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Segundo o entendimento de Inojosa (2001), a noção de interdisciplinidaridade, no campo das políticas públicas, é denominada de intersetorialidade. O conceito de intersetoriali-

dade implica na articulação de diferentes setores, em ação conjunta, na tentativa de resolver problemas da sociedade. O trabalho intersetorial supõe não apenas o diálogo ou o trabalho simultâneo entre os atores envolvidos, mas a busca por resultados integrados.

Para Bourguignon (2001), as políticas públicas básicas (educação, saúde, assistência social, cultura e habitação) são implementadas de forma setorial. Para isto, cada área conta com instituições e serviços próprios isolados. Gerando a fragmentação no tratamento das de- mandas sociais.

A intersetorialidade pressupõe uma nova visão da sociedade pautada na sua condição holística. Esta nova visão permite delinear novas práticas pautadas na sua capacidade de cons- truir saberes transdisciplinares, ou seja, que ultrapassem as barreiras da disciplinariedade e construam conhecimentos a partir das várias ciências e linhas de abordagem. Neste sentido, há lugar para delinear uma visão da realidade social que contemple os aspectos econômicos, polí- ticos e sociais, além das múltiplas visões e explicações científicas dos fatos (CAPRA, 1988).

A qualidade de vida demanda uma visão integrada dos problemas sociais. A gestão intersetorial surge como uma nova possibilidade para resolver esses problemas que incidem sobre uma população. Essa é uma perspectiva importante porque aponta uma visão integrada dos problemas sociais e de suas soluções. Com isso busca-se otimizar os recursos escassos procurando soluções integradas, pois a complexidade da realidade social exige um olhar que não se esgota no âmbito de uma única política social (JUNQUEIRA,1999, p.27)

Para Lopes (2006), a intersetorialidade no campo das Políticas Públicas circunscreve- se no compartilhamento de conhecimentos e na reconstrução dos mesmos, com a integração das mais variadas áreas das ciências, bem como o compartilhamento de espaços decisórios e de planejamento.

Nesta perspectiva, a intersetorialidade no âmbito da política do etanol e cana de açúcar destaca-se como um exemplo de ação intersetorial a atuação de Políticas Públicas envolvendo o setor energético e agrícola com as questões do setor trabalhistas. Neste contexto podemos destacar a “Mesa de Diálogo para Aperfeiçoar as Condições de Trabalho na Cana de Açúcar”, instalada em 2008, trata-se de um fórum nacional de diálogo e negociação tripartite (governo, usineiros e trabalhadores), criada para debater soluções e tornar mais humano e seguro o cul- tivo manual da cana de açúcar, além de promover a reinserção ocupacional dos trabalhadores desempregados pelo avanço da mecanização da colheita (SILVA, 2009).

Em 2009, foi firmado entre o Governo Federal, entidades de trabalhadores e de empre- sários do setor sucroenergético, o “Compromisso Nacional para Aperfeiçoar as Condições de

Trabalho na Cana de Açúcar”, um acordo intersetorial visando o exercício da responsabilidade social. Apesar da legislação brasileira já assegurar os de direitos sociais, trabalhistas e sindi- cais, o Compromisso Nacional estabelece práticas empresariais que ampliam os direitos reco- nhecidos em lei e aperfeiçoam as condições relativas a importantes aspectos. O contrato de trabalho, por exemplo, passará a ser diretamente entre a empresa e o trabalhador, eliminando o intermediário, que tem sido fonte de precarização do trabalho, já o trabalhador migrante terá o contrato com intermediação do sistema de público de emprego. Os compromissos relaciona- dos à segurança do trabalho, saúde, transporte e alimentação do trabalhador visam melhorias das condições atuais (SILVA, 2009; RODRIGUES, 2007).

Em 2010, foi formalizada a “Comissão Nacional de Diálogo e Avaliação do Compro- misso Nacional” a qual o diálogo entre empresas e organizações não governamentais (ONGs) torna-se cada vez mais freqüente, substituindo o tradicional antagonismo por um novo tipo de governança para resolução de conflitos e implementação de agendas (RODRIGUES, 2011). O trabalho da comissão destaca a importância de garantir maior integração entre os vários canais setoriais de participação social, visa promover iniciativas com o objetivo de assegurar a inter- setorialidade e fortalecer a participação social nos processos de formulação, implementação e avaliação de políticas públicas nos três níveis de Governo (DIÁLOGO..., 2011).

O sucesso da utilização do etanol como combustível alternativo no Brasil deve-se, em grande parte, a estas políticas setoriais e intersetoriais (zoneamento da cana, criação do carro “flex-fuel”, redução de emissões de carbono na matriz energética, políticas ambientais, restri- ções a violação do trabalho no setor canavieiro etc.), o que motivou vários países do mundo a desenhar políticas públicas intersetoriais de biocombustíveis como vem se fazendo em partes do Brasil. Os objetivos destas políticas estão centrados nos aspectos de segurança energética, diante da dependência do petróleo e nas questões ambientais, que buscam redução de emissão de gases na atmosfera (ANDRADE; MICCOLIS, 2010a; SOUSA, 2006).

Nesta sistemática, podemos exemplificar como atuação direta a competência da Agên- cia Nacional do Petróleo (ANP) para regular o setor sucroalcooleiro e parte da competência para regulação de alguns aspectos ao Ministério da Agricultura, tanto que a Comissão Inter- ministerial do Açúcar e do Álcool está no âmbito do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. O Zoneamento Agro ecológico da Cana-de-açúcar (ZAE) oficializado pelo Decreto Presidencial 6.961/2009 enviado como projeto de lei (PL 6.077/2009) ao Congresso Nacional, também pode ser considerado um exemplo de atuação intersetorial uma vez que houve a participação política de outros setores em sua elaboração, caracterizando as políticas

intersetoriais. Segundo Andrade e Miccolis (2010a) o Zoneamento tem sido coordenado pelo Ministério da Agricultura por meio da Embrapa, em parceria com o Ministério do Meio Am- biente, outras agências federais e universidades. Portanto é importante estudar a evolução das políticas setoriais para intersetorialidade e a transformação política que vem ocorrendo para atender a demanda cada vez mais complexa da sociedade.

A Figura 8, apresentada abaixo, demonstra um esquema de interação entre as políticas setoriais e intersetoriais que articulam o setor de produção agro energética. Em que a agricul- tura e a energia, através de políticas setoriais atuam de forma direta no setor de bioenergia, já os demais setores atuam de forma indireta através de políticas intersetoriais.

Figura 7 - Esquema de interação entre as políticas setoriais e intersetoriais de produção agro energética

Fonte: Adaptado de Andrade e Miccolis (2010a)

No próximo item, serão apresentadas as mudanças decorrentes das políticas interseto- riais, tratando sobre os conflitos ambientais decorrentes da expansão da cana para o etanol e açúcar, o Zoneamento Agro ambiental da Cana de açúcar e a importância do Código Florestal.

Políticas

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