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Teceremos, neste tópico, algumas considerações a respeito do termo polidez linguística, visto que o nosso primeiro objetivo específico é “ identificar como o desvio do tópico discursivo pode se configurar como estratégia argumentativa de proteção de face dos participantes do debate”. Faremos abordagens, segundo os estudos de Brown e Levinson5 (1978) e Paiva (2008), importantes para compreender o termo proteção de face.

Conforme Brown e Levinson (1978 apud PAIVA, 2008) a polidez linguística é um sistema complexo de estratégias que coopera para o distanciamento de atos ameaçadores de face, ou seja, produtores potenciais de conflito na interação. Esses teóricos demonstram que, durante a interação, são postos em evidência vários atos verbais e não-verbais que

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Estamos fazendo as citações indiretas da obra de BROWN, P. & LEVINSON, S. Politeness: some universals in language usage. Cambrige: University Press, 1978, a partir dos estudos de Paiva (2008).

continuamente ameaçam a face. Quando uma das faces é ameaçada, temos o que eles denominam de atos de ameaça à face.

Para criar um modelo de polidez, os linguistas buscaram suporte na teoria pragmática dos atos de fala de Austin e Searle, além de uma teoria que tratasse mais profundamente do funcionamento das relações humanas, principalmente no que tange aos rituais de interação. Desse modo, Brown e Levinson (1978) assumiram a noção de face fundada por Goffman6 (1967). Com essas teorias, os estudiosos buscaram evidencias empíricas sobre como os nativos de uma língua usam a polidez para viverem em sociedade (PAIVA, 2008).

Brown e Levinson (1978 apud PAIVA, 2008) utilizaram como corpus de análise dados de conversas informais face a face em três línguas diferentes e, com essa análise, os estudiosos determinaram os universos linguísticos de polidez, isto é, estratégias de polidez linguística direcionadas às faces dos participantes das interações, com a finalidade de evitar ou diminuir possíveis conflitos interacionais.

Conforme Paiva (2008), um dos grandes conceitos que norteiam a teoria de Brown e Levinson (1978) é a noção de face, instituída por Goffman (1967). Ambos os teóricos estudaram as produções linguísticas orais em interações sociais de natureza face a face, mas, especificamente sob o ponto de vista da teoria social.

Brown e Levinson (1978 apud PAIVA, 2008) se apropriaram do conceito de face de

Goffman (1967) como uma noção abstrata, explicando como algo que o indivíduo investe emocionalmente. Assim, criaram o conceito de face positiva e negativa, pois, na interação, ela pode ser perdida, mantida ou reforçada. A face positiva refere-se ao desejo do ser humano de ser estimado, aprovado, admirado, aceito, reconhecido e valorizado pelo outro. Já a face negativa está relacionada ao desejo de uma pessoa em não sofrer imposição, de ter sua liberdade de ação desimpedida e seu território íntimo preservado. (DAHER, 2005 apud FERREIRA, 2009).

De acordo com o padrão de risco de ameaça a face do falante ou do ouvinte, o falante vai escolher uma estratégia de polidez. Se o risco é baixo, o falante pode realizar o ato diretamente, mas, se o risco é alto, o falante vai buscar uma estratégia para realizar o ato, de forma que a intenção desejada possa ser percebida pelo ouvinte apenas por meio de inferência.

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GOFFMAN, E. Interaction ritual: essays on face-to-face behavior. Garden City: Anchor Doubleday, 1967. Essa obra está presente nas discussões da pesquisa de Paiva (2008) a qual tivemos acesso.

Goffman (1967 apud PAIVA, 2008, p. 26) considera a interação social como uma espécie de ritual. Para ela, o termo ritual significa uma negociação “de atos através de componentes simbólicos, cujo ator mostra o quão digno ele é de respeito ou quão dignos ele sente que os outros são disso”. A respeito do ritual de conversação, pode-se dizer que ele é formado por fases tais como: as fases de iniciação, manutenção e fechamento da interação. Essas fases estão sujeitas aos movimentos de aproximação e distanciamento entre os interlocutores, que podem sofrer ações que prejudicam a estabilidade da interação, como os atos ameaçadores de faces.

Os pesquisadores Brown e Levinson (1978 apud PAIVA, 2008) consideram um ato ameaçador de face como uma verbalização de uma ação, ideia, juízo ou sentimento sobre algo ou alguém que possa ameaçar, desconsertar a face de alguém. Durante seus estudos, Goffman (1967 apud Paiva, 2008) percebeu que normalmente, ao realizar um ato ameaçador de faces, o falante pode assumir uma responsabilidade que implicará na imagem deste no decorrer da interação. Desse modo, seus atos podem constituir em:

1. Ofensas inocentes: O falante pode parecer ter agido inocentemente, sua ofensa parece não ter intenção, mas também não constituem um tipo de brincadeira. Contudo, ele deveria prever as consequências ofensivas. São exemplos: gafes e erros que causam algum tipo de constrangimento tanto do falante quanto do ouvinte.

2. Ofensas maliciosas: Nesse caso, a ofensa ao ouvinte pode parecer ter sido feita

maliciosamente e com o intuito de desaprovação, provocando insultos abertamente, tal como

uma crítica.

3. Ofensas incidentais: Para o pesquisador, são ofensas incidentais aquelas que surgem de um modo não planejado, mas, às vezes, são geradas antecipadamente pelo produto da ação - ação de ofender quando não se quer gerar consequências ofensivas, embora não se queira machucar (PAIVA, 2008, p. 27).

Assim, a capacidade de preservação ou proteção de face é considerada por Goffman (1967 apud PAIVA, 2008) uma habilidade social. Isso nos faz compreender que, no momento da interação, é preciso atentar para a proteção da nossa própria face e a face do outro. Para isso, o falante deve manter sua conduta a partir do que pensa ser mais apropriado ao contexto comunicacional. Podemos considerar como proteção de face as ações desenvolvidas com o objetivo de conter ou evitar incidentes, ou eventos que ameaçam a face daqueles que estão introduzidos na interação.

Conforme esse teórico, o trabalho de proteção de faces pode ser realizado com diversos objetivos comunicativos, no entanto, deve buscar uma adequação a situação

comunicativa e, nesse caso, é fundamental que exista uma espécie de cooperação no trabalho de faces, em que o falante e o ouvinte possam agir de modo a possibilitar com que todos se ajudem, tanto no processo de defender sua própria face como a face do outro.

Para evitar que as faces dos participantes possam ser perdidas devido aos atos

ameaçadores de face, Goffman (1967 apud PAIVA, 2008) identificou três tipos de

movimentos que têm por finalidade a preservação ou a manutenção da face. São eles:

O processo de distanciamento: O processo de distanciamento se inicia com a finalidade de prevenir ameaças às faces. Podemos considerar alguns tipos de prática de distanciamento que são: medidas defensivas, tais como evitar certos tópicos; ou mudar de tópicos; fazer brincadeiras; não ser direto. Goffman também considera a polidez como uma forma de distanciamento, na medida em que a pessoa tende a amenizar o teor ameaçador de certos tópicos, tratando os outros com um respeito que gostaria que fosse dado a si mesmo.

O processo corretivo: Esse se inicia a partir do momento em que ocorre efetivamente um ato ameaçador de face. Trata-se de uma tentativa de corrigir uma falha com a finalidade de restabelecer o equilíbrio na interação. O processo corretivo pode ser estabelecido por aquele que realizou o ato de ameaça à face, ou pelo ameaçado.

A intermudança: A intermudança ou interchange como uma sequência de atos que se movimentam, como em um jogo, de acordo com os insultos que ameaçam a face, finalizando em um restabelecimento do equilíbrio no ritual (PAIVA, 2008, p. 30).

Nesses três tipos de movimentos, podemos observar que existem manifestações de polidez, visto que os interlocutores pretendem diminuir os conflitos, à medida que buscam o respeito entre um e outro no transcorrer da interação, a fim de manter um equilíbrio na interação. Assim, veremos no capítulo cinco da análise como o desvio do tópico discursivo se apresenta nos argumentos dos debatedores como estratégia de proteção da sua própria face, mas antes abordaremos no próximo capítulo sobre oralidade e gêneros orais.

3 ORALIDADE E GÊNEROS ORAIS: PERSPECTIVAS PARA O ENSINO DE