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4 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

4.10 Política pública no Semiárido e o meio ambiente

Uma das primeiras políticas públicas para o semiárido brasileiro diz respeito à implantação da Algaroba (Prosopis Juliflora) no final de década de 1970 e meados de 1980 (GOMES et al., 2008). Ainda segundo os autores, a mesma foi introduzida no Brasil em 1942, oriunda da região desértica de Piura no Peru, e foi disseminada no Semiárido ao longo das décadas seguintes.

O ápice da disseminação da Algaroba no Semiárido ocorreu entre as décadas de 1970 e 1980 por meio de um programa de reflorestamento do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), à época, no sentido de sanar a degradação da Caatinga.

Este programa financiou uma miríade de grandes latifundiários a despeito de desenvolver a pecuária no Semiárido brasileiro (GOMES et al., 2008).

Ainda segundo os autores supracitados, a inserção da Algaroba no Semiárido ocorreu em três momentos distintos, quais sejam: de 1940 a 1960. Este período caracterizou-se pela introdução da espécie florística na região do Semiárido brasileiro; de 1961 a 1965: este

período foi caracterizado pela implementação de ações governamentais atinentes à expansão da cultura em questão; e a partir de 1966: este período caracterizou-se pelos investimentos em pesquisa.

Segundo Sebastião Silva (2000), no primeiro momento houve um grande investimento no sentido de promover a difusão de conhecimentos da espécie, como os usos variados e a sua utilização. Estime-se que neste período foram distribuídas entre 8 a 10 milhões, aproximadamente, nas áreas que abrangem o Semiárido e especificamente nos estados do Piauí, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Paraíba.

Já no segundo momento foram distribuídas 6 milhões de mudas, dentre as quais 3,5 milhões foram direcionadas e plantadas nos municípios do Semiárido. E, por fim, no terceiro momento de expansão da Algaroba houve investimentos em pesquisa, estimulo à produção e divulgação de trabalhos técnicos no sentido de propagar as descobertas e características da Algaroba. Entretanto, desde 1955, foram realizados alguns estudos sobre a Algaroba no Brasil com base em estudos fundamentados a partir de experiências estadunidenses com uma das muitas espécies de Algaroba e constatou-se que a mesma constituía uma espécie invasora para o Semiárido. No entanto, havia um alinhamento entre técnicos, agentes governamentais, elites políticas e agrárias em manter o projeto da Algaroba como estratégia de desenvolvimento (GOMES, et al., 2008).

Em uma pesquisa desenvolvida por Pedado em 2004, chegou-se à conclusão de que:

As invasões de algaroba (Prosopis Juliflora) formam densos maciços populacionais que competem com as espécies nativas da caatinga; a presença dessa espécie torna uma caatinga arbórea de várzea (mata ciliar) tão pobre quanto uma caatinga arbórea-arbustiva de encosta degradada, além de alterar a fitodiversidade da área invadida ao ponto de torná-la um conjunto florístico distinto no conjunto das comunidades de caatinga (SOUZA, 2008, p. 103).

Segunda Souza (2008) uma parte considerável da capacidade de diminuição e/ ou mesmo a eliminação da maioria das espécies da Caatinga nas áreas de presença de Algaroba ocorre devido a uma característica inerente a essa espécie, qual seja a alelopatia – que diz respeito ao processo de liberação de alguns elementos químicos, os quais criam um ambiente de baixa tolerância para grande parte de outras espécies e, sui generis, da Caatinga tipo arbustiva e arbórea.

Ainda segundo o autor, embora a Algaroba apresente uma capacidade elevada para a colonização de uma miríade de espécies ambientais, os lugares de maior proliferação dessa espécie e onde ela apresenta maior porte estão relacionados a ambientes com presença de lençol freático superficial, como é o caso das várzeas dos rios e riachos. Destarte, é

sobremaneira trivial as cacimbas e poços adjacentes secarem em razão de um período de chuva escassa e da Algaroba apresentar raízes de grande expansão horizontal, ocasionando a absorção de água próxima a mesma. Portanto, com base nessa assertiva, pode-se inferir que a Algaroba é altamente invasiva e competitiva em relação à vegetação da Caatinga. Ademais, a presença da Algaroba torna mais difícil e complexa a ocorrência dos diversos estágios de sucessão ecológica nessas paisagens.

A substituição da vegetação da Caatinga pela Algaroba contribuiu sobremaneira para a depauperação de espécies endêmicas da flora nativa, ocasionando a degradação do habitat de vários animais nativos, o agravamento do processo erosivo e a consequente perda de fertilidade do solo.

De acordo com Gomes (1979), a Região Semiárida do estado da Paraíba recebeu, em 1979, através do decreto-lei 1.134/1970 (Lei Federal de incentivos fiscais para empreendimentos florestais) um total de 293 projetos de reflorestamento para a substituição da Caatinga pela Algaroba. Deste total 83 foram executados, ao passo que 210 foram abandonados. Entretanto, houve um grande desmatamento da vegetação nativa sem que tenha havido reposição florestal.

Desde a primeira fase, a difusão da Algaroba foi conduzida por uma corrente discursiva cujo leitmotiv propugnava:“a Algaroba é a salvação do Nordeste”, ensejada em um ambiente constituído por técnicos das agências governamentais (Ministério da Agricultura), agências de desenvolvimento (SUDENE – Superintendência para o Desenvolvimento do Nordeste) e instituições de pesquisas (as universidades – e.g. a Universidade Federal de Viçosa). Por outro lado, outros agentes sociais (e.g. políticos, elites agrárias e gestores públicos) estavam concatenados nesta associação que apregoava o desenvolvimento para o Semiárido. A conjuntura político-social, à época, era dominada pela ciência e pela técnica que convergiam para um discurso salvacionista (GOMES et al., 2008).

Ainda segundo os autores, esse discurso foi reafirmado na Paraíba por meio dos presidentes das associações rurais dos pequenos municípios. Os documentos assinados e enviados às autoridades brasileiras afirmavam que: “a nenhuma planta é atribuída características como resistente à seca e à salinidade; desenvolvimento rápido e produção em período de seca como a Algaroba” (GOMES et al., 2008, p. 7).

Para os mesmos autores, o discurso coletivo dos presidentes destas associações estava vinculado a um campo de interesses que, historicamente, no passado demonstraram coexistência através da dominação entre indivíduos e, hodiernamente, entre instituições.

Destarte, com base neste discurso a Algaroba seria a panaceia para o Semiárido da Paraíba.

De acordo com o Decreto-Lei Nº 289/1967 que instituiu o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal, reza em seu artigo 2º: o IBDF destina-se a formular a política florestal bem como a orientação, coordenação, execução ou a fazer executar as medidas cabíveis quanto à utilização racional, à proteção e à conservação dos recursos naturais renováveis ao desenvolvimento florestal do país (BRASIL, 1967).

O presente artigo do decreto-lei supramencionado se mostra paradoxal visto que não houve por parte do IBDF nenhuma preocupação com a proteção da Caatinga, visto que nas décadas de 1960 e 1970 já havia estudos, e.g., Andrade-Lima (1960), Ab’Sáber (1974): o qual estabeleceu os seis domínios morfoclimáticos, dentre os quais a Caatinga) que descreviam as peculiaridades deste bioma. O mesmo, ao que parece, representava um entrave para o desenvolvimento do Nordeste semiárido, inferindo-se que por essa razão foi implantado o projeto de introdução da Algaroba no Semiárido brasileiro.

Segundo Brasil (1967), o artigo 3º do Decreto-Lei Nº 289/1967 estabelece como objetivo: (III) – o florestamento e reflorestamento com fins econômicos; (IV) – o florestamento e reflorestamento com fins ecológicos, turísticos e paisagísticos, respectivamente.

Fica patente, diante do exposto, que o inciso IV aplicou-se amplamente no Semiárido uma vez que o projeto da Algaroba tinha um objetivo muito claro qual seja a incrementação da pecuária, ao passo que o inciso IV não era objeto do plano desenvolvimentista para a Região em questão.