2.3 AS FACES DO COMPORTAMENTO DAS ORGANIZAÇÕES
2.3.3 Fundamentos essenciais do comportamento das organizações: cultura, política e
2.3.3.2 Política e seus correlatos: interesses, conflitos e controle
As circunstâncias sob as quais se dão as decisões e relações na organização são o resultado de elementos que não podem ser explicados somente do ponto de vista da lógica operacional. Os interesses pessoais ou grupais, que refletem a personalidade e o caráter dos indivíduos envolvidos, podem ter grande reflexo nas escolhas cotidianas podendo interferir de maneira decisiva nos resultados alcançados. Essas influências podem ser sentidas em simples questões como estar disponível para colaborar em assuntos corriqueiros ou nas grandes decisões que irão afetar o destino de várias pessoas ou até comunidades inteiras. Portanto, entender a cultura organizacional de maneira mais profunda só é possível quando se compreende as partes que a compõem e nesse aspecto conhecer os indivíduos que exercem maior influência sobre a organização é um elemento chave para desvendar a maneira pelas quais as coisas acontecem, afinal, uma organização é movida, em última análise, por interesses, crenças e sentimentos.
Ao analisar o comportamento dos indivíduos nas organizações, Morgan (1996), metaforicamente, o distinguiu como um sistema político em que se busca criar uma ordem e direção entre pessoas com interesses potencialmente diversos e conflitantes. Observa que os indivíduos são motivados por interesses pessoais que muitas vezes são ocultados, pois publicizá-los contrariaria a ideia ancestral geralmente impregnada na cultura das organizações de que seus membros devem ter um objetivo comum. A ideia de sistema político advém do juízo de que as pessoas devem buscar a conciliação nas diferenças sem a utilização do poder coercitivo. Sob esse viés, a organização passa a ser caracterizada como uma aproximação de pessoas independentes com interesses divergentes que se juntam por uma oportunidade de, por exemplo, “ganhar a vida”, desenvolver uma carreira ou perseguir um objetivo e a construção de uma coalizão entre os diversos atores é um aspecto fundamental que vai proporcionar a organicidade desejada.
A teoria organizacional frequentemente utiliza nomes para explicar a administração e a motivação das pessoas no trabalho com termos relativamente neutros, tais como: liderança, autonomia, participação e relações de trabalho, no entanto, essas ideias não são tão neutras quando as ligamos aos jogos políticos das organizações. A política das organizações se evidencia mais claramente quando envolve conflitos2 e jogos de poder que ocupam os centros das atenções, mas normalmente e em volume muito maior ocorre de modo invisível exceto aos diretamente envolvidos. A política organizacional nasce quando as pessoas pensam e querem agir de maneira diferente, criando uma tensão que precisa ser resolvida por meios políticos, sendo que a escolha do caminho a ser seguido, normalmente, baseia-se na relação de poder entre os atores envolvidos. As situações divergentes dão origem a conflitos, visíveis ou invisíveis, que são resolvidos ou perpetuados conforme as forças de poder se movimentam. (MORGAN, 1996).
Robbins (2009, p. 181) afirma que quando os funcionários traduzem seu poder em ações, estão fazendo política e suas habilidades políticas se revelam quando são capazes de utilizar eficazmente suas bases de poder. Também define comportamento político nas organizações como
Aquelas atividades não requeridas como parte de seu papel formal na organização, mas que influenciam, ou tentam influenciar, a distribuição de vantagens e desvantagens dentro dela. [...] abrange esforços para influenciar os objetivos, os critérios ou os processos por meio dos quais se chega à tomada de decisão.
Segundo Morgan (1996), as ações políticas são desencadeadas conforme os interesses que, por sua vez, são motivados por valores, desejos, expectativas, entre outras inclinações que fazem as pessoas agirem da maneira que agem. Algumas pessoas realizam o seu trabalho como um fim em si mesmo, já outras estão mais preocupadas com sua carreira, outros com sua vida pessoal e assim por diante, esses interesses variados as levam a certos padrões comportamentais específicos tais como rigidez, “proteção do espaço”, zelo, neutralidade, comprometimento, agressividade, etc.
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2O conceito de conflito aqui adotado está vinculado à visão interacionista sob a qual, segundo Robbins (2009), o
conflito deve ser percebido de acordo com sua natureza, tornando inapropriado classificá-lo como sempre ruim, pois uma organização sem conflitos pode se tornar apática e incapaz de evoluir. Portanto, sob essa ótica, é necessário sustentar um nível mínimo e constante de contestação – o suficiente para manter o grupo ativo, autocrítico e criativo.
Uma vez que haja definição dos objetivos globais, passa a existir frequentemente desacordo quanto aos objetivos específicos, uma vez que é nesse nível que os interesses passam a divergir em maior grau. Como a organização deve funcionar com um grau mínimo de consenso, então, passa a aceitar soluções satisfatórias, em lugar de ótimas para os problemas, usando negociação e transigência, que se tornam mais importantes do que a racionalidade técnica. (MORGAN, 1996).
Robbins (2009) descreve alguns comportamentos políticos comumente vistos nas organizações e que influenciam seu cotidiano, tais como: retenção de informações importantes para os tomadores de decisão, denúncia de colegas, o arquivamento de reinvindicações, a divulgação de boatos, a troca de favores ou o lobby para favorecer ou prejudicar um indivíduo ou uma decisão. Dentre os ambientes mais favoráveis para o surgimento das atividades políticas estão aqueles cujas culturas se caracterizam pelo baixo nível de confiança, ambiguidade dos papéis, onde ocorrem processos de tomada de decisões democráticos e cúpula de executivos egocêntricos.
Nesses ambientes a política é algo natural e representa uma resposta às tensões criadas entre os indivíduos e organizações. A disputa por orçamento e espaço, o estabelecimento de padrões de trabalho, a conquista de benefícios, dentre outras, se dão por meio de sutis pressões como forma de ganhar sem infringir as regras do jogo, outras vezes decisões são tomadas movidas por ressentimentos que, não raro, podem se transformar em forças poderosas na vida organizacional. De qualquer forma, o conflito continuamente estará presente nas organizações, sempre fruto da divergência de interesses, podendo ser explícito ou não, pessoal, interpessoal ou entre grupos rivais, sistemas de competição e colaboração coexistem simultaneamente. (MORGAN, 1996).
Contudo, diferentemente daqueles que conseguem ser bem sucedidos nas práticas políticas, há aqueles que não possuem essa habilidade ou mesmo não estão dispostos a participar dessas práticas e para estes os resultados costumam ser, na maioria das vezes, negativo, podendo resultar em redução da satisfação no trabalho, aumento da ansiedade e estresse, aumento da rotatividade e declínio no desempenho. Existe, portanto, forte evidência de que a percepção da política está relacionada com a satisfação ou insatisfação no trabalho, podendo gerar um efeito desmotivador que se refletirá no desempenho do funcionário. (ROBBINS, 2009).
Outro aspecto levantado por Robbins (2009, p. 185) foi que quando a indivíduo entende os “comos” e os “porquês” que motivam determinadas decisões a insatisfação com as ações políticas tendem a ser moderadas.
Quando a compreensão é grande e a política também, o desempenho tende a subir. [...] Mas quando a compreensão é pequena, a política tende a ser encarada como uma ameaça, o que exercerá um efeito negativo sobre o desempenho. Segundo, quando a política é tida como uma ameaça e desperta atitudes defensivas, os sentimentos negativos têm maior probabilidade de vir à tona. Quando as pessoas percebem a política como uma ameaça e não uma oportunidade, elas geralmente respondem com comportamentos defensivos – atitudes reativas e protetoras para evitar a ação, a culpa ou a mudança.
Analisar a organização sob a perspectiva política possibilita ao gestor traçar estratégias de ação e comunicação que permitam minimizar os impactos negativos relacionados ao ambiente político. No entanto, a política deve ser utilizada com parcimônia, pois de maneira geral não é compreendida e aceita por todos, pelo menos não completamente, principalmente entre aqueles que exercem papéis mais técnicos e que, geralmente, não têm as informações necessárias para aceitar de maneira natural as disposições políticas. Inobstante, a política é fundamental para dirimir questões em que o repertório técnico não é suficiente para oferecer respostas adequadas ou mesmo para imprimir os valores de uma ideologia à prática operacional. Onde a legislação deixa margem à discricionariedade, é a política que vai orientar os rumos da organização.