4. RESULTADOS
4.1. FAMÍLIAS E PROPRIEDADES ESTUDADAS
4.1.7. Políticas públicas
4.1.7.1. Assistência técnica
As políticas públicas que objetivam o fortalecimento da agricultura familiar
destacam ser o serviço de Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) um
instrumento imprescindível para promoção do desenvolvimento rural sustentável.
Apesar de se destacar como principal pólo agrícola do território da
Transamazônica, o município de Medicilândia apresenta sérias limitações no que diz
respeito ao serviço público de ATER, tanto em qualidade como suficiência, segundo
relato dos entrevistados. Na amostra estudada foi constatada apenas atuação da
CEPLAC e EMATER, principais prestadores de ATER pública no município, embora
haja também atuação de uma cooperativa de prestação de serviços conveniada com
o INCRA (COODESTAG) e uma empresa privada de assessoria rural (ASSISTEC)
atuando em Medicilândia.
Do grupo estudado apenas 37% (27 famílias) já teve acesso ao serviço ou
visita de profissionais de ATER em seus estabelecimentos em algum momento.
Analisando a relação de famílias que tiveram acesso a ATER nos últimos quatro
anos, este percentual sofre declínio para 16%, dado este que oferece maior precisão
da atuação das instituições de ATER no município.
A grande diferença proporcional entre demanda e oferta de serviços de ATER
tem contribuído, segundo os agricultores para a redução qualitativa dos serviços
prestados. Questionados sobre a qualidade da ATER no município, 52% dos
agricultores avaliam como Ruim, 15% Regular e 33% como Bom, não apresentando
nenhuma avaliação Muito Bom ou Excelente.
Dentre as questões que contribuem para a avaliação negativa dos
agricultores, destacam-se a infra-estrutura deficitária (16%), baixa qualificação
profissional (11%), recursos humanos insuficientes (16%), serviço sem freqüência e
seqüência (11%), falta de incentivo governamental (16%), serviço voltado à
fiscalização do crédito e não à orientação (32%).
Nos últimos anos o serviço de ATER local está muito atrelado à política de
crédito agrícola, de forma que só têm recebido este serviço as famílias que
acessaram o crédito. Esta informação confere com constatação do então
coordenador do escritório local da EMATER do município de Uruará - PA, num
evento de capacitação que reuniu agentes de ATER de todos os municípios do
território, coordenado e facilitado pelo autor deste trabalho em abril de 2006:
A demanda por ATER na região é muito grande e não temos pernas para acompanhar. Hoje a EMATER tem combustível e veículo para ir pra campo, mas somos insuficientes em recursos humanos. Como os agentes financeiros [bancos] não são dotados de profissionais de campo o serviço de ATER na região acaba se tornando mero “fiscal de crédito” (Sr. D.F.A. extensionista. In BRASIL, 2006, p. 5).
Como o território sofre de problemas crônicos que há anos restringem famílias
agricultoras de acessarem o crédito, como os problemas fundiários e a falta de
documentos dos imóveis rurais, por exemplo, a atuação da ATER basicamente
como “fiscalizadora do crédito”, como constatada pelos agricultores e extensionistas,
configura-se como uma política excluidora, uma vez que as famílias já excluídas do
sistema público de crédito rural vêem aumentado a probabilidade de também serem
excluídas da política de ATER pública.
Segundo as instituições, a falta de recursos humanos é o principal entrave da
ATER no município. Embora o município de Medicilândia seja o maior produtor
estadual de cacau, café e banana, além de extensas áreas de outros cultivos de
importância econômica local, no período de realização deste estudo haviam apenas
nove extensionistas, sendo dois da CEPLAC e sete da EMATER. Frente a demanda
por serviços de ATER, este número de profissionais disponível no município é
insuficiente para assegurar o que preconiza a Política Nacional de Assistência
Técnica e Extensão Rural – PNATER, que é o “acesso a serviço de assistência
técnica e extensão rural pública, gratuita, de qualidade e em quantidade suficiente,
visando o fortalecimento da agricultura familiar” (BRASIL, 2004, p. 7).
4.1.7.2. Crédito agrícola
O fato das famílias estudadas terem como principal produto o cacau, uma
cultura cujo custo de formação da lavoura é considerado alto, o crédito agrícola tem
se tornado um instrumento importante para custear as atividades, principalmente
nos primeiros anos onde a lavoura não dispõe de produção. O percentual de famílias
que já acessaram o crédito é de 71,2%, um número elevado se comparado com a
realidade do território e do município. No entanto relatos de agricultores apontam
esta política como de difícil atendimento e excessivamente burocrática.
As principais linhas de financiamentos acessadas foram FNO Normal e
Especial e PRONAF D e E, operacionalizadas pelo Banco do Brasil e Banco da
Amazônia. Dentre os produtos financiados apresentam destaque o cacau (42,7%),
gado (25,3%), consórcio coco x cupuaçu (13,3%).
Aproximadamente 70% das famílias que acessaram o crédito avaliam esta
política como Bom. No entanto, é uma avaliação exclusiva do financiamento e não
do conjunto de ações que compõem o programa. Esta avaliação positiva se dá
justamente pela conjuntura em que busca este tipo de apoio, normalmente um
período onde as condições financeiras da família ou é insuficiente para implementar
o projeto ou se utilizada as reservas financeiras existente pode acentuar os riscos de
outras atividades, ou mesmo para eventuais necessidades da família.
Mesmo para quem faz avaliação positiva, destaca que a política apresenta
algumas limitações que, se não observadas, podem comprometer completamente o
projeto, principalmente questões como demora na liberação de parcelas, falta de
acompanhamento técnico e itens financiados que não se fazem necessários na
propriedade. As expressões dos agricultores abaixo qualificam melhor a questão:
Olha, sem dúvida foi muito bom o financiamento, mas eu perdi dinheiro, pois comprei muito adubo e depois não tive orientação de como usar. [...] não tive acompanhamento do financiamento (Sr. A. T., Agricultor, jan. 2009). Quando a gente pede pra financiar cacau, já ta tudo pronto lá na máquina então joga pro papel e manda pro banco. [...] eu recebi mais oito facão e uma bomba de bater veneno. E olha que eu tenho mais de dez facão no paiol e uma bomba nova que comprei este ano. Pra quê isso tudo, né? (Sr. J. A. Agricultor, dez. 2008).