Bloco 3 Número de produtores Quantidade de lotes Total de lotes 1,5 ha 3 ha 4,5 ha 6 ha
5.6 POLÍTICA NACIONAL DE RECURSOS HÍDRICOS
De acordo com Silva (2014) a alocação justa e a proteção dos recursos hídricos devem ocorrer dentro de uma estrutura integrada de gestão e governança da água. Gestão integrada de
132 recursos hídricos é uma abordagem baseada nos ecossistemas, que considera as relações entre os sistemas de recursos naturais, processos biofísicos, e sistemas e objetivos socioeconômicos, com vista a integrá-los na gestão dos recursos hídricos (UNDP, 2004). Nesse sentido, a proposta apresentada nesta tese, configura-se como uma ferramenta que pretende promover a efetividade do envolvimento das partes interessadas também na gestão ambiental e dos recursos hídricos.
Durante a década de 1970 foi construída no Brasil uma série de reservatórios como, por exemplo, o Reservatório de Sobradinho, no trecho submédio da bacia hidrográfica do rio São Francisco, com a função primordial de regularização da vazão, constituindo-se o maior da América Latina, com uma área de 4.214 km2 e comprimento de 350 km, reassentando 70.000
pessoas. Nesta fase, o processo de tomada de decisão era prioritariamente disciplinar baseados nos conhecimentos da engenharia e economia, utilizando o critério do menor custo-benefício, sem considerar os aspectos da biologia, geografia, sociologia, entre outros para incorporação das alterações na biota e no meio físico e antrópico. Os bancos financiadores de projetos de desenvolvimento, como o Banco Mundial começaram a ser questionados sobre os impactos ambientais de projetos hídricos, como por exemplo, a construção de grandes barragens para geração de energia elétrica, que não consideravam as demandas da população reassentada e das comunidades tradicionais, em especial as indígenas.
O gerenciamento integrado de recursos hídricos é uma das soluções propostas no final da década de 1980 e decorre da incapacidade de construir um processo dinâmico e interativo somente com uma visão parcial e exclusivamente tecnológica (TUNDISI, 2003). Esta visão já apontava para a necessidade de uma abordagem interdisciplinar para a resolução dos conflitos relacionados ao uso da água.
O estabelecimento da Política Nacional de Recursos Hídricos (PNRH), em 1997, representou um avanço tanto no sentido conceitual, como também na institucionalização da gestão integrada, interdisciplinar e participativa com a integração entre os órgãos gestores, usuários e outras instituições. A implementação da PNRH vem demandando uma atuação multi e interdisciplinar dos agentes responsáveis, tanto no poder executivo, como nos colegiados.
Sobre os avanços da Política Nacional de Recursos Hídricos, Pereira (2014) afirma que: “Os modelos de gestão por bacias hidrográficas estão apenas começando a surgir no país. Sua concepção, embora baseada no modelo francês, prima por dar um cunho formal e oficial à participação da sociedade, garantindo sua interferência no processo de tomada de decisão. O próprio usuário é chamado a reflexão sobre seus históricos descasos, de forma permanente, através de sua participação no processo, que inclui ainda o pagamento pelo uso do recurso natural (água). Já o governo passa a ter que expor com clareza seus objetivos e limitações, e aprende assim, a lidar com uma nova forma de governar, mais democrática” (PEREIRA, 2014, p.14).
Pereira (2014) afirma a partir de estudo realizado no Rio de Janeiro que o interesse maior da política de recursos hídricos reside no fato de uma comunidade poder interagir e discutir, junto com seus entes federativos e atores privados, no âmbito de uma bacia hidrográfica, os caminhos e as soluções para problemas que influenciam diretamente a qualidade de vida das pessoas que lá vivem.
De acordo com Tundisi (2003) os avanços no sistema de planejamento e gerenciamento das águas devem considerar processos conceituais, processos tecnológicos e processos institucionais.
A legislação brasileira trata a água como um bem público dotado de valor econômico. Aliado a isso, sabe-se que a agricultura é a atividade econômica com maior índice de utilização dos recursos hídricos. Nesse sentido, há necessidade de adequação desta atividade as legislações específicas sobre recursos hídricos.
O Ministério do Meio Ambiente, a partir da década de 90, passou a desenvolver ações relevantes para o semiárido, inicialmente com a criação da Secretaria de Recursos Hídricos (SRH) em 1995. Tal Secretaria tem o papel de formular a Política Nacional de Recursos Hídricos, promover a integração da gestão dos recursos hídricos com a gestão ambiental, dar suporte ao Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNRH), instruir os Conselhos Estaduais e os Comitês de Bacias Hidrográficas.
A Política Nacional de Recursos Hídricos (PNRH) foi instituída pela Lei Federal nº 9. 433 em 8 de janeiro de 1997, que estabelece as diretrizes gerais de ação para sua implementação: Gestão sistemática dos recursos hídricos, sem dissociação dos aspectos de quantidade e qualidade; Adequação da gestão de recursos hídricos às diversidades físicas, bióticas, demográficas, econômicas, sociais e culturais das diversas regiões do País; Integração da gestão de recursos hídricos com a gestão ambiental; Articulação do planejamento de recursos hídricos com o dos setores usuários e com os planejamentos regional, estadual e nacional; Articulação da gestão de recursos hídricos com a do uso do solo; e integração da gestão das bacias hidrográficas com a dos sistemas estuarinos e zonas costeiras. Além destas diretrizes, a PNRH cita seis instrumentos para operacionalizar a sua aplicação (Quadro 5.5)
134 Quadro 5.5: Descrição dos instrumentos da Política Nacional de Recursos Hídricos.
Instrumento da Política Nacional de Recursos Hídricos Descrição Planos de Recursos Hídricos
São planos diretores que visam a fundamentar e orientar a implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos e o gerenciamento dos recursos hídricos. Devem ser planos de longo prazo, com horizonte de planejamento compatível com o período de implantação de seus programas e projetos. Devem ser elaborados por bacia hidrográfica, por Estado e para o País.
Enquadramento dos
corpos de água em classes,
segundo os usos
preponderantes da água
Visa assegurar às águas qualidade compatível com os usos mais exigentes a que forem destinadas, e diminuir os custos de combate à poluição das águas, mediante ações preventivas permanentes.
A classe dos corpos d’água são estabelecidas pela Resolução CONAMA nº 357/2005 alterada e complementada pelas Resoluções 410/2009 e pela 430/2011
Outorga dos direitos de uso de recursos hídricos
É uma autorização do poder público ao usuário de recursos hídricos que deve considerar o balanço entre disponibilidade e demanda hídrica. Tem como objetivos assegurar o controle quantitativo e qualitativo dos usos da água e o efetivo exercício dos direitos de acesso à água.
Cobrança pelo uso de recursos hídricos
A cobrança pelo uso de recursos hídricos objetiva o reconhecimento da água como bem econômico e dar ao usuário uma indicação de seu real valor; o incentivo a racionalização de seu uso; e a obtenção de recursos financeiros para o financiamento dos programas e intervenções contemplados nos planos de recursos hídricos.
Deverão ser cobrados os usos de recursos hídricos sujeitos a outorga, porém na maioria dos Estados o processo de cobrança pelo usoda água ainda não está consolidado..
Compensação a
municípios
Instrumento que teve seus artigos vetados na PNRH, mas não foi extinto da legislação, é ainda pouco explorado. Possui uma importância crucial como instrumento econômico que pode facilitar a relação da gestão de bacia hidrográfica e da gestão de usos do solo, por meio de incentivos financeiros aos municípios.
Sistema de Informações sobre Recursos Hídricos
É um sistema de coleta, tratamento, armazenamento e recuperação de informações sobre recursos hídricos e fatores intervenientes em sua gestão.
Fonte: Elaborado pela autora a partir de BRASIL (1997)
De acordo com o Ministério do Meio Ambiente (BRASIL, 2006), o modelo de gerenciamento adotado no Brasil incorpora novos princípios e instrumentos de gestão, embora já aceitos e praticados em vários países, enquadra-se no modelo sistêmico de integração participativa, que determina a criação de uma estrutura, na forma de matriz institucional de gerenciamento, responsável pela execução de funções específicas, e adota o planejamento
estratégico por bacia hidrográfica, a tomada de decisão por intermédio de deliberações multilaterais e descentralizadas e o estabelecimento de instrumentos legais e financeiros.
Para Tundisi (2003) a abordagem da gestão de recursos hídricos tendo a bacia hidrográfica como unidade de planejamento e gerenciamento instituída pela PNRH promove a integração de cientistas, gerentes e tomadores de decisão com o público em geral, permitindo que eles trabalhem juntos em uma unidade física com limites definidos.
O Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (SNGRH) foi criado pela PNRH, e tem como principais objetivos: (i) coordenar a gestão integrada das águas; (ii) arbitrar os conflitos relacionados com os recursos hídricos; (iii) implementar a Política Nacional de Recursos Hídricos; (iv) planejar, regular e controlar o uso, a preservação e a recuperação dos recursos hídricos; e (v) promover a cobrança pelo uso de recursos hídricos. A estrutura organizacional do sistema é composta pelas seguintes instituições e órgãos colegiados conforme Figura 5.2.
136 Figura 5.2: Estrutura organizacional do SNGRH
Fonte: Adaptado de RE CIDS/EBAPE/FGV, 2003
A seguir é apresentada uma síntese das competências das instituições e órgãos colegiados.
Conselho Nacional de Recursos Hídricos: é o órgão superior do SNGRH, composto por ministérios e secretarias da Presidência da República com atuação no gerenciamento ou no uso das águas, bem como por representantes dos conselhos estaduais de recursos hídricos, dos usuários e da sociedade civil (BRASIL, 2006).
De acordo com o Decreto Federal nº 4.613/2003 está entre as competências deste Conselho: (i) promover a articulação do planejamento de recursos hídricos com os planejamentos nacional, regionais, estaduais e dos setores usuários; (ii) deliberar sobre os projetos de aproveitamento de recursos hídricos, cujas repercussões extrapolem o âmbito dos Estados em que serão implantados; (iii) analisar propostas de alteração da legislação pertinente a recursos hídricos e à Política Nacional de Recursos Hídricos; (iv) estabelecer diretrizes complementares para implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos, aplicação de
Nacional
Estadual
Bacia Hidrográfica
Deliberativa Propositiva Executiva
CNRH
- Aprova a PNRH e acompanha sua execução - Define critérios e diretrizes para a implementação da PNRH - Delibera sobre projetos nacionais - Representa interesses - Arbitra conflitos MMA/SRH - Propõe e supervisiona a implementação da PNRH - Secretaria o CNRH ANA -Outorga - Cobra - Analisa - Supervisiona, controla e analisa ações federais - Fiscaliza uso, no domínio da União
-Elabora estudos -Organiza e gere o SNIRH
CERH