A Constituição brasileira de 1891, que marca a transição do sistema monárquico para o sistema republicano, não incorporou os povos indígenas ao texto constitucional, revelando uma conduta alheia à existência dos povos indígenas no Estado brasileiro e, sobretudo, o direito sobre as suas terras que tradicionalmente ocupavam. O que também a caracteriza é seu aspecto descentralizador dos poderes, ao dar autonomia aos municípios e aos estados, as antigas províncias. A referida constituição, segunda constituição do Brasil e primeira constituição da República, trouxe em seu texto a transferência das terras devolutas aos estados:
Art 64 – Pertencem aos Estados as minas e terras devolutas situadas nos seus respectivos territórios, cabendo à União somente a porção do território que for indispensável para a defesa das fronteiras, fortificações, construções militares e estradas de ferro federais (BRASIL, 1891).
Conforme esclarece Cunha (2006, p. 26), os conceitos de terras devolutas e terras indígenas foram tratados, na prática, como sinônimos. Portanto, o que se verifica é que os estados no ato de concessão de terras devolutas aos particulares, por meio de títulos de propriedades, além de ignorarem a ocupação dos povos originários em suas terras, legitimavam toda terra indígena como terras devolutas destinadas ao povoamento e colonização.
Maciel (1999, p. 174) aponta que, paralelamente aos trabalhos de construção da linha e das estações telegráficas, das estradas e pontes, realizavam-se a exploração e a documentação científica do território, utilizando-se dos conhecimentos técnicos e equipamentos mais recentes e modernos possíveis.
Nesse espaço linear e homogêneo, a burguesia situa a ideia de progresso e o atribui à tecnologia. Em seus primeiros momentos, em especial durante a Revolução Industrial, a burguesia acreditou na tecnologia e em seus poderes mágicos. E essa crença é tão forte que se criou a ideologia de que não há problema humano que não possa ser resolvido pela tecnologia. Acredita-se que os avanços tecnológicos realizados desde a modernidade não têm precedente na história humana e que eles se devem especificamente à razão moderna e ao capitalismo (DÁVALOS, 2011, p. 21).
O Projeto Rondon, ao apresentar suas “descobertas” e representá-las em mapas, ia apropriando-se de espaços ao renomear rios, serras e campos. Procedendo dessa forma, buscava-se incorporar o espaço dito “vazio” ao território nacional, apagando vestígios dos vínculos das populações locais com suas terras. Nessa perspectiva, o governo, ao buscar o controle do território, fez do telégrafo um “instrumento de civilização” para garantir que os indígenas ainda não contatados fossem brasileiros, e, mais do que isso, mão de obra destinada à defesa das fronteiras para construção da nação (MACIEL, 1999, 170-73).
A criação do Serviço de Proteção aos Índios e Localização de Trabalhadores Nacionais (SPILTN), a primeira agência leiga do Estado brasileiro destinada a assistir aos indígenas, se deu a partir de integrantes do Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio (MAIC), do Apostolado Positivista e do Museu Nacional. Para dirigir o SPILTN, foi feito um convite ao engenheiro-militar Cândido Mariano da Silva Rondon, pela experiência adquirida no contato com os indígenas no âmbito das Comissões de Linhas Telegráficas do Mato Grosso ao Amazonas (BIGIO, 2007, p. 22).
O SPILTN, criado a 20 de junho de 1910, pelo Decreto nº 8.072, de acordo com Art. 1º, teve por fim:
a) Prestar assistência aos índios do Brazil, quer vivam aldeiados, reunidos em tribus, em estado nômade ou promiscuamente com civilizados;
b) estabelecer em zonas férteis, dotadas de condições de saiubridade, de mananciais ou cursos de agua e meios fáceis e regulares de comunicação, centros agrícolas, constituídos por trabalhadores nacionais que satisfaçam as exigências do presente regulamento (BRASIL, 1910).
Com o propósito de promover a mudança da condição de índio para trabalhador nacional, determinou-se por lei a promoção da instrução educacional primária e profissional; o fornecimento de ferramentas e de animais domésticos, e a introdução em territórios indígenas da indústria pecuária. O objetivo era garantir mecanismos e dispositivos de dominação para homogeneização, criação de uma identidade nacional, nacionalização dos povos indígenas, conforme está disposto no Decreto nº 8.072, nos § 14, 15 e 16 do “Capítulo I – Da Protecção aos Indios” (BRASIL, 1910). É nessa identidade nacional que surge a divisão nacional, que impõe um espaço “vazio” onde não há, impõe uma homogeneidade onde há diversidade.
Em 1918 o SPILTN passa a ter uma nova configuração, o Serviço de Proteção aos Índios (SPI) é separado da Localização dos Trabalhadores Nacionais por meio do Decreto-Lei nº 3.454, de 6 de janeiro de 1918. Em 1930, o SPI passou a integrar o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, em 1934 foi transferido ao Ministério da Guerra e, em 1939, voltou ao Ministério da Agricultura onde permaneceu até sua extinção em 1967 (FEITOSA, 2014, p. 26).
De acordo com o Boletim Informativo do SPI do ano de 1943, a emancipação indígena
só se dará quando serventuários indígenas aos poucos ingressados nos empregos e administração dos Postos bastarem a todos os cuidados e funções, e os índios possam atender, por si, as suas necessidades, as rendas bastando para todas as despesas. O SPI, nesse caso, se despedirá dos seus pretegidos, certo de que já não carecem do seu amparo, e poderão por si mesmos subsistir, como célula ou distrito do organismo Municipal a que estiverem territorialmente ligados. É um processo demorado e nestas condições não possuiremos nos próximos anos nenhum Posto Indígena (SPI, 1943a, p. 3).
Destaca-se aqui a importância do Posto Indígena como agência de capacitação para o mercado regional e local, pois, atingida a emancipação, os indígenas teriam vínculos com a localidade a que estivessem territorialmente ligados.
Com o propósito de apurar denúncias que eram feitas ao SPI, o então Ministro do Interior, Albuquerque Lima, em 1967 constituiu uma Comissão de Inquério para investigar e apurar irregularidades no SPI. Diante disso, um relatório foi elaborado pelo Procurador Jader de Figueiredo Correia. Como resultado verificou-se que “o Serviço de Proteção aos Índios foi antro de corrupção inominável durante muitos anos”. O Procurador Jader de Figueiredo Correia relatou que a corrupção imperou no SPI por 20 anos num regime de impunidade e no Ministério da Agricultura, ao qual era subordinado o SPI. Havia aproximadamente 150 inquéritos que foram instaurados sem jamais resultar em demissão de qualquer culpado. Diante disso, a Comissão de Inquérito, após requisitar os processos, soube que haviam eles sido transferidos para Brasília, onde foram destruídos por um incêndio que atingiu o edifício sede juntamente com a sede do SPI (CORREIA, 1967, p. 5).
28 – Imagem: Síntese do “Relatório Figueiredo” – Portaria nº 239/67
Fonte: Armazém da Memória – Documentos Indígenas. Disponível em: <http://www.docvirt. com /docreader.net/docreader.aspx?bib=DocIndio&PagFis=1>. Acesso em: 6 jun. 2014. Nota 1: Por meio da Portaria nº 239/67 foi constituída a Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar irregularidades no Serviço de Proteção aos Índios (SPI), decorrente de graves denúncias. Por meio deste relatório se confirmaram diversos crimes que no SPI se praticavam ferindo as normas do Estatuto, do Código Penal e Código Civil.
Nota 2: Este relatório produzido entre novembro de 1967 e março de 1968, composto por 20 volumes com 4.942 folhas e mais seis volumes anexos com 550 folhas, ficou conhecido por “Relatório Figueiredo”. Permaneceu por 45 anos desaparecido, supostamente destruído em um incêndio criminoso em junho de 1967 no antigo SPI. O relatório foi recentemente encontrado no Museu do Índio no Rio de Janeiro por Marcelo Zelic, pesquisador e vice- presidente do Grupo Tortura Nunca Mais de São Paulo e coordenador do projeto Armazém Memória.
De acordo com Bigio (2007, p. 27- 28) o Decreto nº 58.824, de 14 de julho de 1966, que promulgava a Convenção nº 107 da OIT tornou-se referência para a criação da Fundação Nacional do Índio (Funai), Lei nº 5.371 de 5 de dezembro de 1967, em substituição ao SPI.
O governo então envolve a criação da Funai em um clima de grandes promessas. Diante da impossibilidade de negar o genocídio, o governo pretendia demonstrar que não o aprovava, pois as denúncias de genocídio contra os indígenas alcançavam grande expressão no Brasil e também no exterior. Entretanto, havia dispositivos que introduziam na política indigenista uma filosofia intervencionista e foi atribuído à Funai o “controle e a administração das propriedades tribais, agora chamadas de Patrimônio Indígena, lançando as bases de um sistema empresarial no qual os índios” desempenhavam “o papel de mão-de-obra barata” (AEPPA, 1974, p. 7).