2.2 PLANTAS MEDICINAIS: LEGISLAÇÃO E POLÍTICAS PÚBLICAS
2.2.1 Políticas públicas e saúde ambiental e cultural
A Constituição Federal Brasileira (CFB) concede à União a competência para elaborar e executar políticas nacionais para o desenvolvimento econômico e social. As decisões de caráter geral que indicam diretrizes e estratégicas de atuação governamental configuram-se em políticas, reduzindo os efeitos da descontinuidade administrativa e potencializando os recursos disponíveis ao tornarem públicas, expressas e acessíveis à população e aos formadores de opinião, as intenções do governo no planejamento de programas, projetos e atividades (BRASIL, 2006).
Política (Politikós) é um adjetivo que tem origem na palavra grega pólis e refere-se a tudo o que diz respeito às coisas da cidade, isto é, ao que é urbano, público, civil e social. Neste sentido, a política é entendida, como conceito, como forma de atividade ou de práxis humana2. No contexto das políticas públicas, a política é entendida como um conjunto de procedimentos que exprimem relações de poder e que se dirige à resolução de conflitos referentes aos bens públicos (RODRIGUES, 2010). Portanto, política pública é o processo pelo qual os diversos grupos sociais tomam decisões coletivas, que condicionam o conjunto dessa sociedade. Desta forma, quando decisões coletivas são tomadas, se convertem em algo a ser compartilhado, ou seja, em uma política comum.
A PNPMF, aprovada por meio do Decreto Nº 5.813, de 22 de junho de 2006, contempla os aspectos acima mencionados quando estabelece diretrizes e linhas prioritárias para o desenvolvimento de ações, pelos diversos parceiros, em torno de objetivos comuns voltados à garantia do acesso seguro e uso racional de plantas medicinais e fitoterápicos no país, ao desenvolvimento de tecnologias e inovações, ao fortalecimento das cadeias e dos arranjos produtivos, ao uso sustentável da biodiversidade brasileira e ao desenvolvimento do Complexo Produtivo da Saúde (BRASIL, op. cit.).
Tendo em vista estabelecer diretrizes para a atuação do governo na área de plantas medicinais e fitoterápicos, a PNPMF foi elaborada seguindo alguns princípios norteadores. Quais sejam: melhoria da atenção à saúde, uso sustentável da biodiversidade brasileira e
fortalecimento da agricultura familiar, geração de emprego e renda, desenvolvimento industrial e tecnológico e perspectiva de inclusão social e regional, bem como da participação popular e do controle social sobre todas as ações decorrentes desta iniciativa. Deve-se ressaltar, entre os fatores previamente admitidos, a necessidade de minimização da dependência tecnológica e do estabelecimento de uma posição de destaque do Brasil no cenário internacional (BRASIL, 2006).
Ainda que o Brasil possua a maior diversidade vegetal do mundo, com cerca de sessenta mil espécies vegetais superiores catalogadas (PRANCE, 1977), apenas oito por cento foram estudadas para pesquisas de compostos bioativos e mil e cem espécies foram avaliadas em suas propriedades medicinais (GUERRA; NODARI, 2001). Portanto, a PNPMF tem como premissas o respeito aos princípios de segurança e eficácia na saúde pública e a conciliação de desenvolvimento socioeconômico e conservação ambiental nos âmbitos local e nacional.
O respeito às diversidades e particularidades regionais e ambientais é também princípio norteador da PNPMF (BRASIL, op. cit.). Neste sentido, o modelo de desenvolvimento almejado deverá reconhecer e promover as práticas comprovadamente eficazes, a grande diversidade de formas de uso das plantas medicinais, desde o uso caseiro e comunitário, passando pela área de manipulação farmacêutica de medicamentos até o uso e fabricação de medicamentos industrializados. Para tanto, deverá respeitar a diversidade cultural brasileira, reconhecendo práticas e saberes da medicina tradicional, contemplar interesses e formas de usos diversos, desde aqueles das comunidades locais até o das indústrias nacionais, passando por uma infinidade de outros arranjos de cadeias produtivas do setor de plantas medicinais e fitoterápicos.
A PNPIC foi instituída pelo Ministério da Saúde no cumprimento de suas atribuições de coordenação do Sistema Único de Saúde (SUS) e de estabelecimento de políticas para garantir a integralidade na atenção à saúde, cuja implementação envolve justificativas de natureza política, técnica, econômica, social e cultural. Esta política atende, sobretudo, à necessidade de se conhecer, apoiar, incorporar eimplementar experiências que já vêm sendo desenvolvidas na rede pública de muitos municípios e estados, entre as quais destacam-se aquelas no âmbito da Medicina Tradicional Chinesa-Acupuntura, da Homeopatia, da Fitoterapia, da MedicinaAntroposófica e do Termalismo-Crenoterapia (BRASIL, op. cit.).
A PNPIC define as abordagens das práticas integrativas e complementares no SUS, levando em conta também a crescente legitimação destas por parte da sociedade. Este processo é refletido na demanda pela sua efetiva incorporação ao SUS, conforme atestam as deliberações: das Conferências Nacionais de Saúde; da 1ª Conferência Nacional de Vigilância
Sanitária, em 2001; da 1ª Conferência Nacional de Assistência Farmacêutica, em 2003, a qual enfatizou a necessidade de acesso aos medicamentos fitoterápicos e homeopáticos; e da 2ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde, realizada em 2004 (BRASIL, 2006). Entretanto, devido a ausência de diretrizes específicas, as experiências levadas a cabo na rede pública estadual e municipal têm ocorrido de modo desigual, descontinuado e, muitas vezes, sem o devido registro, fornecimento adequado de insumos ou ações de acompanhamento e avaliação.
Em 1996, o Relatório da 10ª Conferência Nacional de Saúde aponta no item 286.12 que deve ser incorporado no SUS, em todo o País, as práticas de saúde como a Fitoterapia, acupuntura e homeopatia, contemplando as terapias alternativas e práticas populares. O item 351.10, indica que o Ministério da Saúde deve incentivar a Fitoterapia na assistência farmacêutica pública e elaborar normas para sua utilização, amplamente discutidas com os trabalhadores em saúde e especialistas, nas cidades onde existir maior participação popular, com gestores mais empenhados com a questão da cidadania e dos movimentos populares (BRASIL, op. cit.).
A Política Nacional de Medicamento, aprovada pela Portaria nº 3916/98 (BRASIL, op. cit.), estabelece no âmbito de suas diretrizes o desenvolvimento científico e tecnológico. Esta política ressalta que deverá ser continuado e expandido o apoio às pesquisas que visem o aproveitamento do potencial terapêutico da flora e fauna nacionais, enfatizando a certificação de suas propriedades medicamentosas.
O Conselho Nacional de Saúde aprova a Política Nacional de Assistência Farmacêutica, conforme a Resolução nº 338/04 (BRASIL, op. cit.), a qual contempla em seus eixos estratégicos a definição e pactuação de ações intersetoriais que objetivem a utilização das plantas medicinais e de medicamentos fitoterápicos no processo de atenção à saúde, incorporando os conhecimentos tradicionais, com embasamento científico, com adoção de políticas de geração de emprego e renda, com qualificação e fixação de produtores, envolvimento dos trabalhadores em saúde no processo de incorporação dessa opção terapêutica e suportada no incentivo à produção nacional, baseada na biodiversidade existente no país.
Existem diversos programas estaduais e municipais de Fitoterapia, atualmente. Desde aqueles com memento terapêutico e regulamentação específica para o serviço, implementados há mais de dez anos, até aqueles com início recente ou em vias de implantação. Ademais, um levantamento realizado pelo Ministério da Saúde no ano de 2004, em todos os municípios brasileiros, verificou que a Fitoterapia está presente em cento e dezesseis municípios,
contemplando vinte e duas unidades federadas (BRASIL, 2006). Assim, A PNIPIC contribui para o fortalecimento dos princípios fundamentais do SUS ao atuar nos campos da prevenção de agravos e da promoção, manutenção e recuperação da saúde baseada em modelo de atenção humanizada e centrada na integralidade do indivíduo, bem como, reconhece e possibilita a valorização e respeito a diversidade cultural brasileira, reconhecendo práticas e saberes da medicina tradicional, contemplando interesses e formas de usos diversos.
Ressalta-se, portanto, que fatores como a convergência e a sintonia entre políticas setoriais devem ser considerados na elaboração de políticas públicas na área de plantas medicinais e fitoterápicos, como a Política Nacional de Saúde, a Política Nacional de Biodiversidade, a Política Industrial Tecnológica e de Comércio Exterior e a Política Nacional de Desenvolvimento Regional, que contemplam biotecnologia e fármacos em suas ações estratégicas, nas denominadas “áreas portadoras de futuro” (BRASIL, op. cit.).