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Políticas públicas de combate à violência contra a mulher

Capítulo 3 I Plano Nacional de Políticas para Mulheres

3.4 Políticas públicas de combate à violência contra a mulher

O quarto eixo do I Plano Nacional de Políticas para Mulheres discute a violência, e foi chamado de Enfrentamento à violência contra as mulheres2 e trata da situação da mulher brasileira no que se refere a essa temática. A partir do titulo e do inicio do texto deste eixo já é possível identificar o sujeito contemplado aqui, a mulher vítima de violência. A qual é entendida neste plano como sendo vítima de violência diferente daquela sofrida pelo homem.

Homens e mulheres, em razão da especificidade de gênero, são atingidos pela violência de forma diferenciada. Enquanto a maior parte da violência cometida contra os homens ocorre nas ruas, nos espaços públicos, e, em geral é praticada por outro homem, a mulher é mais agredida dentro de casa, no espaço privado, e o agressor é ou foi uma pessoa íntima: namorado, marido, companheiro ou amante (I Plano, 2004, p. 67).

Este dado é importante na elaboração do plano em torno da temática da violência contra a mulher.

Seguem abaixo os objetivos deste eixo.

Objetivos

I. Implantar uma Política Nacional de Enfrentamento à Violência contra a Mulher.

II. Garantir o atendimento integral, humanizado e de qualidade às mulheres em situação de violência.

III. Reduzir os índices de violência contra as mulheres.

IV. Garantir o cumprimento dos instrumentos internacionais e revisar a legislação brasileira de enfrentamento à violência contra a mulher.

Quadro 11 - Objetivos do eixo enfrentamento à violência contra as mulheres. Fonte: I Plano Nacional de Políticas para Mulheres, 2004.

O primeiro objetivo, implantar uma política nacional de enfrentamento à violência contra a mulher, demonstra o reconhecimento da diferença da violência sofrida pelas mulheres. A elaboração das políticas e das demandas é guiada por

essa diferença. A violência contra a mulher está vinculada as desigualdades de gênero e ao poder atribuído ao homem, e através da ideologia dominante ainda sustenta-se uma concepção de inferioridade e subjugação da mulher (I PLANO, 2004). A violência pode ser psicológica, física, sexual ou patrimonial. São muitos tipos de violência sofridos pelas mulheres destacadas no plano e que justificam a elaboração de ações específicas que atendam a cada uma destas demandas: assédio sexual, desigualdade salarial, assédio moral, uso do corpo como objeto, tráfico de mulheres e meninas, etc. (I Plano, 2004).

A violência contra a mulher acontece no mundo inteiro e atinge mulheres de todas as idades, classes sociais, raças, etnias e orientação sexual. Qualquer que seja o tipo, física, sexual, psicológica, ou patrimonial, a violência está vinculada ao poder e à desigualdade das relações de gênero, onde impera o domínio dos homens, e está ligada também à ideologia dominante que lhe dá sustentação (Idem, p.67)

Este é o único momento de todo o texto deste eixo, em que a diversidade das vítimas é mencionada. Ainda assim é possível notar que mesmo com essa diferenciação, os sujeitos constituídos aqui continuam sendo as mulheres vítimas. Dessa forma as injustiças apresentadas nesta parte do plano baseiam-se essencialmente nas desigualdades de gênero, sem dar peso a possíveis diferenças no interior da categoria gênero.

Dados de uma pesquisa apresentados neste Plano dizem que 43% das mulheres (com pergunta estimulada) admitiram ter sofrido algum tipo de violência. A mesma pesquisa mostrou que uma em cada cinco brasileiras sofreu violência por parte de algum homem. “Projeta-se no mínimo 2,1 milhões de mulheres espancadas por ano, ou seja, uma em cada 15 segundos” (I Plano, 2004, p. 68).

O segundo objetivo, garantir o atendimento integral, humanizado e de qualidade às mulheres em situação de violência, complementa o primeiro, já que garante destaque para a rede de atendimento às vítimas de violência. O plano elenca inúmeros problemas relacionados à violência sofrida pelas mulheres: tráfico de mulheres, crianças e adolescentes (maioria de afro-descendentes entre 15 e 25 anos); abuso sexual de jovens (uma em cada quatro meninas é abusada antes dos

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18 anos); assassinato (cerca de 40% a 70% foram mortas por maridos ou namorados).

Para combater a violência contra a mulher, conforme o plano, são necessários recursos públicos e comunitários, além da efetivação de uma rede que envolva os poderes legislativo, judiciário, executivo, os movimentos sociais e a comunidade. Formando redes de prevenção e de atendimento, as quais devem ser compostas de assistência jurídica, social, serviços de saúde, segurança, educação e trabalho. Esses serviços incluem: delegacias especializadas e comuns, centros de referência, serviços de saúde, defensorias públicas e da mulher, casas abrigos, policia militar, corpo de bombeiros, entre outros (I Plano, 2004).

O terceiro objetivo, reduzir os índices de violência contra as mulheres, com caráter bastante geral, apresenta pouca informação. É possível supor, que assim como os outros, reconhece a diferença das mulheres e da violência sofrida por elas. De forma conjunta com os demais objetivos deste eixo, busca reconhecer e combater a violência.

Durante as últimas décadas correspondendo à correlação de forças existente em cada momento e em cada região, os movimentos de mulheres e feministas pressionaram o Estado a assumir o seu papel no enfrentamento à violência contra a mulher. Assim, surgiram na década de 80 as DEAMs, a área da saúde incorporou a violência de gênero na sua agenda e foram sendo mais frequentemente criados serviços de proteção e assistência às mulheres que vivem em situação de violência, como as Casas Abrigo e Centros de Referência (Idem, p. 70).

O quarto objetivo, garantir o cumprimento dos instrumentos internacionais e revisar a legislação brasileira de enfrentamento à violência contra a mulher, vem na esteira dos demais, visando buscar instrumentos que minimizem este tipo diferente de violência. Cabe destacar que em resposta às pressões internacionais, e aos movimentos de mulheres e feministas, foi criado um grupo interministerial com o objetivo de discutir um anteprojeto de lei sobre a violência doméstica sofrida pelas mulheres, remetido ao Congresso em novembro de 2004, que culminou na Lei Maria da Penha de 2006.

A seguir as metas e as prioridades deste eixo, os quais configuram em desdobramentos mais detalhados dos objetivos.

Metas

A. Proceder a um diagnóstico quantitativo e qualitativo sobre os serviços de prevenção atenção às mulheres em situação de violência em todo o território nacional.

B. Definir a aplicação de normas técnicas nacionais para o funcionamento dos serviços de prevenção e assistência.

C. Integrar os serviços em redes locais, regionais e nacionais.

D. Instituir redes de atendimento às mulheres em situação de violência em todos os Estados brasileiros, englobando os seguintes serviços: Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher, Polícia Militar e Unidades Móveis do Corpo de Bombeiros, Centro de Referência, Casa Abrigo, Serviços da saúde, Instituto Médico Legal, Defensoria Pública, Defensoria Pública da Mulher, e programas sociais de trabalho e renda, de habitação e moradia, de educação, cultura e de justiça, Conselhos e Movimentos sociais.

E. Implantar serviços especializados de atendimento às mulheres em situação de violência em todos os Estados brasileiros e Distrito Federal segundo o diagnóstico realizado e as estatísticas disponíveis sobre a violência em cada região.

F. Aumentar em 15% os serviços de atenção à saúde da mulher em situação de violência. G. Implantar um sistema nacional de informações sobre violência contra a mulher.

H. Capacitar e treinar os profissionais atuantes nos serviços de prevenção e assistência segundo modelo integrado desenvolvido pelo MS/SEPPIR/SPM e SENASP em todas as unidades da federação, com especial as cidades com maiores índices de violência contra a mulher.

I. Ampliar em 50% o número de Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher e implantar Núcleos Especializados nas delegacias existentes.

Quadro 12 - Metas do eixo enfrentamento à violência contra as mulheres. Fonte: I Plano Nacional de Políticas para Mulheres, 2004.

As metas apresentam o mesmo caráter dos objetivos e também constituem um sujeito: a mulher em situação de violência. Todo este eixo está centrado nas formas de violência e não na diversidade de sujeitos/ vítimas, por isso é difícil demonstrar maiores desdobramentos desta temática.

Os dados apresentados pretendem justificar essa centralidade na mulher vitima, afirmando que “(...) cerca de uma, em cada cinco mulheres brasileiras, sofreu algum tipo de violência por parte de algum homem (I Plano, 2004, p.68)”.

As prioridades são constituídas da mesma forma, sendo justificadas por inúmeros dados ao longo deste eixo, atribuindo sempre maior peso as demandas e tipos de violência sofrida pelas mulheres.

Prioridades

4.1. Ampliar e aperfeiçoar a Rede de Prevenção e Atendimento às mulheres em situação de violência.

4.2. Revisar e implementar a legislação nacional e garantir a aplicação dos tratados internacionais ratificados visando o aperfeiçoamento dos mecanismos de enfrentamento à violência contra as mulheres.

4.3. Promover ações preventivas em relação à violência doméstica e sexual.

4.4. Promover a atenção à saúde das mulheres em situação de violência doméstica e sexual. 4.5. Produzir e sistematizar dados e informações sobre a violência contra as mulheres.

4.6. Capacitar os profissionais das áreas de segurança pública, saúde, educação e assistência psicossocial na temática da violência de gênero.

4.7. Ampliar o acesso à justiça e à assistência jurídica gratuita.

Quadro 13 - Prioridades do eixo enfrentamento à violência contra as mulheres. Fonte: I Plano Nacional de Políticas para Mulheres, 2004.

Este último eixo temático do I Plano talvez seja o mais emblemático, pois reconhece a diferença da violência sofrida pela mulher baseado em apenas um sujeito (mulher vítima), a partir do qual sustenta todas as demandas e injustiças a serem atendidas.