2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1 BREVE HISTÓRICO DA RC
2.2.3 Política na busca do bem‐estar: interesses, conflitos e poder
Mintzberg (1983) fala das intenções que estão por trás de nossas decisões e ações e que limitam as soluções possíveis, denominadas “metas” (goals) – e que quando expressas de forma que sua consecução possa ser medida, se tornam “objetivos” (objectives) –. Morgan (1996), por sua vez, utiliza o conceito de “interesses”, nos quais, também, toda atividade, inclusive organizacional, é baseada.
Ao se falar de ‘interesses’, fala‐se sobre um conjunto complexo de predisposições que envolvem objetivos, valores, desejos, expectativas e outras orientações e inclinações que levam a pessoa a agir em uma e não em outra direção. No quotidiano, tende‐se a refletir sobre os interesses de modo espacial, ou seja, enquanto áreas de importância que se deseja preservar ou ampliar, ou, então,
enquanto posições que se deseja proteger ou atingir (MORGAN, 1996, p. 153).
As pessoas podem perseguir seus interesses: (i) como indivíduos; (ii) como membros de grupos de interesse específicos, isto é, de “facções que se tornam conscientes de objetivos comuns”; ou (iii) como coalizões mais generalistas, de “dois ou mais grupos que se unem para perseguir interesses comuns” (MORGAN, 1996, p. 158). Ocorre que, devido a forças políticas, econômicas, sociais, evolucionárias e emocionais, além de ignorância, complexidade e interesses conflitantes (JENSEN, 2001), “os objetivos, prioridades e demandas de diferentes grupos [...] são diferentes e freqüentemente contraditórios” (AYUSO et al., 2007, p. 6). Por exemplo, o valor intrínseco que cada um atribui ao meio ambiente pode variar amplamente, o que gera diferentes interpretações e decisões. O objetivo de alguns quanto ao uso de uma terra pode ser o ganho econômico, enquanto o de outros pode ser a criação de um refúgio de vida selvagem. Da mesma maneira, um uso específico da terra pode ser visto como benéfico ou como um desperdício de recursos (STONE, 2002). O resultado dessa colisão de interesses percebidos ou reais é denominado conflito (MORGAN, 1996).
Além dos conflitos entre grupos, pode haver conflitos entre indivíduos dentro de um mesmo grupo e conflitos intra‐individuais, entre seus diversos papéis. Na definição de Hage (apud BIVINS, 1989, p. 65), papéis se referem aos “atos similares realizados pelos ocupantes de uma posição na interação”. Os “indivíduos usam diferentes ‘chapéus’ em diferentes momentos: um gestor pode usar o chapéu de membro de uma comunidade religiosa ou o de representante de uma associação industrial que colabora com a redução da regulação relacionada a produtos” (WINN, 2001, p. 137). Da mesma forma, um empregado ou gestor também pode ser pai, consumidor, cidadão, especialista e membro de um grupo em defesa do meio ambiente (FREEMAN, 1984; WINN, 2001). Andrade e Amboni (2007, p. 174) explicam que cada papel, em função dos quais as pessoas agem, “estabelece um tipo de comportamento, transmite uma certa imagem, define o que uma pessoa deve ou não fazer”. Como esses comportamentos dependem da interação ou da outra parte na interação, podemos ter comportamentos diferentes e inconsistentes com cada um dos grupos com os quais nos relacionamos, e sua possibilidade de consistência reside na existência de algo que subjaz em cada um de nossos papéis, como valores (FREEMAN, 1984).
para uma empresa com práticas prejudiciais ao meio ambiente, consome produtos de empresas ambientalmente irresponsáveis e, ao mesmo tempo, é membro de um grupo em defesa do meio ambiente (WINN, 2001). Como Mintzberg (1983) afirma, nenhum ser humano tem uma única meta; trade‐offs fazem parte de nossas vidas, e a maximização de uma única meta é impossível no mundo real – além de irresponsável, pois seria necessário esforço para realizar todo tipo de truque para extrair o máximo possível dos outros –. Assim, conforme Morgan (1996), alguns gerenciam para tentar sobrepô‐los e atingi‐los todos simultaneamente, delineando uma tarefa ou missão geral, e outros se contentam com concessões. O mesmo ocorre quando são incluídos outros atores, cada um com seus próprios interesses a serem perseguidos (MORGAN, 1996) e seus diversos papéis. Além disso, os indivíduos vivenciam diferentes graus de conflito (WINN, 2001).
Uma vez que “vivemos no meio de nossos interesses” e “freqüentemente percebe[mos] os outros como ‘intrusos’” (MORGAN, 1996, p. 153), conflitos estão sempre presentes nas organizações, explícitos ou implícitos, de natureza pessoal, interpessoal ou entre grupos e coalizões, dentro de estruturas organizacionais, papéis, atitudes e estereótipos (MORGAN, 1996). A política, conforme as idéias de Aristóteles, nasce justamente da diversidade de interesses – ou seja, “quando as pessoas pensam diferentemente e querem agir também diferentemente” –, que origina um processo de influência mútua (ataques e defesas) por meio de manobras, negociação e outros tipos de coalizões, a fim de resolver tensões e sustentar ou melhorar determinada posição (MORGAN, 1996, p. 152).
Hirschman (apud MINTZBERG, 1983, p. 23) afirma que um participante em qualquer sistema tem três opções no caso de conflitos de interesses ou metas: (i) ficar e contribuir conforme o esperado (lealdade); (ii) sair; ou (iii) ficar e tentar mudar o sistema (voz), o que torna o participante um influenciador. De acordo com Mintzberg (1983), quem decide ficar e lutar precisa exercer poder. O poder “é o meio através do qual conflitos de interesses são, afinal, resolvidos. [Ele] influencia quem consegue o quê, quando e como” (MORGAN, 1996, p. 163). É a “habilidade para conseguir que outra pessoa faça alguma coisa que, de outra forma, não seria feita” (Dahl apud MORGAN, 1996, p. 163). O mais importante, para Mintzberg (1983), é o poder exercido sobre as ações, e não sobre as decisões, que são apenas um comprometimento com a ação.
Influência é o efeito de um agente sobre um alvo (este pessoas, coisas ou eventos), que, no caso das pessoas, se dá sobre atitudes, percepções ou comportamentos, ou uma combinação deles. Conforme Mintzberg (1983), ela pode ser regular ou episódica, geral ou focada em um agente ou grupo específico, impessoal ou direcionada a indivíduos específicos em uma abordagem pessoal, que visa provocar uma nova iniciativa ou frear uma atividade em andamento, e formal (baseada em canais oficiais ou prerrogativas legais) ou informal.
A conseqüência da influência e sua magnitude, segundo Yukl (1998), podem ser as pretendidas pelo agente ou outras não pretendidas. “A influência do agente pode ser forte o suficiente para assegurar controle sobre o comportamento do alvo ou tão fraca que o alvo sinta pressão mas não seja induzido a fazer nada diferente” (YUKL, 1998, p. 176). De forma geral, conforme Yukl (1998), o resultado da influência pode ser:
• Comprometimento: “o alvo concorda internamente com a decisão ou pedido do agente” e “faz um grande esforço para executar a solicitação ou implementar a decisão eficazmente”. O alvo os considera intrinsecamente desejáveis e corretos de acordo com seus valores, crenças e auto‐imagem, nos quais passam a ser incorporados. Ocorre independentemente da expectativa de benefícios, e a lealdade é com as idéias em si, não com o agente.
• Compliance: “o alvo está disposto a fazer o que o agente pede, mas é apático em vez de entusiasmado sobre isso e fará somente um esforço mínimo”. A influência se dá só sobre o comportamento e não sobre as atitudes, pois o alvo não está convencido de que aquela decisão é o melhor a se fazer. Em geral, a motivação do alvo são os benefícios que pode obter do agente, mais especificamente, uma recompensa tangível ou evitar uma punição controlada pelo agente. Se este controle acabar ou eles deixarem de ser importantes, a compliance provavelmente cessará. • Resistência: “o alvo se opõe à proposta ou solicitação, em vez de ser apenas indiferente, e tenta ativamente evitar sua realização”. Ele apresentará desculpas sobre porque aquilo não pode ser feito, tentará persuadir o agente a retirar ou mudar a solicitação, pedirá a autoridades mais elevadas para negar o pedido, demorará a agir na esperança de que o agente esqueça a solicitação, fingirá compliance enquanto sabota a tarefa ou se recusará a executar o pedido.
Conforme Yukl (1998, p. 177), “poder geralmente se refere à capacidade de um agente de influenciar um alvo”, mais especificamente suas atitudes e comportamentos.
Entretanto, o termo tem sido usado também de outras formas: definido em termos relativos como a extensão em que o agente tem mais influência sobre o alvo do que o alvo sobre o agente (poder líquido), como a capacidade de influenciar sem medo de retaliação (poder usável), como influência potencial, ou como influência realmente exercida (poder exercido). Yukl (1998, p. 177) escolhe definir poder como a “influência potencial de um agente sobre as atitudes e comportamentos de uma ou mais pessoas‐alvos designadas”. Embora o foco seja em pessoas, a habilidade de influenciar decisões, eventos e coisas também são aspectos do poder (YUKL, 1998). Minzberg (1983), entretanto, trata poder e influência como sinônimos, sob o argumento de que não faz muito sentido distinguir o poder que se tem (potencial) do poder de fato utilizado ou exercido. De acordo com Mintzberg (1983), o poder requer três condições: 1 Uma fonte ou base de poder;
2 Dispêndio de energia, que se concentra nas questões mais importantes para o influenciador ou nas que mais o afetam. Torna‐se mais necessário quando o poder é informal e aumenta quanto menor a possibilidade de saída do sistema;
3 Habilidade política, quando necessária, que significa saber utilizar a fonte de poder com inteligência.
Mintzberg (1983) lista as fontes ou bases gerais de poder. Um primeiro grupo está fundamentado na dependência da outra parte em relação ao agente em questão, que por sua vez está baseada na existência de uma incerteza. Enquadram‐se, aqui, o controle sobre um recurso, sobre uma habilidade técnica ou sobre um conhecimento, desde que estes sejam considerados essenciais, insubstituíveis e concentrados nas mãos de uma ou poucas pessoas que cooperam de certa forma. Outra fonte de poder, neste caso formal, são as prerrogativas legais que conferem privilégios ou direitos exclusivos de impor escolhas (tanto o próprio governo como aqueles a quem são atribuídos certos poderes – os proprietários e gestores dentro de uma organização, por exemplo). Por fim, tem poder aquele que tem acesso, pessoal ou não, aos que detêm essas fontes de poder. Neste caso, além da dependência, Mintzberg (1983) menciona que o poder pode derivar também da reciprocidade, decorrente de uma troca de favores.
Yukl (1998, p. 189) comenta que “a forma mais fundamental de interação social é uma troca de benefícios e favores, que podem incluir benefícios não apenas materiais mas também psicológicos, como expressões de aprovação, respeito, estima e afeição”. São as
chamadas “trocas sociais”, tratadas pela Teoria da(s) Troca(s) Social(is), desenvolvida por Blau (1964) e outros autores. A teoria diz que, “quando uma parte fornece recompensas a outra, ela produz uma obrigação recíproca, e o nível de obrigação depende da percepção de equidade” (DAWKINS, 2002, p. 273). As expectativas dos indivíduos sobre tal reciprocidade e equidade, conforme Yukl (1998), são desenvolvidas desde cedo na infância, quando eles aprendem a se engajar em trocas sociais. Por meio dessas trocas, ganha‐se poder em algumas esferas e perde‐se em outras, na medida em que uma parte permite que a outra influencie suas respectivas atividades, como explica Mintzberg (1983).
Isto tudo reforça a afirmação de Yukl (1998) de que o poder não é estático; ele é adquirido e perdido conforme as mudanças das condições e as ações de indivíduos e coalizões – estas últimas formadas quando uma parte ou agente não tem poder ou meios suficientes para agir sozinho.
O poder está distribuído entre os diversos agentes na sociedade, com diferentes intensidades e com base em diferentes fontes de poder, e cada um tenta usá‐lo para atingir suas metas ou interesses (MINTZBERG, 1983). O aspecto político e as estruturas de poder estão presentes nas relações tanto entre mercado e Estado quanto entre diferentes atores e grupos sociais, em especial quanto à participação, poder e voz no processo decisório, quanto às alianças formadas e quanto a quem é silenciado (PRIETO‐CARRÓN et al., 2006; MATTINGLY; HALL, 2008). Morgan (1996, p. 153) explica que, conforme as relações de poder entre os envolvidos, as tensões podem ser resolvidas autocraticamente (“vamos fazer desta forma”), burocraticamente (“espera‐se que façamos desta maneira”), tecnocraticamente (“a melhor maneira de fazer isto é esta forma”) ou democraticamente (“como vamos fazer isto?”).
Tullberg (2005) alerta para a importância da integridade, isto é, do dever de não se fazer mau uso do poder que se tem. Morgan (1996) destaca a importância da existência de alguma forma de oposição para este controle, a qual pode não ser obtida quando os opositores são incorporados diretamente no processo decisório ou cooptados, pois estes perdem o direito de se opor. As normas sociais informais ou formais, consideradas elas próprias por Mintzberg (1983) meios de influência, também ajudam a realizar o controle do uso do poder.