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2.1 – Educação e Desenvolvimento Sustentável

Não esquecendo a actual Década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável (2005-2014) pela qual, diversos povos orientam suas tomadas de decisão, políticas e discursos, e com o objectivo de analisar esses discursos de forma a contextualizar o presente estudo, elegeram-se dois documentos internacionais: um texto adoptado pelo Fórum Mundial de Educação - Educação Para Todos: o

compromisso de Dakar da UNESCO (UNESCO, 2001) e a Declaração de Bona (UNESCO, 2009b)

elaborada na Conferência Mundial da UNESCO sobre a Educação para o Desenvolvimento Sustentável, realizada em Bona a 31 de Março a 2 de Abril de 2009 na Alemanha e que pretendeu funcionar como uma chamada de atenção para a acção. A selecção destes documentos foi realizada com o intuito de perceber qual o lugar destas temáticas nas mais altas esferas internacionais e até que ponto é que as políticas emanadas por estas instituições influenciam as políticas nacionais e, consequentemente, as acções locais. Assim, o primeiro documento foi seleccionado por centralizar o desenvolvimento numa educação para todos, a área em que se inscreve este estudo. Por sua vez, o segundo documento foi escolhido por ser um dos documentos mais recentes sobre o desenvolvimento sustentável e por estar devidamente apoiado em avaliações anteriores do que já foi realizado neste âmbito, proporcionando uma visão mais credível de como se pretende alcançar o desenvolvimento sustentável, apontando a educação como a via mais exequível de o conseguir.

O primeiro texto, adoptado pelo Fórum Mundial de Educação, começa por anunciar os compromissos colectivos que os diversos países-membros da UNESCO se comprometem a alcançar, descritos em forma de objectivos e metas para alcançar a Educação para Todos, para cada cidadão e cada sociedade. Trata-se de um documento que proporcionou uma oportunidade excepcional para repensar a política educativa ou, na recente visão da União Europeia, as políticas de educação e formação.

Neste documento, numa primeira abordagem, evidencia-se a obrigação que os governos têm em assegurar que os objectivos e as metas de Educação Para Todos (EPT) sejam alcançados e mantidos. Assim, sugere que os mesmos devem recorrer a parcerias não só entre países, mas também entre instituições. Parte do princípio de que “(…) toda a criança, jovem ou adulto tem o direito humano de beneficiar de uma educação que satisfaça as suas necessidades básicas de aprendizagem (…)” (p. 8) e que promova o desenvolvimento da sua personalidade para que todos possam melhorar as suas vidas e

__________________________________________________________________________________ transformar a sociedade. Assim sendo, cabe ao governo, em conjunto com a sociedade civil14 organizada, encontrar as estratégias mais eficazes para o conseguir. Este documento constata que houve progressos significativos em muitos países a este nível, no entanto, ainda há muito para fazer, pois no geral está-se a negar aos jovens e adultos “(…) o acesso às técnicas e conhecimentos necessários para encontrar emprego remunerado e participar plenamente na sociedade. Sem um progresso acelerado na direcção de uma Educação para Todos, as metas nacionais e internacionais acordadas para a redução da pobreza não serão alcançadas e as desigualdades entre as nações e dentro de cada sociedade (…)” (p.8) acabarão por se ampliar. O mesmo documento também refere que “(…) a educação é um direito humano fundamental e constitui a chave para um desenvolvimento sustentável, assim como para assegurar a paz e estabilidade dentro de cada país e [entre países], portanto, meio indispensável para alcançar a participação efectiva nas sociedades e economias do séc. XXI afectadas pela rápida globalização.” (p.8) Pretende-se assim, que as necessidades básicas da aprendizagem devam ser alcançadas com urgência. Nesta linha de pensamento, os participantes do Fórum Mundial de Educação comprometeram-se a atingir os seguintes objectivos:

“I – expandir e melhorar o cuidado e a educação das crianças, especialmente das mais vulneráveis e mais carenciadas;

II – assegurar que todas as crianças, com ênfase especial nas meninas e nas crianças em circunstâncias difíceis e pertencentes a minorias étnicas, tenham acesso à educação primária, obrigatória, gratuita e de boa qualidade até o ano 2015;

III – assegurar que as necessidades de aprendizagem de todos os jovens e adultos sejam satisfeitas pelo acesso equitativo à aprendizagem apropriada e às competências para a vida;

IV – alcançar uma melhoria de 50% nos níveis de alfabetização de adultos até 2015, especialmente para mulheres, e acesso equitativo à educação básica e continuada para todos os adultos;

V – eliminar disparidades de género na educação primária e secundária até 2005 e alcançar a igualdade de género na educação até 2015, com enfoque na garantia ao acesso e a integração pleno e equitativo de meninas na educação básica de boa qualidade;

VI – melhorar todos os aspectos da qualidade da educação e assegurar excelência para todos, de forma a garantir a todos resultados reconhecidos e mensuráveis, especialmente na alfabetização, na aquisição de conhecimentos matemáticos e competências essenciais à vida.” (UNESCO, 2001, pp.8-9)

Para alcançar estes objectivos são apontadas, neste documento, diversas estratégias que os governos, organizações, agências, grupos e associações se comprometem a desenvolver, fundamentadas numa forte vontade política nacional e internacional em prol da Educação para Todos. O documento refere políticas que são desenvolvidas dentro do marco sectorial integrado e sustentável, claramente

14 Sociedade Civil segundo Ceita (2005) é toda a instituição, organização ou entidade nacional ou internacional integrada por pessoas físicas ou jurídicas de carácter não-governamental. Não obstante, por um lado, o Banco Mundial e o PNUD usam o termo Sociedade Civil referindo-se a um conjunto de organizações não-governamentais e organizações sem fins lucrativos presentes na vida pública, exprimindo os interesses e valores dos seus membros. Por outro lado, as OSC referem- se a uma amplitude social maior, que engloba grupos comunitários, organizações não-governamentais, sindicatos, organizações baseadas nas comunidades, organizações caritativas, associações profissionais, fundações, instituições de pesquisa política/social, instituições privadas de negócios e movimentos sociais.

__________________________________________________________________________________ articulado com ideia da eliminação da pobreza e com estratégias de desenvolvimento. Refere também medidas que assegurem o envolvimento e a participação da sociedade civil na formulação, implementação e avaliação de estratégias para o desenvolvimento da educação, e entre outros, estratégias relacionadas com o reforço dos mecanismos existentes para a aceleração e obtenção de uma Educação Para Todos.

Os dados que integram este documento, fruto da avaliação da EPT no ano de 2000, realçam que o desafio maior da Educação para Todos está na África subsaariana, no sul da Ásia e nos países menos desenvolvidos. Portanto, e não querendo descurar os outros países, este documento refere que deve ser dada uma atenção especial aos países em conflito ou em fase de reconstrução, para a reformulação dos seus sistemas educativos para atenderem às necessidades de todos os seus educandos. Este documento refere que a “(…) implementação dos objectivos e estratégias previamente descritas vai requerer a dinamização imediata de mecanismos nacionais, regionais e internacionais. Para que sejam mais efectivos, esses mecanismos serão participativos e, onde for possível, irão fortalecer o que já existe. Incluirão representantes de todos os participantes e parceiros e irão operar de forma transparente e responsável.” (p.10). Em suma, cabe aos países da África Subsariana, nomeadamente, a Angola dinamizar mecanismos locais, nacionais e internacionais participativos baseados nas acções que já existem de forma transparente e responsável baseado na governança, ou seja, a capacidade das sociedades humanas para se dotarem de sistemas de representação, de instituições e processos, de corpos sociais, para elas mesmas se gerirem, num movimento voluntário (Calame, P. & Talmat, A., 2001).

O segundo documento seleccionado, evidencia que a educação continua a ser uma temática central para a UNESCO. Tal afirmação é evidente na Declaração de Bona, elaborada na Conferência Mundial sobre a Educação para o Desenvolvimento Sustentável. Nesta declaração caracteriza-se o ponto da situação actual do desenvolvimento mundial, referindo que a pobreza persiste e a desigualdade continua afectar muitas populações, especialmente, as mais vulneráveis. Os conflitos, a crise financeira e económica global a que alude, os riscos do modelo insustentável de desenvolvimento económico, a crise dos alimentos, a fome, bem como padrões insustentáveis de produção e consumo são factores que colocam em causa não só as opções das actuais como das futuras gerações. Perante tal situação, este documento reconhece que há problemas e que estes ajudarão a criar sociedades insustentáveis. No entanto, também refere que há já conhecimentos, tecnologia e as competências necessárias para avaliar e reverter a situação, sendo necessário, porém, mobilizar o potencial que se tem e fazer uso de todas as oportunidades para melhorar a acção de mudança. Todos os países terão de trabalhar em colaboração

__________________________________________________________________________________ para assegurar o desenvolvimento sustentável. Este documento alerta para a tomada de compromissos compartilhados entre a política e a educação, recordando os compromissos que foram assumidos em Jomtien, Dakar e Joanesburgo que incitam as pessoas a trabalharem para a mudança. A educação de qualidade é aquela que desenvolve valores, conhecimentos, habilidades e competências para uma vida sustentável e para uma verdadeira participação social e trabalho decente. Neste documento a educação para todos é reconhecida, e considera a educação básica, a educação pré-escolar, a educação da população rural e a alfabetização de adultos como fundamentais para um verdadeiro desenvolvimento sustentável. Este documento argumenta que é através da educação

“(…) and lifelong learning we can achieve lifestyles based on economic and social justice, food security, ecological integrity, sustainable livelihoods, respect for all life forms and strong values that foster social cohesion, democracy and collective action. Gender equality, with special reference to the participation of women and girl children in education, is critical for enabling development and sustainability. Education for sustainable development is immediately necessary for securing sustainable life chances, aspirations and futures for young people (…) (UNESCO, 2009b, p.1)

O mesmo documento refere que a educação para o desenvolvimento sustentável, no século XXI, é uma educação para todos e de qualidade, baseada em valores, princípios e práticas necessárias para responder eficazmente às actuais e futuras mudanças. A educação para o desenvolvimento sustentável, contribui para a criação de sociedades resilientes, saudáveis e sustentáveis através de uma abordagem sistémica e integrada. É baseada em valores de justiça, equidade, tolerância e responsabilidade e promove a igualdade de sexos, a coesão social e a redução da pobreza, que enfatiza a democracia e o bem-estar humano. A educação para o desenvolvimento sustentável está ligada a diferentes necessidades e condições da vida concreta das pessoas e fornece as competências necessárias para encontrar soluções, recorrendo a práticas e conhecimentos incorporados em culturas locais, bem como em novas ideias e tecnologias. Esta declaração evidencia o progresso que muitos países têm obtido no implementar da educação para o desenvolvimento sustentável. Esforços a nível mundial têm sido complementados por estratégias e iniciativas regionais. Resta um convite à acção que a própria declaração desenvolve, referindo que, o progresso da educação para o desenvolvimento sustentável exige diferentes abordagens em diferentes contextos.

Os Organismos Internacionais, nomeadamente a UNESCO, de acordo com estes documentos, mostram um discurso aberto, democrático, construtivista e equitativo no que se refere ao papel da educação e a sua contribuição para o desenvolvimento do Homem e da própria sociedade onde este se encontra inserido. Assim sendo, o sector da educação tem prioridades ao nível internacional e estas proposições

__________________________________________________________________________________ acabam por ser reforçadas pelo Quadro dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM)15, nomeadamente a educação primária universal (Objectivo 2), a eliminação das disparidades de género na educação primária e secundária (Objectivo 3) e a melhoria de vida de pelo menos 100 000 habitantes de bairros degradados (objectivo 7-meta 11). Estes objectivos e metas acabam por funcionar como elementos de luta e erradicação da pobreza extrema no país e no mundo até 2015.

2.2 – Descentralização/Desconcentração: forma de atribuir o poder à Governação Local

Partindo do pressuposto de que uma boa governança se desenvolve com a participação dos cidadãos nos processos de decisão política, em Angola tornou-se fundamental a década de desconcentração e descentralização do poder que se vem desenvolvendo, assim como, um necessário potencial humanista16. À luz desta perspectiva foram seleccionados dois documentos que evidenciam esta preocupação por parte do governo, são eles: o Plano Estratégico para a Desconcentração e

Descentralização em Angola – 2001 e a Nova Constituição Angolana. Apesar de Angola “(…) ter

nascido sob o princípio da centralização do Poder (…)” (Carvalhais, 2005, s.p.), cada vez mais se defende a descentralização do mesmo e a edificação de um poder eleito pelas comunidades. Isto porque o “(…) Estado actual é demasiado distante para exercer as tarefas que envolvem proximidade ao cidadão, e dispõe de cada vez menos fundos para desempenhar directamente os serviços e a assistência que constitucionalmente garantem aos cidadãos (…)” (Henriques, 2004, s.p.). Assim, o processo de descentralização e desconcentração é visto como uma solução eficaz que pretende reduzir a pobreza e atingir os ODM. No entanto,

“(…) para que tal possa ser possível é necessário que algumas das principais condições estejam criadas, nomeadamente, i) existência de liberdade política; ii) papéis institucionais claros; iii) possibilidades de parcerias para implementar programas e, em alguns casos, iv) treinamento e recursos financeiros (…)” (Ceita, 2005, p. 5)

15 A declaração do Milénio, adoptada em 2000 por todos os 189 Estados Membros da Assembleia Geral das Nações Unidas veio lançar um processo decisivo da cooperação a nível global no presente século. Nesta declaração foi dado um grande impulso às questões do Desenvolvimento, identificando os desafios centrais enfrentados pelo Homem e com a aprovação dos ODM pela comunidade internacional, a serem atingidos num prazo de 25 anos, sendo eles:

1- Erradicar a pobreza extrema e a fome; 2 – Alcançar o ensino primário universal;

3 – Promover a igualdade entre sexos e a autonomização das mulheres; 4 – Reduzir a mortalidade de crianças;

5 - Melhorar a saúde materna;

6 – Combater o HIV/SIDA, malária e outras doenças; 7 – Garantir a sustentabilidade ambiental;

8 – Criar uma parceria mundial para o desenvolvimento. Retirado a 23-02-10 de http://www.objectivo2015.org/

16Carvalhais (2005) entende por potencial humanista “(…) a capacidade de tornar a Democracia efectivamente acessível aos indivíduos, em especial àqueles que tradicionalmente surgem como periféricos e marginalizados nos processos de decisão pública, e que por consequência apenas têm conhecido formas mitigadas de cidadania, bem como versões distorcidas e incompletas de si enquanto sujeitos de Direitos Humanos – minorias étnicas nacionais e não-nacionais, mulheres, comunidades rurais, idosos, pessoas com necessidades especiais.” (s.p.)

__________________________________________________________________________________ O Plano Estratégico para a Desconcentração e Descentralização de 2001 para Angola traça um caminho com algumas linhas de força e prevê que este seja um processo gradual à medida das capacidades do nível local. Pretende também integrar as instituições do poder tradicional e da sociedade civil em estruturas deliberativas locais e por fim, desenvolver legislação adequada. Com o intuito de legalizar esta situação o governo angolano revê o Decreto-Lei 17/99 e publica em Janeiro de 2007 o Decreto-Lei 02/07 sobre o Quadro das atribuições, competências e o regime jurídico de organização e funcionamento dos governos provinciais, das autarquias municipais e comunais, que tem vindo a aprofundar o processo de desconcentração17, pretendendo desenvolver, simultaneamente, as condições anteriormente citadas por Ceita (2005). Esta Lei, comparada com anterior, apresenta algumas características inovadoras: define melhor as atribuições e competências de cada um dos níveis de governação local e considera, pela primeira vez, as administrações municipais como unidades orçamentais e institucionaliza os Conselhos de Auscultação e Concertação Social (CACS) como órgão de apoio consultivo dos Governos Provinciais e Administrações Municipais e Comunais (decreto de Lei 02/07). Estas características influenciam potencialmente a redução da pobreza através da descentralização e a autonomia local. No entanto, a pretendida desconcentração ainda não foi alcançada de facto, devido às dificuldades que persistem em se transferir ou formar recursos humanos com capacidade de gestão local, assim como a transferência de verbas para desenvolver o processo. O governo angolano assumiu o compromisso de reunir as condições para se concretizar esta medida. Por um lado, disponibilizou cerca de cinco milhões de dólares para sessenta e oito municípios a ser gerido de acordo com o quadro da actual legislação das administrações municipais. Por outro lado, com o intuito de formar os recursos humanos e para outras finalidades, recorreu ao trabalho cooperativo com diversos parceiros18 tais como, o PNUD e organizações não governamentais19.

17

No sentido de auxiliar na construção de uma Angola democrática está a ser desenvolvido um projecto-piloto, levado a cabo pelo Governo e Organizações não Governamentais, de desconcentração designado por PDM – Programa de Desenvolvimento Municipal. Este projecto-piloto está a edificar as estruturas que permitem aos cidadãos contribuírem para as políticas, planeamento municipal e implementação de micro projectos da sua escolha em conjunto com as suas Administrações Municipais. O PDM está a desenvolver-se em 5 municípios, nomeadamente, Cabinda, Andulo, Cuito Cuanavale, Chitato e Chicala Cholohanga no Huambo. Este PDM é implementado por três ONG, a Care, Development Workshop e Save the Children. Este programa de desenvolvimento local vê as suas actividades publicadas por um sítio na internet http://www.mdp-angola.org/ ou no seu Boletim Vozes do Campo.

18 O projecto de Descentralização e Governação Local que o PNUD desenvolve pretende apoiar a programação do desenvolvimento económico equitativo e governação democrática de acordo com as normas internacionalmente aceites, através do reforço das capacidades nacionais, a todos os níveis, dotando as comunidades e os cidadãos dos poderes para aumentar a sua participação nos processos de tomada de decisão e que terminou a 31 de Julho de 2010, teve como parceiros o Ministério da Administração do Território, Ministério das Finanças, Ministério do Planeamento, Embaixada da Noruega, Governo de Espanha e DFID. Para mais informações consultar www.ao.undp.org

19 “Um número significativo de ONG nacionais e internacionais actua em Angola no âmbito da introdução de práticas participativas ligadas à governação local e desenvolvimento urbano. Neste âmbito merece realce o grupo de ONG ligadas à implementação do Luanda Urban Poverty Programe (LUPP), financiado pelo DFID, que visam promover o acesso aos serviços básicos e redução de pobreza, promovendo técnicas de planeamento participativo e a capacitação das administrações municipais em Kilamba Kiaxi, Luanda (Development Workshop, One World Action, CARE e Save the Children UK). Outro grupo de ONG envolvido já no FAZ e PAR e em breve no programa da UDAID, constituem também a base de implementação para algumas acções do DLGP em Kilamba Kiaxi, Luanda (ADRA e CARE) e Kamacupa, Bié

__________________________________________________________________________________ A devolução de poderes, por parte do estado angolano, evidencia-se também na nova Constituição angolana, promulgada a 5 de Fevereiro de 2010, onde se vê consagrado o princípio da descentralização da administração local do estado, tanto no capítulo I - Princípios Gerais, que explicita os princípios do Poder Local (artigos 213.º, 214.º, 215.º e 216.º), como no capítulo II – Autarquias Locais, que enquadra a constituição das autarquias locais (artigos 217.º, 218.º, 219.º, 220.º, 221,º e 222º), reconhecendo também no capítulo III – Instituições do Poder Tradicional. Ora, esta nova postura estatal e a sua Constituição não pretendem que o estado se desresponsabilize das suas obrigações. Bem pelo contrário, pretendem encontrar recursos humanos e meios mais eficazes para conseguirem responder às necessidades locais que, por diversas razões, não conseguem satisfazer na sua totalidade, através de uma via democrática. Como refere Henriques (2004), está em curso um novo contrato social entre os governos e os seus parceiros, atribuindo mais responsabilidades aos poderes locais, empresas e instituições da sociedade civil. Essa devolução, segundo o mesmo autor, desenvolve-se respeitando os

4 P’s, ou seja, os princípios de prevenção, parceria, proximidade e produtividade. A prevenção é cada

vez mais a base das políticas públicas, uma vez que as políticas de reacção são cada vez mais dispendiosas. O princípio de parceria com as instituições da sociedade civil, o sector privado e com poderes regionais e locais que defendam e proporcionem, por diferentes meios, o bem-estar da comunidade é exigido pela governança local20. Por exemplo, a diminuição da carga fiscal permitirá às empresas criar e manter empregos de qualidade, ou ainda, o sistema escolar, público e privado, é responsável de fazer das escolas meios de excelência. Desenvolve-se o princípio da proximidade quando é permitido ao cidadão o seu direito de escolha com o mínimo de interferência estatal. Por fim, conforme o princípio da produtividade, os serviços serão mais acessíveis em termos de custos, se considerarem as novas tecnologias e os novos modos de governação. Portanto, a descentralização parece ser a melhor forma de fornecer serviços públicos de qualidade, mais flexíveis, mais personalizados, mais utilizados e de prevenção superior.

Posto isto, esperamos que a “(…) descentralização [não] surja antes como o último estratagema dos regimes pós-transicionais africanos para se reformularem sem porem radicalmente em causa a sua natureza (…)” (Otayek, 2007, p. 147). Esperamos também que esta devolução de poderes à sociedade civil não seja apenas uma mera estratégia de sobrevivência do poder central do estado com o intuito de

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