por intermédio das dimensões pedagógicas dos processos sociais aos quais se articulam políticas e práticas educativas de caráter privado, populistas e fragmentadas, que expressam as estratégias de disciplinamento necessárias ao novo regime de acumulação, para o que a nova epistemologia da prática fornece os fundamentos. (KUENZER, 2006, p.906-907).
Os Programas de Pós-Graduação em Educação, em sua maioria, têm pouco contribuído para a formação de intelectuais críticos, especialmente, de acordo com Duarte (2006a, p.99), pela “difusão da ideologia pós-moderna, com toda a sua carga de ceticismo, de irracionalismo e de fragmentação da realidade social, da ação política, do pensamento e do próprio sujeito.”
A disseminação das teorias como a de Bell, Gorz, Offe, Lojkine, Castells e De Masi, revela o quanto é necessário um constructo teórico-ideológico para a legitimação do capital na sua fase atual, nos mais diversos campos – economia, política, educação. Apesar do
propalado fim da ideologia36, o que se observa é a imperiosa
necessidade de sua afirmação. Mészáros apresenta uma concepção de ideologia nos seguintes termos:
Na verdade, a ideologia não é ilusão nem superstição religiosa de indivíduos mal- orientados, mas uma forma específica de consciência social, materialmente ancorada e sustentada. Como tal, não pode ser superada nas
sociedades de classe. Sua persistência se deve ao
fato de ela ser constituída objetivamente (e constantemente reconstituída) como consciência
prática inevitável das sociedades de classe,
relacionada com a articulação de conjuntos de valores e estratégias rivais que tentam controlar o metabolismo social em todos os seus principais aspectos. Os interesses sociais que se desenvolvem ao longo da história e se
36 A obra de Daniel Bell (1980) O fim da ideologia é em si uma ideologia. “Significa a adoção de uma perspectiva não-conflituosa dos desenvolvimentos sociais contemporâneos e futuros [...] ou a tentativa de transformar os conflitos reais dos embates ideológicos na ilusão das práticas intelectuais desorientadoras, que imaginariamente ‘dissolvem’ as questões em discussão mediante alguma pretensa ‘descoberta teórica’ ” (MÉSZÁROS, 2004, p.109).
entrelaçam conflituosamente manifestam-se, no
plano da consciência social, na grande diversidade de discursos ideológicos relativamente autônomos (mas, é claro, de modo algum independentes), que exercem forte influência sobre os processos materiais mais tangíveis do metabolismo social. (MÉSZÁROS, 2004, p.65, grifo do autor).
Sendo assim, as determinações estruturais de uma dada ordem social proporcionam diferentes pontos de vista aos sujeitos sociais rivais, conforme suas posições no controle social. “Sem se reconhecer a determinação das ideologias pela época como a consciência social
prática das sociedades de classe, a estrutura interna permanece
completamente ininteligível” (MÉSZÁROS, 2004, p.67, grifo do autor). Partindo dessa análise, Mészáros (2004, p.67-68) aponta três posições ideológicas distintas: a primeira apóia a ordem estabelecida de maneira acrítica; a segunda critica as irracionalidades da sociedade de classes, mas apresenta contradições pela sua própria posição social; a terceira questiona a viabilidade da sociedade de classes, propondo uma intervenção prática consciente para a superação dos antagonismos de classe.
A análise empreendida nesse capítulo demonstra uma conjunção de elementos que buscam caracterizar a sociedade contemporânea a partir de uma visão dominante pelo fato de naturalizarem as mudanças ocorridas. De Masi (2000, p.75) representa bem essa perspectiva ao afirmar: “ora, nós, que estamos no meio de uma mudança de época, chamamos a nossa cultura de ‘pós-moderna’ porque vem depois da ‘moderna’. Do mesmo modo que a sociedade ‘pós- industrial’ vem depois da sociedade ‘industrial’.” Seu principal argumento é de que:
[...] não é a realidade que está em crise e sim nosso modo de compreendê-la e de avaliá-la: como as categorias mentais assimiladas da época industrial não podem mais nos explicar o que está acontecendo, somos induzidos a desconfiar do que está acontecendo e a perceber o advento do futuro como crise do presente. Na realidade, a sensação de crise é uma crise de modelos interpretativos, é uma resistência às mudanças causada pelo fosso cultural, fazendo com que
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nossas atitudes e nossos comportamentos derivem de categorias sedimentadas no decorrer dos séculos rurais e industriais, profundamente arraigadas em nossa personalidade e dificilmente substituíveis a curto prazo. (DE MASI, 2003, p.30).
Nenhuma crise ideológica é apenas ideológica, pois ela é a consciência prática das sociedades de classe; a solução dos problemas ideológicos só é possível pela identificação de sua dimensão prática, material e cultural (MÉSZÁROS, 2004). A separação da crise dos modelos interpretativos da crise econômica é uma forma de desvincular as teorias contemporâneas do seu contexto histórico e de suas intencionalidades políticas. “[...] a alienação contemporânea predominante é uma relação material, antes de ser ideológico-subjetiva, de exploração do trabalho pelo capital” (LESSA, 2005, p.62).
Por isso, reitero a conclusão de Kumar (2006, p.160-161):
A sociedade pós-moderna é, portanto, bem congruente, se não idêntica à sociedade pós- fordista, à sociedade de informação e ao capitalismo “tardio” ou “desorganizado” encontrado em algumas teorias. Embora muitos desses teóricos nada queiram com conceitos de pós-modernidade, eles provavelmente não achariam muito a que objetar na descrição até agora esboçada. O que torna o pós-modernismo tão diferente como enfoque é que ele transcende esses aspectos conhecidos para fazer alegações abrangentes e, para muitas pessoas, chocantes, sobre a própria natureza da sociedade e da realidade objetiva. Faz afirmações não só sobre a nova sociedade ou a realidade social, mas sobre nossa maneira de compreender a própria realidade. Passa da história e da sociologia para questões filosóficas sobre verdade e conhecimento.
Para apreender melhor a agenda pós-moderna é necessário entender que “o marco inaugural da modernidade está representado pelo Iluminismo, que calcou o seu projeto na idéia de que a razão é o instrumento indispensável para a autodeterminação do homem”
(EVANGELISTA, 2002, p.23). É, portanto, com o uso da razão, que o homem pode se emancipar.
Zaidan Filho (1989, p.15) afirma que “é preciso admitir, no entanto, que as virtualidades contidas no projeto da razão iluminista não foram desenvolvidas igualmente.” As potencialidades emancipatórias da modernidade foram inibidas, especialmente pela influência positivista, que não se comprometeu com o projeto de transformação social. Tal influência buscou legitimar a ordem e o consenso em torno do projeto de sociedade capitalista em detrimento do projeto socialista que buscava uma ruptura radical para a superação dos problemas sociais emergentes. O problema que se coloca é, segundo Evangelista (2002, p.24),
[...] que a crítica da modernidade foi dirigida ao conjunto de sua racionalidade, numa cruzada contra a razão em geral, dando forte impulso a uma nova onda irracionalista. Então, os principais temas da racionalidade moderna – ciência, verdade, progresso, revolução, felicidade etc. – darão lugar à valorização do fragmentário, do microscópico, do singular, do efêmero, do imaginário, dentre outros.
Advoga-se a necessidade de novas metodologias, novos paradigmas, pois os velhos esquemas interpretativos não possibilitariam captar o cotidiano não-estruturado, heterogêneo e pluralista dos processos sociais. Daí explica-se a “colossal onda irracionalista” deflagrada, sobretudo, pela “desreferencialização do real”, pela “dessubstancialização do sujeito” e pelo “descentramento da política”.
A desreferencialização do real significa que este não é mais norteado por referências estáveis, pois a realidade é manipulada pela mídia que a reduz ao simulacro, à simulação, ocupando o lugar da realidade objetiva.
Ora, a partir daí não temos mais nenhuma relação com a outrora chamada “realidade objetiva”, mas sim com uma representação simbólica (simulada) da realidade. Dessa forma, as determinações
ontológicas (do ser) sobre o conhecimento
desaparecem, perdem o sentido. Não há real e muito menos um “sentido” nesse real. Há somente o simulacro, a imagem, a representação
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(imaginária) dessa realidade. Esta é a única realidade. (ZAIDAN FILHO, 1989, p.21, grifo do autor).
A dessubstancialização do sujeito é um aspecto da agenda pós- moderna que reduz o sujeito a sensações hedonistas na sociedade de consumo. “A absoluta fragmentação do sujeito – esfacelado pelas múltiplas e diferentes imagens produzidas pela indústria cultural – redefiniria a perspectiva totalizante e racional do olhar da historiografia moderna [...]” (ZAIDAN FILHO, 1989, p.22).
A política, nesse contexto, volta-se para a miríade de questões particularistas já que o poder é difuso e sua microfísica acaba por suplantar a idéia de um poder central, totalizante (FOUCAULT, 1979).
O enfoque pós-modernista, por atingir um amplo contingente de questões, não pode ser desconsiderado nas discussões sobre educação, uma vez que as teorias elaboradas a partir dessa lógica interferem decisivamente nas políticas educacionais. Por ser uma visão extremamente abrangente do mundo, ela absorve muitas características das teorias já analisadas, bem como das recentes discussões no campo educacional.
A configuração de um novo modelo de formação de professores é basilar no contexto da reforma educacional brasileira empreendida a partir da década de 1990, pois serão os professores que trabalharão com todos os níveis e modalidades da educação e que contribuirão para a formação de uma subjetividade que poderá reproduzir ou romper a estrutura social atual. Portanto, a análise dos pressupostos que fundamentam tal formação é o foco central do presente estudo.
A exposição realizada até aqui demonstra uma clara articulação entre capital, trabalho, Estado e educação, todavia, o aprofundamento da análise das mediações entre eles requer uma abordagem dos fundamentos da agenda pós-moderna como a ideologia apologética do capital que tem servido de fundamento para a definição das políticas educacionais. Dessa maneira, no capítulo seguinte, analisarei os fundamentos que compõem a agenda pós-moderna e a contribuição de autores do campo da educação, a fim de que seja possível analisar suas implicações no contexto educacional, especificamente nas políticas de formação de professores.
Qualquer proposta de transformação social requer um período de transição. Entretanto, entre o que é possível e sua concretização há uma grande lacuna, que precisa ser preenchida por novas mediações, que forjarão a objetivação de uma nova realidade. Tais mediações não
são espontâneas, naturais, elas emergem das ações humanas, que tanto podem superar o real quanto reproduzir o já existente. Neste contexto, “[...] a tarefa educacional é, simultaneamente, a tarefa de uma transformação social, ampla e emancipadora” (MÉSZÁROS, 2005, p.76). Nenhuma transformação social radical é concebível sem a contribuição da educação; há que se pensar em ações imediatas, articuladas às estruturas estratégicas mais amplas.
As teorias que afirmam que as sociedades seriam agora pós- fordistas, pós-industriais, pós-mercantis, do conhecimento e articuladas em rede, demonstram a naturalização das mudanças que se desenvolveram com mais intensidade a partir da década de 1970. A estratégia de naturalização busca encontrar uma maneira de conferir legitimidade aos modos de organização social, atenuando, no plano ideológico, as contradições que emergem da crise estrutural do capital e que ameaçam a verdadeira sobrevivência da humanidade.
Nesse capítulo, procurei evidenciar que a configuração do neoliberalismo, da reestruturação produtiva e de um conjunto de novas teorias emergem de um processo de crise estrutural do capital, que necessita de múltiplas estratégias para a garantia da hegemonia do modo de produção capitalista. Os referenciais econômicos, históricos, políticos, culturais e sociais construídos no contexto da modernidade são questionados, a fim de que seja possível a constituição de novos parâmetros que garantam legitimidade às mudanças em curso.
A educação é tomada como um dos sustentáculos imprescindíveis para o delineamento de uma nova subjetividade humana que melhor se adapte à sociedade atual e que, ao mesmo tempo, contribua na consolidação das mudanças necessárias à reprodução e acumulação ampliada do capital na sua fase atual. A agenda pós- moderna é composta de um conjunto de tendências teóricas e políticas que acabam sustentando, ideologicamente, a estruturação da sociedade contemporânea. Assim, a análise dos pressupostos teóricos da agenda pós-moderna é importante, dada sua influência na educação e suas implicações na prática social como um todo.