de teatro, ópera e ballet européias, a caminho de Buenos Aires e Montevidéu, incluíam Rio Grande em seu roteiro, lotando o majestoso Teatro Sete de Setembro. Seguindo o padrão burguês de entretenimento, se implanta o banho de mar com fins de lazer e diversas atividades esportivas.

Segundo Francisco Alves, aliada ao significativo crescimento econômico, urbano, à expansão populacional e cultural63, a imprensa rio-grandina foi destacada do contexto regional, e mesmo nacional, como já mencionado. Deste modo, ressalta-se que nas principais cidades do interior, jornais cujo único intuito seria a notícia, ou seja, destituídos de filiação partidária militante, nunca conseguiram espaço duradouro na esfera pública, devido à compreensão política vigente, mesmo em centros proeminentes como Bagé, Pelotas e Rio Grande64. Nestes locais não faltaram publicações que procuraram romper com o exclusivismo político-partidário presente no país nos primeiros anos da República, mas a época não concebia a idéia de uma publicidade não-engajada.

O Tempo – fonte deste estudo – exemplifica bem o destino de tais publicações, pois surgiu com uma proposta informativa, que sobreviveu ao desafio da receptividade pública. Porém, apesar de manter uma seção noticiosa bem cuidada, terminou ligando-se à dissidência republicana, grupo contrário à política governamental do Rio Grande do Sul, e, por extensão, como oposição ao borgismo, até a década de 3065.

Tendo em vista que este trabalho conta com um recorte temporal o qual se estende até 1932, é importante destacar que os demais representantes do Estado no período – Getúlio Vargas,

63 Verificou-se que a cidade contava, no período, com quatro teatros, três salas de cinema, conservatório de música, escola de belas-artes, entre outras iniciativas culturais. PIMENTEL, Fortunato. Aspectos gerais do município de Rio Grande. Porto Alegre, Op. Gráfica da Imprensa Oficial: 1944.

64 RÜDIGER, Francisco. Tendências do jornalismo. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 1998, p. 57.

65 RÜDIGER, IDEM, p. 57.

Osvaldo Aranha, Sinval Saldanha e José Antônio Flores da Cunha66 - seguiram a linha política adotada por Borges de Medeiros, (baseada no castilhismo e, por conseqüência, ao positivismo) na medida em que o rompimento67 entre estes ocorreu apenas com a chamada Revolução Constitucionalista68, no mesmo ano de 1932.

Nesse sentido, cabe lembrar que o documento é sempre portador de um discurso69 que, assim considerado, não pode ser visto como algo transparente. Assim, os ditos produzidos e divulgados pelo periódico enfatizavam problemáticas acerca da política vigente. Ou seja, a imprensa, de maneira geral, é constituída a partir de empreendimentos que reúnem um determinado grupo de indivíduos, tornando-se projetos coletivos, agregando ideais, crenças e valores os quais pretende-se divulgar e difundir através da palavra escrita70. Nesse sentido, o uso da imprensa como fonte para a pesquisa histórica fornece informações específicas às interpretações do passado.

66 Sendo as seguintes datas, respectivamente: Vargas (25/01/1928 a 09/10/1930), Aranha (09/10/1930 a 27/10/1930), Saldanha (27/10/1930 a 28/11/1930) e Cunha (28/11/1930 a 17/10/1937).

67 Sendo este de cunho político e econômico, não modificando radicalmente a ideologia republicana.

68 “Liderada por Borges de Medeiros, uma facção da oligarquia gaúcha apoiava os paulistas, em detrimento do governo de Flores de Cunha e, conseqüentemente, de Vargas, exigindo a reconstitucionalização do país. (KÜHN, 2004: p. 125)”.

69 CARDOSO, Ciro & VAINFAS, Ronaldo (org). Domínios da História: ensaios sobre teoria e metodologia. Rio de Janeiro, Campus: 1997, p. 377-378.

70 LUCA, Tânia Regina. História dos, nos e por meio dos periódicos. In: PINSKI, Carla Bassanezi (Org). Fontes Históricas. São Paulo, Contexto: 2005, p. 140.

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