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ponto os brasileiros ser entendidos como

"identidades sub-nacionais subordinadas" , e "culturalmente

dominadas" (Williams, 1989:429) .

.

A complexidade de sua

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situação social � econômica, marcada por diferenciações internas, permite que apareçam com tal, vítimas de um aparelho burocrático-militar discriminatório e injusto, mas que também sejam denunciados por outras forças sociais daquele país como colonialistas e �xpansionistas.

Os chamados brasiguaios souberam explorar dos conflitos vividos em território paraguaio os elementos conformadores de suas fronteiras étnicas tanto em relação aos paraguaios quanto em relação aos demais brasileiros, dos quais anexaram, como parte integrante, o mito da homogeneidade nacional. Conforme o autor, "the s tart ing po int for understanding the rela t i ons between ethn i c i ty and nat i onal i sm ( .. . ) must be thi s mythmak ing and the -mater ial factors that mot i va te

elements." ( WILLIAMS, 1989 : 429 ) .

and rat i onal ize i ts No recorte dos estudos de etnicidade realizado, descartei aquelas formas de etnicidade que se desenvolvem a partir das chamadas situações de contato interétnico, ou o estudo de mudanças culturais, em sistemas poliétnicos ou a partir de estigmas. Ao me deter na discussão sobre o "approach" circunstancialista, fiz referências a autores cujos trabalhos consideram o Estado Nacional e suas fronteiras político-administrativas como contexto de análise. Neste novo recorte, pude indicar caminhos para a percepção da especificidade da situação dos chamados brasiguaios, buscando, outrossim, identificar o tipo e o uso de etnicidade que fez surgir este fenômeno.

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Uma das principais características da mobilização dos chamados brasiguaios que retornaram organizadamente ao Brasil, em 1985, foi a utilização de um discurso pol ítico que reafirma constantemente a nacionalidade brasileira, e reivindica os direitos que esta cidadania idealmente lhes fornece. Nas assembléias realizadas no acampamento, em Mundo Novo (MS) , eram recorrentes os hasteamentos da bandeira brasileira e o entoar coletivo do hino pátrio. Num momento pol ítico no qual os grupos camponeses envolvidos em conflito pela posse da terra encontravam-se em oposição tática ao governo brasileiro, e bandeiras ou cantos, se haviam, eram do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra ou dos hinários elaborados pela Comissão Pastoral da Terra, a ênfase nacionalista dos chamados brasiguaios poderia ser mal-compreendida como um movimento conservador ou mesmo reacionário, daquele grupo social.

Tratava-se, antes disto, da utilização de símbolos considerados tradicionais na efetivação de um ritual político ligado a relações de poder que envolviam Estados Nacionais distintos (Brasil e Paraguai) e associado à estratégias de obtenção de terras e de mobilidade social. Para Cohen,

"ethnicity

.is. .t.bu.s.

basically .a political

.a.rui .ll.Q.t

.a cultural phenomenon

and i t operates within comtemporary pol i t i cal contexts and i s not an archa i c survival arrangement car r i ed over into the present by conservative people" ( COHEN, 1969(a) : 190) (g. n. ) . Para além de reafirmar

a cidadania brasileira através de bandeiras e hinos

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nacionais, os chamados brasiguaios utili.zav.am-se de símbolos que não �ossuem representação material, como discursos � figurações orais.

Possui grande poder simbólico a repetição insistente dos componentes da ·atribuição brasiguaios no cotidiano .do acampamento de Mundo Novo. Reafirma-se em cada discurso, em cada assembléia, em cada entrevista concedida à imprensa, a condição comum de cidadãos brasileiros, agricultores, expulsos do Brasil pela mecanização da lavoura e pela concentração fundiária, estrangeiros no 'Paraguai, .onde foram explorados e sofreram violências físicas -e morais, tendo ainda sido expulsos de volta para o Brasil.

·Esta representação coletiva não é uma reprodução mecânica das diversas realidades encontradas em seus deslocamentos. Enquanto construção simbólica, seleciona alguns de seus elementos, e os integra dentro de uma ação específica, num evento político (COHEN, 1979:05) . Passa a

ter existência própria, podendo ser novamente outras ocorrências de conflito, afetando de maneiras as relações de poder.

acionada -em diferentes Indivíduos impedidos de organizar-se formalmente em território paraguaio, encontraram nesta representação elementos comuns que possibilitaram uma mobilização .sem precedentes. Sob a identidade de brasiguaios, montaram uma organização rigorosa, que lhes permitiu um poder de barganha maior. Nas constantes reuniões, assembléias, atos litúrgicos, atos cívicos, a coordenação das formulações

decisórias 1-evou a .uma .unanimidade de opiniões .sobre .a real condição daqueles que delas participavam, .sobre .:seu passado, seus direitos e suas reivindicações. A mística que se criou para o grupo serviu, desta forma, não só -para convenc·er os de fora, mas também aos próprios camponeses -envolvidos na mobi 1 i·zação.

Os rituais que organizavam o espaço e o tempo, no cotidiano do acampamento dos chamados brasiguaios, assim como a inculcação constante dos componentes da identidade,

para dentro e para fora de seus limites, podem ser entendidos como uma drama, "a limited sequence of symbolic action, def ined in space and time, wich is formally set

aside from the ordi nary flow of purpos eful s oc i al

action" (COHEN, 1979: 10 5 ) .

Ao enfatizar o caráter político da etnicidade dos chamados brasiguaios busquei evitar um certo formalismo

presente nos estudos de etnicidade, tratada como

qualitativamente o mesmo tipo de fenômeno, a despeito do

passado histórico e do contexto social (WORSLEY apud

O ' BRIEN, 1986 : 899) . Em análise sobre as dinâmicas de

segmentação étnica da força de trabalho agrícola no Sudão, neste século, O ' Brien (l986) lembra o perigo do formalismo

ahistórico em estudos que privilegiam a unidade em detrimento de interconexões. O autor critica os modelos de etnicidade que não contemplam o papel de desigualdade e das relações de poder na escolha de identidades étnicas, e .sugere que a emergência destas, nos países do chamado

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terceiro mundo , �stá iigada a processos de desenvolvimento de um capitalismo perif-érico:

" ( .. ) Ethnicity ( . . . ) has been constituted

.by the ·sarne .world historical process ·that

has ·produced ·modern capitalism, wage labor,

.and .class :structures . As historically

consti·tuted social identi ties, contemporary

-ethnicities have fundamental determinations

which are as modern and capitalist as are

those of the qiants multinational

corporations" (O ' BRIEN, 1 986 : 905)

Nestas circunstancias , a etnicidade desenvolvida pelos chamados brasiguaios seria fundamentalmente diferente de outras identidades étnicas que porventura houvessem

-emergido no passado , na região de fronteira por onde transitam , e de princípios étnicos articulados em outros lugares , sob diferentes condições sociais.

Os chamados brasiguaios construíram sua identidade a partír de relações de poder específicas , vividas num tempo e num espaço marcados por conflitos territoriais e sociais. Dados históricos sobre a consolidação da fronteira político­ administrativa que separa Brasil de Paraguai , obtidos em relatos e análises de viajantes , militares , governantes , geógrafos e historiadores , apontam para uma tradição de

lutas e batalhas , envolvendo não apenas os Estados Nacionais, mas também as populações locais e grandes empresas comerciais que tentavam expulsá-las ou imobilizar sua força de trabalho. Demonstram um cruzamento incessante

de atividades econômicas, e de disputas políticas e

territoriais , naquela região de fronteira. O espaço geográfico artificialmente dividido pelas administrações

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nacionais, apresenta-se como um .só espaço social, por onde

se .interseccionam relações de poder que ,envolvem camponeses

brasileiros e paraguaios, companhias argentinas de

exploração de erva-mate e madeira, ,empresas colonizadoras ·e

grandes proprietários de terra.

Diversamente, a atuação dos .aparelhos de poder do Brasil e do Paraguai tem sido no sentido de ressaltar constantemente a existência da dita fronteira, e de

controlar, direcionar ou impedir os deslocamentos

populacionais sobre a mesma.

·cA-P.Í TULO I I