3 JORNAL ESCOLAR: ORIGEM E USO PEDAGÓGICO
3.3 A relevância do jornal escolar no ensino e aprendizagem da língua materna
3.4.3 Ponte entre a escola, a comunidade e os pais
Outro aspecto positivo do jornal escolar, segundo Freinet (1974), que apontamos aqui como a terceira vantagem, é a possibilidade desse suporte midiático ser uma ponte entre a escola, a comunidade e os pais. O autor defende que,
Mesmo se não virmos a necessidade, por enquanto, de uma exploração pedagógica do jornal escolar, temos necessidade, no nosso bairro ou na nossa aldeia, de um boletim de intercomunicação e de ligação. O jornal escolar
constitui a solução prática desejável (FREINET, 1974, p. 88).
O trabalho realizado pelos alunos, neste caso, ultrapassa os limites físicos da própria escola e passa a ser conhecido principalmente nas suas proximidades. Por outro lado, os problemas, conquistas ou atividades da comunidade podem ser denunciados ou divulgados pelo jornal. O jornal de sala de aula, sob esse olhar, é visto como um instrumento de comunicação capaz de interagir e aproximar a escola com a sua própria comunidade.
Para Freinet (1974), a ligação escola-pais se dá tecnicamente através do jornal escolar, o qual leva às famílias aspectos da própria comunidade e do ambiente educativo sob o ponto de vista das crianças. O autor ressalta que se acrescentarem algumas páginas destinadas especialmente aos pais, o jornal escolar poderá ser um jornal da comunidade, sem prejudicar as vantagens pedagógicas. Freinet ressalta também que o que os pais esperam do jornal escolar não são as notícias da região, mas a originalidade do trabalho de seus filhos. Para Baltar (2006), no jornal escolar, o que vale não é a atualidade das notícias, mas o que esses pequenos escritores têm a dizer sobre essa notícia ou sobre o tema que eles se propuseram a escrever.
3.4.4 Responsabilidade
A quarta vantagem que percebemos no jornal escolar é o incentivo à responsabilidade. Segundo Freinet (1974, p. 89), entre as conquistas mais importantes de uma boa educação está o trabalho bem feito, que sinaliza a existência “[...] de um equilíbrio feliz, de uma concentração sempre benéfica, de hábitos preciosos de medida e ordem da inserção da atividade encarada num complexo de vida e segundo uma filosofia”. O autor acredita que a imprensa na escola e o jornal escolar são “[...] o melhor treino para a atividade metódica e cuidadosa dos bons trabalhadores”, pois o texto impresso só é valorizado se este satisfizer “plenamente ao mesmo tempo a inteligência e os sentidos”.
Quando o escritor produz um texto que será dirigido a um público que vai além do seu círculo de amizade é natural que ele seja mais cuidadoso com a organização das suas ideias e com a reação que o seu leitor terá quando ler o seu texto. Freinet (1974) afirma que o jornal escolar deve ser perfeito, pois é por ele que os textos ali publicados serão julgados e todos gostam de ser julgados positivamente. Ijuim (2005, p. 91), baseando-se em Morin (1998) – quando este aborda a
questão do sujeito responsável –, afirma que no jornal escolar “[...] cada um é responsável por seus atos e palavras, mas não é responsável como seus atos e palavras serão interpretados. Em suma, cada um é 100% responsável e 100% irresponsável”. O aluno-escritor não é responsável pelas interpretações que o leitor fará do seu texto, mas é responsável pelas informações que escreveu para ser publicadas no jornal escolar, assim como qualquer outro escritor da grande mídia.
3.4.5 Autonomia
Ao estudarmos alguns autores (FREIRE, 2004; DEMO, 1998; FREINET, 1974; IJUIM, 2005), identificamos uma quinta vantagem do uso do jornal escolar: o desenvolvimento da autonomia do educando. Freire (2004, p. 96-107) enfatiza que “[...] o essencial nas relações entre educador e educando, entre autoridade e liberdades, entre pais, mães, filhos e filhas é a invenção do ser humano no aprendizado de sua autonomia”. Ou seja, a educação do indivíduo deve estar voltada para a formação de um sujeito independente. Ele acrescenta que é necessário que o filho assuma a sua decisão eticamente e responsavelmente, que é o fundamento da sua autonomia. Para Freire (2004, p. 107), “ninguém é autônomo primeiro para decidir. A autonomia vai se constituindo na experiência de várias, inúmeras decisões, que vão sendo tomadas”. Essa autonomia, na visão freireana, deve ser incentivada pelos pais, desde criança, pois ninguém adquire maturidade de repente, aos 25 anos. O amadurecimento, para o autor, pode acontecer diariamente, ou não. Freire (2004, p. 108) ressalta também que,
A autonomia, enquanto amadurecimento do ser para si, é processo, é vir a ser. Não ocorre em data marcada. É neste sentido que uma pedagogia da autonomia tem de estar centrada em experiências estimuladoras da decisão e da responsabilidade, vale dizer, em experiências respeitosas da liberdade.
Demo (1998, p. 29), por sua vez, salienta que,
O aluno precisa ser motivado a, partindo dos primeiros passos imitativos, avançar na autonomia da expressão própria. Isto não se reduz a texto, por mais importante que seja. Inclui também a capacidade de se expressar, de tomar iniciativa, de
construir espaços próprios, de fazer-se sempre presente e participativo.
O discurso destes dois autores (FREIRE, 2004; DEMO, 1998) aponta a necessidade do aluno ser “motivado” ou envolvido em “experiências estimuladoras” no sentido deste poder adquirir, paulatinamente, a sua autonomia.
O jornal escolar, segundo o método Freinet (1974), consistia no recolhimento de textos livres, realizados e impressos todos os dias e reunidos mensalmente numa encadernação especial para os assinantes e os correspondentes. Para Freinet (1974 apud Ijuim, 2005, p. 18), “[...] com essas atividades, ao despertar a espontaneidade e a livre-expressão, o professor desenvolvia em seus alunos o „potencial do pensamento‟ e o desejo de exteriorização desse pensamento”. Simultaneamente, “[...] estimulava o educando a situar-se no mundo, exprimir suas ideias, sentimentos e observações, inseridos num contexto, que permitia tornar o processo mais educativo possível [...]”, com o objetivo de aplicar essa técnica na própria vida. Ijuim (2005, p. 18), baseando-se em Freinet, afirma que a possibilidade de exteriorização e socialização do pensamento do aluno através do jornal contribui para a sua própria autonomia.
Portanto, podemos afirmar, com base nos autores citados aqui, que o jornal escolar pode ser uma experiência estimuladora para a formação de um sujeito autônomo, uma vez o jornal de sala de aula possibilita a prática da liberdade de expressão, a busca do conhecimento através de variadas fontes de pesquisas e a responsabilidade pela informação publicada no jornal, principalmente quando esse texto é assinado pelo próprio aluno-escritor, além de outras contribuições para a autonomia do indivíduo.