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1 INTRODUÇÃO

1.3 Política Nacional de Saúde Integral da População Negra

A Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN) tem o objetivo de:

Garantir a equidade na efetivação do direito humano à saúde da população negra em seus aspectos de promoção, prevenção, atenção, tratamento e recuperação de doenças e agravos transmissíveis e não transmissíveis, incluindo aqueles de maior prevalência nesse segmento populacional, como por exemplo, a doença falciforme, miomatose, diabetes tipo 2, dentre outras (BRASIL, 2013).

Trata-se, portanto, do reconhecimento de condições de saúde-doença causadas pelas desigualdades raciais, que podem resultar até na morte de indivíduos, bem como pôr em prática políticas públicas que visam a diminuição dessas desigualdades (BATISTA, et al., 2013). Assim, é importante destacar que a evolução das políticas públicas que trazem a urgência de se colocar como temática central a superação do racismo institucional na saúde tem relação com a conquista do movimento social negro, na garantia de direitos que visam o avanço para além do aspecto jurídico-legislativo.

Destaca-se que os primeiros registros de discussões acerca da saúde da população negra apareceram na década de 1980 e foram formulados pelos ativistas do Movimento Social Negro. Em 1990, após manifestos da Marcha Zumbi dos Palmares, o governo federal

instaurou um Grupo de Trabalho Interministerial para Valorização da População Negra, com seu subgrupo de Saúde da População Negra, mas foi a partir de 2002 que foi possível discutir políticas específicas com a criação da Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial. Após muitos debates entre os órgãos públicos e movimentos sociais negros, em 2009, foi lançada a PNSIPN, uma resposta do Ministério da Saúde às desigualdades em saúde que acometem essa população (BRASIL, 2013). A PNSIPN define os princípios, os objetivos, as diretrizes, as estratégias e as responsabilidades dos diferentes níveis de gestão com o propósito de garantir maior grau de equidade, tomando os princípios do Sistema Único de Saúde.

Por outro lado, apesar da política instituída, os profissionais de saúde tendem a dizer que devido à universalidade, o sistema de saúde trata todos iguais, independentemente da cor, contribuindo, assim, para o apagamento e esvaziamento da discussão e consequente manutenção e ampliação das iniquidades (SANTOS J., et al., 2013). Muitos profissionais de saúde são contra políticas compensatórias ou de discriminação positivas, pois acreditam que a população negra não apresenta desigualdades que fazem com que necessitem de um tratamento equânime (CHEHUEN NETO, et al., 2015). Estudo realizado com psicólogos e sua percepção sobre o racismo institucional mostrou a falta de percepção do racismo institucional nos serviços de saúde; nesse estudo, a existência do racismo no país foi um fato confirmado por pelos participantes, mas não identificado nas relações de trabalho, salvo por poucos aspectos (TAVARES, et al., 2013). Com relação aos usuários dos serviços de saúde, estes desconhecem a PNSIPN, evidenciando uma falta de informação sobre as políticas públicas; porém, os usuários reconhecem a importância de tal política, mostrando que são favoráveis à mesma (CHEHUEN NETO, et al., 2015).

No que concerne à percepção e experiência do racimo pelos usuários, estudo realizado no município de São Paulo, evidenciou que 60,0% dos negros e 40,8% dos pardos relatam que existe discriminação racial nos serviços de saúde (KALCKMANN, 2007). Entretanto, outra pesquisa mostra que apenas 6,0% dos negros e 3,0% dos pardos referem já ter sofrido discriminação no atendimento à saúde (FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 2006). Estudo mais recente obteve prevalências semelhantes: 48,6% dos negros e 40,5% dos pardos perceberam a existência da discriminação de modo geral, no entanto, 7,0% dos negros e 6,1% dos pardos relataram já terem sofrido a discriminação (CHEHUEN NETO, et al., 2015). Esses resultados sugerem uma discrepância entre a percepção geral da discriminação e a sua ocorrência de fato.

Portanto, evidencia-se a necessidade de pesquisas que visem identificar o racismo dentro do SUS sob a ótica do usuário. Diagnosticando e delineando esse problema, é possível traçar metas e objetivos específicos para a sua superação, uma vez que a igualdade social só é alcançada através da equidade. Assim, considerando as desigualdades étnicorraciais e de gênero, que marcam o cotidiano da população negra, neste estudo questiona-se qual a percepção dos negros e negras em uma unidade de saúde de um município de grande porte da região sudeste do Brasil sobre o racismo institucional no atendimento de suas demandas em saúde sexual e reprodutiva.

Para tanto, optou-se neste projeto em atuar junto às mulheres e aos homens que procuram o serviço de saúde para o acompanhamento pré-natal. A presença do parceiro no pré-natal traz inúmeros benefícios para a família, pois pode aumentar o nível de informação sobre saúde sexual e reprodutiva, diminuir a frequência de depressão materna e paterna e impactar no controle de Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) (DUARTE, 2007). A presença do parceiro nas consultas de pré-natal pode ser também um momento de oportunidade de atendimento para o homem, possibilitando o tratamento do parceiro em caso de gestantes portadoras de IST, evitando a exposição daquelas que não foram infectadas e a reexposição daquelas que foram tratadas, melhorando, assim, o custo/benefício na profilaxia para esses casos (DUARTE, 2007).

Assim, este estudo justifica-se porque não foram encontrados na literatura científica trabalhos que tratem sobre o racismo nas assistências em saúde sexual e reprodutiva oferecidas à população negra, comparando a percepção entre negros e negras. Para tanto, o estudo será desenvolvido com base nos referenciais teóricos da raça e do gênero.