2. Ressurgimento do Etanol Automotivo no Brasil: desafios e estratégias recentes dos
3.2. O Quadro institucional voltado à indústria automobilística nacional
3.2.1. Políticas públicas e a redução de emissões
Com o intuito de reduzir a quantidade de poluentes emitidos pela utilização de veículos automotores, foi estabelecido, em 1986, pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), o Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores (Proconve). O Programa passou a regular a quantidade máxima de poluentes gerada pelos automóveis e foram limitados os seguintes gases: monóxido de carbono (CO), óxidos de nitrogênio (NOX), hidrocarbonetos não queimados (NMHC), aldeídos, além de material particulado. Nota-se que o CO2 não está nesta seleção pelo seguinte fato: o CO2 gerado representa a oxidação completa do carbono; quando isso não ocorre haveria formação dos demais gases anteriormente descritos, os quais são poluentes e tóxicos. Uma vez que o gás carbônico está diretamente ligado à queima do combustível, as soluções encontradas para menores emissões de CO2 são ou uma maior eficiência energética ou com o chamado
downsizing dos motores e dos carros, ou seja, veículos menores (em tamanho e potência) e
com melhor rendimento energético, mais adaptados ao uso urbano e de curta distâncias, por exemplo (GALLO, 2012).
Mais especificamente, o Proconve foi ajustado ao longo do tempo, 6 diferentes versões já foram realizadas e estima-se que a redução de poluentes com relação ao início do programa tenha ultrapassado a casa dos 95%36, como uma forma constante de estimular o desenvolvimento de tecnologias que diminuam o impacto ao ambiente, mesmo que isso tenha forçado a internalização de tecnologia desenvolvidas e utilizadas em outros países primeiramente. Por exemplo, o uso de catalisadores se inicia nos EUA quase 10 anos antes que no Brasil, e este só ocorreu por uma legislação restritiva, como o caso da Califórnia. E nesse sentido, nota-se a adoção dos catalisadores de três vias no Brasil e um esforço maior no sentido de reduzir a emissão de poluentes locais. As fases do Proconve e o limite de emissões em cada uma delas para cada um dos poluentes já citados estão no Gráfico 3.1 que segue.
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Mais informações e detalhes disponíveis em:
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Gráfico 3.1 - Fases do Proconve e Limite de Emissão de Poluentes, Brasil, 1988-2014
Fonte: MMA (2011)
Nota-se, assim, que em termos de emissão de poluentes o avanço nos automóveis pode ser considerado bastante efetivo. Outra forma de colocar em evidência essa questão é que a partir de 2008 o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) passou a mensurar a eficiência energética dos automóveis populares a partir do Programa Brasileira de Etiquetagem Veicular (PBVE), um “selo Procel” para veículos, por meio da aplicação de questionários com as maiores montadoras no Brasil e de testes práticos com os modelos selecionados pelas montadoras. Considera-se este um instrumento de política efetivo, capaz de induzir melhoras na eficiência energética dos automóveis e de introduzir tecnologias melhoradas nos veículos comercializados no país (BASTIN et al., 2010). Além disso, serviu como trampolim para o estabelecimento de um novo marco regulatório, específico para os veículos automotores.
O PBEV não é uma obrigação imposta às montadoras, seu funcionamento se dá por adesão das empresas. Entretanto nota-se que o escopo do programa teve um crescimento rápido mesmo em um curto espaço de tempo, cujo estímulo mais marcante ocorreu em 2012, pois uma forma para a montadora fazer parte do Inovar-Auto é ter os modelos e suas respectivas versões avaliadas nessa sistemática. Assim, quando se analisa o número de modelos e versões incluídos nas diferentes versões do PBEV tem-se o início com 54
0 5 10 15 20 25 30 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 L1 L2 L3 L4 L5 L6 g/ Km CO NOx NMHC
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modelos e versões em 2009 até chegar em um universo de 540 em 2014. A Tabela 3.2 abaixo procura mostrar essa evolução.
Tabela 3.2 - Total de Modelos e Versões no Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular por categoria, Brasil, 2009-2014 Categorias 2009 2010 2011 2012 2013 2014 Subcompacto 18 12 20 31 38 40 Compacto 25 17 17 62 84 108 Médio 7 13 11 34 63 94 Grande 3 12 17 29 111 75 Outras 1 13 18 49 152 223 Total 54 67 83 205 448 540
Fonte: PBEV - Inmetro
Em 2012, o governo federal, por meio do decreto presidencial 7.819/2012, instituiu o Programa Inovar-Auto37, nomeadamente Programa de Incentivo à Inovação Tecnológica e Adensamento da Cadeia Produtiva de Veículos Automotores, que busca desenvolver tecnologias em território nacional para a obtenção de veículos com maior qualidade e segurança, bem como motores que apresentem melhores eficiência do ponto de vista energético.
Especificamente no que toca os motores, respeita-se as características de cada montadora e de seus respectivos modelos, dado que a melhora é relativa ao modelo comercializado no ano de promulgação do decreto. É um estímulo que atinge todos os veículos por igual e não dá vantagens, em princípio, para nenhuma empresa e se aplica aos modelos à gasolina ou flex fuel; o salto qualitativo necessário para atingir a meta e seu respectivo bônus de menor carga tributária é uma melhora em 10% da eficiência dos automóveis em relação aos modelos comercializados em 2011, ano que serve como linha de base para a comparação e o traçado das metas para melhorias.
Para que uma montadora participe do Inovar-Auto e obtenha as vantagens fiscais é necessário que esta cumpra diferentes requisitos, dentre os quais ter fábrica e atividades produtivas no país (ou ao menos um projeto de instalação fabril em andamento), além da necessidade de cumprir ao menos duas das três ações enunciadas na sequência, i. pesquisa e
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Decreto 7.819 de 3 de outubro de 2012, http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011- 2014/2012/Decreto/D7819.htm
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desenvolvimento, ii. engenharia, tecnologia industrial básica e capacitação de fornecedores, e iii. adesão ao Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular.
Considera-se como atividades de P&D i. pesquisa básica dirigida; ii. pesquisa aplicada; iii. desenvolvimento experimental; e iv. serviços de apoio técnico. Como
engenharia, tecnologia industrial básica e capacitação de fornecedores: i.
desenvolvimento de engenharia; ii. tecnologia industrial básica; iii. treinamento de pessoal de PD&I; iv. desenvolvimento de produtos; v. construção de laboratórios; vi. desenvolvimento de ferramental e moldes, e vii. capacitação de fornecedores. Essas atividades podem ser realizadas internamente ou por contratação de fornecedores ou via contratação de universidades, institutos de pesquisa, empresa especializada ou mesmo com inventores independentes; essas ações também podem ser em parte cobertas com recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT).
Especialistas críticos ao Programa apontam que, conceitualmente, não é complexo diferenciar as atividades de PD&I frente às de engenharia rotineira; entretanto a prática pode enviesar os resultados no sentido de dar um maior peso a atividades cuja efetividade não seja tão grande; assim, o marco regulatório poderia ter focado, e ao longo do tempo ter fortalecido, ações cuja finalidade estivessem ligadas ao uso de combustíveis alternativos, especialmente a tecnologia flex fuel. Um risco neste ponto está em se conferir os avanços da PD&I frente ao que foi declarado para o programa e para o fisco.
Entretanto, uma questão controversa está em estimular, ao mesmo tempo, o desenvolvimento de motores tanto à gasolina quanto flex fuel; essa preocupação ocorre pelo fato dos motores dedicados a um único combustível terem uma maior facilidade para ganhos de funcionamento e eficiência. Se não houvesse pressões, inicialmente pela academia e também pelos consumidores, prioritariamente os motores dedicados (basicamente a gasolina) receberiam maior atenção para o desenvolvimento tecnológico - um risco presente sempre que se trata do avanço do uso de álcool combustível (ou de qualquer alternativa ao petróleo). As estratégias de atuação das montadoras respeitam uma lógica global e tendem a padronizar seus modelos e tecnologias embarcadas.
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3.2.2. Evolução recente dos automóveis no Brasil: resultados do Proconve, PBEV e