CAPÍTULO 2 – OS PRINCÍPIOS INFORMADORES DO DIREITO AMBIENTAL COMO
2.4 Políticas Públicas Ambientais
ponto de vista ambiental, permitem que se alcance a precaução esperada pelo princípio, porquanto os agentes, a par do estímulo causado pelo temor das punições que poderia sofrer, nem sempre suficiente, se sentiria ainda mais motivado a se precaver ao máximo para evitar a ocorrência de danos ambientais.
Percebemos, assim, que enquanto os princípios do poluidor-pagador e da cooperação funcionam como instrumentos para a adoção de políticas públicas ambientais, o princípio da precaução pode restar atendido quando essas políticas são instituídas e efetivadas.
As políticas públicas consistem nas ações estatais, normalmente intervencionistas, com vistas a atingir resultados que coincidem com as necessidades da coletividade.
Trennepohl (2008, p. 77), parafraseando Jean Carlos Dias, escreveu:
As políticas públicas representam ações governamentais, buscando objetivos gerais e específicos. Essa a razão de se dizer que são sistematizações de ações do Estado com objetivos setoriais e gerais, articulando sociedade, Estado e mercado.
Assim, as políticas públicas partem de um cenário de condições favoráveis e desfavoráveis e estruturam um plano de ação, visando a concentrar a ação do Estado na sua solução.
Sem receio de tornar a abordagem repetitiva, não há como se falar em proteção do meio ambiente sem fazer nenhuma alusão às ações estatais nesse âmbito e, portanto, às políticas públicas.
Os primeiros documentos que denotam alguma preocupação do poder público para com as questões ambientais são o Código de Águas e Código de Minas, de 1934, e o Código Florestal, editado em 1937, por meio dos quais se buscou a racionalização da exploração dos recursos naturais e definição de áreas de preservação permanente. Entretanto, naquela época, o Estado era centralizador e autoritário, que desprezava o bem-estar da população, caracterizando-se por ser um Estado “fazedor”, sem tradição reguladora (SALHEB, 2009).
É compreensível que, na década de trinta, as preocupações ambientais fossem modestas, haja vista, num primeiro plano, que o direito, em todo o mundo, ainda não experimentava a garantia dos direitos de terceira dimensão, e, num segundo, que o Brasil se encontrava em busca do desenvolvimento econômico, mormente a partir dos anos cinquenta, quando se desenrolou o projeto de desenvolvimento industrial, que não se permitiria frear por preocupações ambientais. Por sinal, o distanciamento se agravou, ainda mais, por ocasião do regime militar de 1964.
As discussões sobre questões ambientais na seara internacional não deixariam de influenciar as políticas públicas no Brasil.
A Conferência sobre Meio Ambiente em Estocolmo em 1972 trouxe à lume o embate entre os blocos de países que defendiam o desenvolvimento zero, os países desenvolvidos, e daqueles que pregavam o desenvolvimento a qualquer custo, os países subdesenvolvidos.
(SALHEB, 2009).
Naturalmente, os países que já vivenciavam franco desenvolvimento, cujo progresso foi financiado pela devastação ambiental, tentariam impor aos não desenvolvidos a cessação de investidas contra os recursos naturais.
No Brasil, a questão foi contemporizada, tendo sido criada a Secretaria Especial do Meio Ambiente – SEMA, em 1973, e instituída a Política Nacional do Meio Ambiente – PNMA, por intermédio da Lei nº 6.938/81, que também implementou o Sistema Nacional de Meio Ambiente – SISNAMA, composto pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente – CONAMA (SALHEB, 2009).
Na Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento – CMMAD da ONU (1983/1987), os ânimos estavam mais calmos, quiçá pela tomada de consciência quanto à imprestabilidade da intransigência.
Salheb (2009), em citação indireta de Edson Ferreira de Carvalho, dá conta de que o relatório Nosso Futuro Comum, elaborado pela Primeira Ministra da Noruega, preconizava a conciliação entre o desenvolvimento e o meio ambiente, a partir do que definiu-se desenvolvimento sustentável como sendo aquele “que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem as suas próprias necessidades”.
A Constituição Brasileira de 1988 incorporou os princípios do desenvolvimento sustentável. Ademais, em 1989, foi criado o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – IBAMA (SALHEB, 2009).
Em 1992, a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento – CNUMAD, que também ficou conhecida como ECO-92 e RIO-92, foi pautada pelo diálogo e pela prevalência dos interesses coletivos em relação aos individuais.
Desse evento, foram extraídos importantes documentos: a Declaração do Rio, a Agenda 21 e a Declaração de Princípios sobre as Florestas. No plano interno, a Secretaria Especial do Meio Ambiente foi extinta para dar lugar ao Ministério do Meio Ambiente – MMS (SALHEB, 2009).
Dez anos após, reuniu-se a Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável de Johanesburgo, que teve o condão de reafirmar os compromissos firmados no Rio de Janeiro, tendo sido produzidos a Declaração de Johanesburgo e o Plano de Implementação. Dessa conferência não resultaram efeitos práticos.
Mais recentemente, precisamente em maio de 2012, foi editada a Lei nº 12.651, que instituiu um novo Código Florestal Brasileiro. A tônica da reforma teve como bandeira a proteção e uso sustentável dos mananciais florestais, sem se apartar do desenvolvimento econômico. Apesar do apelo aos ideais que servem de moldura ao desenvolvimento
sustentável, a mencionada lei implicou em verdadeiro retrocesso quanto às políticas públicas ambientais.
Um ponto que deve ser destacado diz respeito à anistia concedida aos agentes degradadores quanto a infrações cometidas anteriormente a 22 de junho de 2008. Em linhas gerais, o novo código permite a regularização do imóvel mediante o cumprimento de obrigações estabelecidas em Programas de Recuperação Ambiental – PRA implantados pela União, Estados e Distrito Federal, hipótese em que a punibilidade dos crimes ambientais fica suspensa enquanto o compromisso está em cumprimento. Outra regra prevê ainda a possibilidade de reflorestamento de Áreas de Preservação Permanente – APP com flora exótica, vale dizer, que não faz parte dos ecossistemas abrangidos pela lei, o que põe em risco a biodiversidade local.
Os dispositivos legais revogados e substituídos pelo novo Código Florestal representavam uma conquista da sociedade, que neles encontrava mecanismos de proteção do meio ambiente, condizentes com os princípios incorporados à Constituição Federal de 1988.
A alteração legislação em apreço certamente configura um passo para trás no que tange ao direito dos cidadãos ao meio ambiente equilibrado.
Ainda em 2012, em junho, foi realizada a Rio + 20, um evento internacional voltado para avaliar as ações adotadas desde a Rio-92 e o cumprimento das metas ali estabelecidas, além de estabelecer novos compromissos na seara ambiental. Dessa reunião foi produzido o documento “O Futuro que Queremos”, um conjunto de metas que visa a substituir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio a partir de 2015, com as atenções voltadas para a erradicação da fome e da miséria. Contudo, muitas decisões foram adiadas para 2015, quando a Assembleia Geral das Nações Unidas terá que se debruçar sobre o assunto. Certamente a agenda segue na mesma linha dos Programas que o Governo Federal vem desenvolvendo e mantendo, como é o caso do Brasil sem Miséria5.
Apesar dos inúmeros órgãos e institutos criados com a finalidade de adoção de políticas públicas ambientais, o caráter exploratório da economia brasileira foi e continua sendo um entrave para a proteção do meio ambiente.
5 O Programa Brasil sem Miséria foi implantado pelo Governo Federal com a proposta de erradicar a pobreza extrema, fazendo com que o Estado esteja junto às pessoas mais necessitadas, rompendo barreiras sociais, políticas, econômicas e culturais, por meio de diversas ações globais e regionais (BRASIL, 2012).