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DE CORRELAÇÃO DE SPEARMAN A PARTIR DO SPSS

2 O "SOCIAL GAP" COMO ORIGEM DE PROBLEMÁTICAS ENVOLVENDO ENERGIA EÓLICA

2.3 Abordagem institucional

2.3.1 Políticas para estabilidade do mercado

O domínio da política para a estabilidade representa o mais diversificado dos campos institucionais, pois incorpora a própria política energética, políticas ambientais e de planejamento do território. De acordo com Breukers e Wolsink (2007), na política energética podem ser incluídos aspectos da política industrial e tecnológica, como a promoção de programas de P&D e os incentivos a taxas de energia. Nas políticas ambientais e territoriais, aspectos como legislação ambiental relacionados à energia eólica e planejamento local são representativos, como os Estudos Ambientais necessários ao licenciamento de projetos.

A questão política (a colaboração ou mesmo os impedimentos) é um dos fatores que pode explicar a ainda baixa cobertura de energias renováveis no mundo atualmente, mesmo diante de tantas projeções otimistas, e até certo ponto irrealistas (SOVACOOL, 2009). Políticas de base podem definir o avanço de projetos eólicos, como ocorreu com as primeiras iniciativas na Alemanha que incentivaram programas de pesquisa e desenvolvimento que resultaram em conhecimento para os centros acadêmicos e empresas e permitiram o desenvolvimento tecnológico em energia eólica, incorporando desde uma escala residencial até grandes projetos (BREUKERS, WOLSINK, 2007).

No Brasil, o racionamento de energia, também denominado "apagão", em 2001, foi decisivo para as iniciativas políticas em energia eólica. Até essa ocasião, a política de autorregulação do mercado e as privatizações se sobressaíam ao investimento no setor elétrico, planejamento e formulação de políticas energéticas, promovendo problemas de abastecimento no país (BARROSO NETO, 2012). Como solução para a crise energética foram idealizados projetos com base em termelétricas e expansão da energia eólica por meio

do Pró-eólica (BARROSO NETO, 2012), além de hidrelétricas de grande porte, especialmente na região amazônica.

A Resolução n. 24 de 5 de julho de 2001 que estabeleceu o Programa Emergencial de Energia Eólica (PROEÓLICA), criado imediatamente após o contexto de crise energética em 2001, representou uma corrida para viabilizar a geração de energia elétrica a partir de fonte eólica, a partir da implantação de 1.050 MW de energia até dezembro de 2003 (BRASIL, 2001). Na ocasião, o programa não obteve sucesso em virtude de dificuldades regulatórias e financeiras (BARROSO NETO, 2012). A partir da mudança do governo brasileiro em 2002, verificou-se maior controle sob o mercado e uma função social da energia (BARROSO NETO, 2012).

Contudo, considera-se que o programa de base para energia renovável do Brasil está distante das iniciativas mais democráticas como da Alemanha, tendo em vista a dimensão dos projetos, público alvo e o próprio envolvimento local durante o planejamento.

O projeto brasileiro destina-se a Produtores Independentes Autônomos, não mencionando indivíduos ou instituições locais ou nacionais. O próprio modelo de seleção por meio de leilões, regulado pela lei nº 10.848 de 2004 e implementado pela Agência Nacional de Energia Elétrica- ANEEL (BRASIL, 2004), estimula a concorrência entre as empresas, ou seja, produtores com melhor tecnologia e custos garantem mais vantagens na disputa. Processo semelhante foi observado no desenvolvimento eólico na Inglaterra (BREUKERS, WOLSINK, 2007).

Importante aspecto político da energia refere-se ao estimulo à pesquisa e ao desenvolvimento tecnológico, que contribuem para a entrada, manutenção e progresso da indústria eólica. Nesse sentido, a política de energia do Brasil estabelece às empresas selecionadas uma taxa de, no mínimo, 60% de nacionalização dos equipamentos e serviços na primeira etapa do PROINFA e 90% na segunda etapa (BRASIL, 2002), estimulando a expansão da tecnologia eólio-elétrica no país. A pesquisa é resultado de iniciativas federais e estaduais objetivando reunir informações confiáveis e fundamentais para atrair o interesse privado. Os Atlas de Potencial Eólico nacional e estaduais são resultado da busca e exposição da informação.

O Atlas do Potencial Eólico Brasileiro (2001) e os de nível estadual, como o Atlas Eólico do Ceará (2001), Atlas eólico do Rio Grande do Norte (2003), Atlas Eólico da Bahia (2002), Atlas eólico do Rio Grande do Sul (2002), demonstram o interesse político para informar e expandir a comunicação do potencial e interesses nacionais para a indústria de

energia renovável. A Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica) e eventos, como o "Brazil Wind Power", também surgem para promover a informação.

De acordo com Savacool e Ratan (2012), a promoção à visibilidade para energia renovável pelos líderes políticos e mecanismos de informação e feedback são aspectos fundamentais para promover a energia renovável e sua aceitação, seja para o mercado, seja para a população em nível nacional. Nesse sentido, os atlas do potencial eólico, que demonstram um conjunto de características geográfica e as áreas mais propícias para o aproveitamento da energia eólica, podem ser um exemplo de ação governamental para alcançar, principalmente, uma aceitação do mercado de energia eólica.

Porém, segundo Gorayeb e Brannstrom (2016) destacam, não há no Brasil políticas consistentes que proporcionem recursos financeiros, qualificação de mão de obra e invista em fixação e avanço tecnológico nas áreas onde os parques eólicos são instalados.

As cotas de energia também destacam-se na política energética nacional brasileira. De acordo com o PROINFA, estipulou-se alcançar 3300 MW de capacidade de energia com os contratos da primeira etapa do programa e previu-se para a segunda etapa que 10% do consumo anual fosse atendido por fonte eólica, PCH e biomassa estabelecendo, para isso, um prazo de 20 anos (BRASIL, 2002). De acordo com o balanço energético nacional, o Brasil possui 14% de sua energia elétrica fornecida por biomassa e eólica (EPE, 2017), destacando- se que a energia eólica saltou de 0,2% de participação em 2009 (EPE, 2009) para 6% em 2017, um crescimento de 5,8% na oferta interna da fonte eólica em oito anos (EPE, 2017).

Ao contrário do Brasil, nos Estados Unidos, o sistema de cotas de energia foi uma iniciativa estadual para estimular o uso de energia renovável por empresas de distribuição de energia elétrica, referindo-se, especificamente, às cotas mínimas obrigatórias ("Renewable Energy Standard"- RES) estabelecidas de forma autônoma pelos estados interessados. Na Inglaterra, a política de cota de 2002 ("Renewables Obligations"), exigia a compra de uma parcela de renovável por fornecedores, mas possibilitava a livre negociação de energia, beneficiando principalmente grandes fornecedores que possuíam maior influência nas políticas de energia.

Esse panorama revela as diferentes nuances da política de energia, visto que na Inglaterra o menor controle do Estado pode favorecer o desenvolvimento da energia, mas dificultar a concorrência. Por outro lado, no Brasil, a política de cotas é nacionalizada e controlada por uma instituição estatal (ANEEL) e, nos EUA, os sistemas de taxas e subsídios estabelecidos pelos estados americanos caracterizaram-se como importante avanço da energia renovável. Contudo, a falta de um padrão geral para as normas, no qual investidores e

empresas se adaptam a diversas e diferenciadas necessidades e exigências de cada estado, representa uma instabilidade para o setor de geração (SAVACOOL, 2009).

É necessário destacar que o Brasil, há muito tempo, é considerado como uma matriz limpa, baseada em fontes hidroelétricas, assim, a energia eólica manteve sua expansão com objetivo de garantir a regularidade da oferta e a continuidade do desenvolvimento econômico, permitindo que o panorama elétrico nacional compreenda, atualmente, 81,7% de fontes renováveis, como hídrica, eólica, solar e biomassa (ENEEL, 2017).

O potencial e o avanço da energia limpa no Brasil, porém, não reflete totalmente a capacidade de instituições nacionais de lidar com a implementação, por exemplo, de políticas ambientais e territoriais relacionadas à energia, até mesmo no caso das hidrelétricas. No Brasil, empreendimentos de geração de energia elétrica a partir de fonte eólica em superfície terrestre são avaliados por órgão público ambiental em um procedimento administrativo de licenciamento ambiental seguindo as normas da Resolução CONAMA n. 462, de julho de 2014.

Durante o licenciamento, são verificadas falta de participação da população local em audiências públicas e ausência de uma avaliação governamental coerente e comprometida dos Estudos de Impacto Ambiental desenvolvidos pelas empresas de consultorias (GORAYEB, BRANNSTROM, 2016). Isso reflete uma política comprometida com aprovação de projetos "a qualquer custo", para favorecer as metas nacionais e, por vezes, interesses de terceiros, mas também demonstra a falta uma de capacidade institucional destacada por Breukers e Wolsink (2007). Os autores estabelecem que as instituições que gerenciam o processo de tomada de decisão em diferentes níveis, devem envolver as partes interessadas e garantir acesso às fontes de informações, mas ressaltam que a relação instituição- política é capaz de beneficiar um grupo em detrimento de outro, o que os autores chamaram de "mobilização enviesada" ("mobilisation of bias").

Para Wustenhagen, Wolsink e Burer (2007), às instituições nacionais cabem responsabilidades quanto à garantia de uma tomada de decisão colaborativa e justa. Determinar a forma de planejamento é função dos administradores (níveis nacional, estadual e municipal), por isso sugerem a institucionalização da participação de base, comunitária. A aplicação de modelos tecnocráticos, verticalizados de planejamento, no qual o poder de decisão torna-se competência dos planejadores estatais, asseguram que os processos de implantação ocorram, mas não garantem boas condições para a aceitação das comunidades.