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Durante muitos anos, a visão que prevaleceu em muitos países do mundo em relação à temática do uso de drogas foi influenciada pelo modelo norte-americano conhecido como “Guerra às drogas”. Este modelo privilegia ações de redução da oferta de drogas, ou seja, iniciativas voltadas ao enfrentamento ao tráfico, em detrimento de ações de redução da

demanda, que são aquelas voltadas à prevenção, tratamento e reinserção social, com foco nos

usuários e dependentes.

No ano de 1998, houve um marco mundial importante, que foi a realização da XX Sessão Especial da Assembléia Geral das Nações Unidas1, na qual os países-membros reuniram-se para discutir e avaliar as estratégias de enfrentamento à questão das drogas em nível global. Naquele encontro, houve o reconhecimento da importância de se destacar igual valor às ações de redução da demanda e da oferta de drogas. Assim, foi destacada a complexidade associada ao tema e consolidada a visão de que equações reducionistas e ações desintegradas não iriam sanar os problemas decorrentes. Segundo Fonseca (2006), os princípios diretivos da ONU tinham por objetivo reforçar, em caráter permanente, o compromisso político, social, sanitário e educacional em relação ao investimento em programas de redução da demanda de drogas. Historicamente, desde os anos 1970, o Brasil vem construindo políticas públicas alinhadas a esses preceitos, entendendo que redução da oferta e redução da demanda são ações complementares.

Atualmente, o Brasil conta com dois marcos legais importantes: a Política Nacional sobre Drogas de 2004 e a nova Lei de Drogas – lei 11.343 de 2006, que trouxeram mudanças significativas na abordagem dos usuários de drogas.

1.2.1 - A Política Nacional sobre Drogas – PNAD

A atual Política Nacional sobre Drogas (Brasil, 2005), preconiza ações voltadas tanto para as drogas lícitas quanto ilícitas e conta com cinco capítulos diferentes, que tratam dos seguintes temas: prevenção; tratamento, recuperação e reinserção social; redução de danos

sociais e à saúde; redução da oferta – repressão; estudos, pesquisas e avaliações. Entre os objetivos dessa Política, merece destaque:

Educar, informar, capacitar e formar pessoas em todos os segmentos sociais para a ação efetiva e eficaz de redução da demanda, da oferta e de danos, fundamentada em conhecimentos científicos validados e experiências bem-sucedidas, adequadas à nossa realidade (Brasil, 2005, p.14).

O objetivo principal é priorizar as ações de prevenção do uso indevido de drogas, pois é sabido que, a longo prazo, esta é a intervenção mais eficaz e de menor custo para a sociedade (Duarte, Stempliuk & Barroso, 2009). No tocante ao tema da prevenção, como orientação geral da Política, encontra-se:

As ações preventivas devem ser planejadas e direcionadas ao desenvolvimento humano, ao incentivo à educação para a vida saudável, acesso aos bens culturais, incluindo a prática de esportes, cultura, lazer, a socialização do conhecimento sobre drogas, com embasamento científico, o fomento do protagonismo juvenil, da participação da família, da escola e da sociedade na multiplicação dessas ações (Brasil, 2005, p. 18).

Outro ponto relevante entre os seus pressupostos é o reconhecimento das diferenças existentes entre o usuário, a pessoa em uso indevido, o dependente e o traficante de drogas, tratando-os de forma diferenciada. Marcar essas diferenças é fundamental para a qualificação das discussões e das ações sobre o tema, uma vez que o senso comum, na maioria das vezes, reproduz a ideia da chamada “escalada das drogas”. Ou seja, como se o fato de um adolescente experimentar algum tipo de droga, ou mesmo fazer um uso recreativo, necessariamente o levará a tornar-se dependente da substância. A política desconstrói esta ideia, ao mostrar que cada tipo de uso e de relação com a droga demandará também ações diferentes. Cabe lembrar que a abordagem diferenciada entre usuários e traficantes também foi adotada, posteriormente, pela nova lei de drogas, instituída em 2006.

A Política Nacional sobre Drogas prevê ainda, entre suas diretrizes, garantir capacitação continuada sobre a prevenção do uso indevido de drogas lícitas e ilícitas para diversos segmentos, entre eles: educadores, profissionais de saúde, lideranças religiosas, lideranças comunitárias e conselheiros municipais. Entende-se que diversos atores sociais

devem ter direito ao acesso a informações qualificadas sobre drogas, ficando assim, preparados para abordar o tema de forma adequada em seu cotidiano profissional ou em sua atuação na comunidade.

Além disso, como a Política Nacional prevê ações específicas para populações vulneráveis, entre elas, crianças e adolescentes, as ações voltadas para o contexto escolar tornam-se muito importantes, pois há a necessidade de levar em conta as características específicas de cada grupo, fortalecendo os fatores de proteção e minimizando os fatores de risco.

A temática do uso de álcool e outras drogas também deve fazer parte das ações educativas no contexto da escola, através da implantação e melhoria de programas, ações e atividades preventivas, sempre levando em conta os indicadores de qualidade de vida e a necessidade de integração ao projeto pedagógico, com o acompanhamento do adolescente de forma mais ampla e integral.

1.2.2 – Marcos legais - a Lei de Drogas (lei nº 11.343/2006) e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)

Além dos marcos institucionais propostos pelas novas Políticas de drogas e de atenção aos usuários e dependentes, os quais serão abordados posteriormente, cabe destacar um outro marco legal importante, instituído em 2006: a nova lei de drogas nº 11.343. É importante lembrar que as políticas setoriais que antecederam a nova lei – como a política de drogas e a de saúde mental - trouxeram princípios orientadores. Porém, a lei nº 11.343 institui obrigatoriedade no cumprimento de regras. Essa lei definiu uma abordagem diferenciada para o consumidor de drogas ilícitas em relação ao traficante. Após cinco anos de vigência, esta mudança de paradigma se encontra ainda em construção no nosso imaginário social, pois ainda não é bem compreendida por alguns segmentos sociais.

É importante destacar que a nova lei veio suplantar, de uma forma considerada realista e pragmática, a legislação anterior, que tinha 30 anos de existência e estava desatualizada e desvinculada dos avanços científicos e das transformações sociais. Assim, a nova legislação revogou a lei 6.368/76 e a lei 10.409/02, que eram os dispositivos anteriores que regulavam as medidas de prevenção, tratamento, fiscalização, controle e repressão à produção, ao uso e

tráfico ilícito de produtos, substâncias ou drogas ilícitas que causam dependência física ou psíquica (Duarte & Dalbosco, 2010).

O maior destaque da nova lei foi a diferenciação entre usuário ou dependente e

traficante, que passaram a ocupar capítulos diferentes da lei. Para os usuários e dependentes,

foi adotada a prescrição de medidas para a prevenção do uso indevido, além da atenção e a sua reinserção social. O objetivo maior com a nova lei é a ressocialização por meio do cumprimento de penas alternativas, que incluem: admoestação verbal; prestação de serviços à comunidade; medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo. Dessa forma, apesar do uso de drogas ilícitas continuar sendo crime no Brasil, o usuário não está mais sujeito a penas que envolvam a restrição da liberdade, o que traz maior visibilidade ao problema de saúde pública que está envolvido neste comportamento.

Em artigo que versa sobre a visão de Operadores do Direito em relação à nova lei, Santoucy, Conceição e Sudbrack (2010), destacam posições que transitam entre a patologização e a criminalização do usuário e revelam a dificuldade destas definições por parte dos juízes, promotores e dos próprios serviços psicossociais. Os juristas aparecem divididos em três posicionamentos: os que entendem que se trata de crime; os que entendem que se trata de uma infração penal sui generis; e aqueles que entendem que o fato não é crime, mas uma questão de saúde pública. Estas posições ambíguas em relação ao usuário geram um impacto sobre o tratamento e os direitos básicos destas pessoas, com orientações antagônicas que oscilam entre a saúde e a perspectiva repressiva. Entendemos que os desafios ainda são grandes, o que é corroborado pelo resultado da pesquisa, que evidencia a visão de que “a lei não está mudando a cabeça dos operadores de direito” (p. 181). Pelo menos por enquanto.

Assim, apesar de ser considerada uma lei avançada no âmbito da sociedade brasileira, existem diversos autores que fazem uma crítica contumaz a este pretenso “vanguardismo”. Um exemplo é Karam (2008), que avalia a lei de drogas como nova apenas “no tempo”, pois não traz nenhuma alteração substancial no enfoque penal, já que, ainda segue as diretrizes das convenções internacionais proibicionistas das quais o Brasil é signatário. Para essa autora, ao manter a criminalização da posse de drogas para uso pessoal, a nova lei repete violações aos princípios e normas consagrados nas declarações universais de direitos e nas constituições democráticas, que asseguram a liberdade individual e o respeito à vida privada. (p. 116). Além disso, alerta para a ânsia repressora trazida pela lei e o desmedido rigor penal

ocasionado pela negação da possibilidade de graça e anistia aos traficantes, o que viola o princípio da isonomia2 e da individualização da pena.

Entendemos que existe um longo caminho a ser percorrido nesta discussão entre as políticas proibicionistas e as políticas voltadas à legalização de determinadas substâncias. Esta complexidade está longe de ser superada. Por ora, acreditamos que é preciso valorizar a visibilidade que a nova lei trouxe na abordagem de usuários e dependentes, apesar de reconhecermos que, em determinados contextos, fica difícil traçar uma linha divisória exata entre a figura do consumidor e do traficante. Em nossa visão, a nova lei é um primeiro passo rumo à consolidação de um enfoque mais realista sobre o tema das drogas, mas julgamos não ser possível, ainda, eleger como solução uma mudança paradigmática rumo a políticas e legislações antiproibicionistas. Em nosso país, existem muitos problemas estruturais complexos, que estão para além da violência engendrada pelo tráfico de drogas e envolvem inúmeros outros fatores de risco e vulnerabilidade.

A atual lei de drogas também instituiu o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas - SISNAD, que engloba entidades governamentais federais, estaduais e municipais, entidades não governamentais, sociedade civil, conselhos estaduais e municipais sobre drogas. Assim, por meio do SISNAD, todos estes entes têm a sua parcela de responsabilidade na implementação das ações propostas para a área de drogas.

No tocante à abordagem do tema drogas em relação a crianças e adolescentes, nosso marco legal é o Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA3. Segundo Conceição e Oliveira (2010), a mobilização da sociedade civil para atuação específica na garantia de direitos de crianças e adolescentes foi consolidada na constituição de 1988. Posteriormente, o ECA veio solidificar esta posição e propor a regulamentação do Sistema de Garantia de Direitos, passando a conceber as crianças e adolescentes como seres humanos em desenvolvimento, dignos de proteção especial em todas as suas dimensões: física, intelectual, emocional, moral, espiritual e social. No estatuto, estão previstas medidas protetivas em relação ao uso de substâncias psicoativas, a regulamentação da proibição da venda de drogas lícitas para menores de idade, e também a previsão do cumprimento de medidas socioeducativas

2 O princípio da isonomia está consagrado no art. 5º, caput, da Constituição Federal ao dizer que “todos são

iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza” (Constituição, 1988, p. 15).

decorrentes de atos infracionais praticados, que possam estar relacionados ao envolvimento com o tráfico de drogas ilícitas.

1.3 - POLÍTICAS SETORIAIS RELACIONADAS AO USO DE ÁLCOOL

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