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CAPÍTULO II: METODOLOGIA

2.4. Definição de termos

2.4.1. Procedimentos de dedilhados de mão esquerda

2.4.1.5. Ponto de apoio

Ponto de apoio na mão esquerda é o uso sistemático da pressão exercida pelos dedos. O violonista, ao executar determinado trecho, escolhe o dedo que servirá de apoio para que os demais se movimentem com maior flexibilidade. Dessa forma, o dedo apoiado recebe maior pressão que os demais. Para um melhor entendimento do conceito de apoio de mão esquerda, partiremos da noção de “relação de pinça”. De acordo com Ulloa (2004, p. 5): “Devido à relação exercida entre o dedo polegar da mão esquerda e dos demais dedos (1-2-3-4), „relação de pinça‟, existe a tendência, dentre os violonistas, de apertar constantemente as cordas contra o braço do violão.”

A relação de pinça, à qual se refere Ulloa, seria, portanto, o procedimento realizado pelo polegar de mão esquerda, exercendo uma pressão no braço do violão, e pelos demais dedos da mão esquerda, exercendo por sua vez uma pressão contrária. No entanto, como sugere o autor citado, o uso inadequado da pressão nas cordas gera desconforto ao executante. Assim, o ponto de apoio é a utilização consciente do controle da pressão exercida pelos dedos da mão esquerda (1, 2, 3 e 4) no sentido de obter segurança para a execução e evitar esforço desnecessário. O violonista deve escolher um ou mais pontos de apoio, caso contrário, há a tendência de exercer pressão excessiva, de forma inconsciente, no braço do instrumento,

causando cansaço e dores. A não colocação de um ponto de apoio acarreta em desequilíbrio da mão esquerda na execução.

Carlevaro (1979, p. 147) sugere uma definição do que seja o ponto de apoio e explica sua utilidade:

Um ponto de apoio no braço do violão (um dedo ou vários) nos permite a utilização, como recurso, de uma alavanca de primeiro gênero (efetuada pelo braço) com a qual podemos separar ou contrair (grifo do autor) os outros dedos em favor de uma maior facilidade mecânica24.

Já existe o emprego de forças desde o momento em que o violonista coloca qualquer dedo no braço do violão, como ficou claro ao falarmos da relação de pinça. Portanto, em todo momento existe a necessidade de estabelecer um ponto (ou vários pontos) de apoio. São muitas as formas de utilização deste recurso, que sempre dependerão do contexto e da individualidade do instrumentista.

A importância de sistematizar o uso de ponto de apoio de mão esquerda reside no fato de evitar esforço desnecessário em outros dedos, permitindo seu relaxamento durante a execução 25, dar maior mobilidade aos dedos que precisam se movimentar e a constituição de um ponto referencial para o violonista. Mesmo sem sistematizar seu uso, Carlevaro faz menção sobre a utilidade do ponto de apoio na execução violonística26. Violonistas profissionais usam este recurso de maneira deliberada e norteiam muitas vezes suas escolhas de dedilhados com base no ponto de apoio, como é possível notar nas execuções de John Williams no segundo movimento do Concerto de Aranjuez de J. Rodrigo27.

24

“Un punto de apoyo en el diapasón (un dedo o varios) nos permite la utilización, como recurso, de una palanca de primer género (efectuada por el brazo) con la cual podremos separar o contraer los demás dedos en favor de una mayor facilidad mecánica”.

25

Rene Cailliet em seu livro Dor na Mão (Porto Alegre: Artmed, 2004, p. 162) explica que os tendões estão sujeitos a forças diariamente e que podem ocorrer danos quando a carga no tendão for excessiva e seu repouso for insuficiente para sua recuperação. Menciona ainda que: “Fatores de estresse ocupacional são freqüentemente as causas da tendinite. São chamados de lesões por esforço repetitivo (LER) e resultam de tarefas repetitivas com movimentos forçados, posturas não habituais [...].”. Neste sentido, o uso reflexivo dos pontos de apoio na execução de mão esquerda ao violão pode contribuir para a diminuição dos impactos desta atividade sobre o corpo do instrumentista.

26

Ver Série didática, caderno 4 (CARLEVARO, 1969).

27

Neste movimento, compassos 25 e 26, John Williams desfaz a pestana momentos antes, para posicionar o dedo 1 na primeira corda e fazer o translado da posição II (c. 25) para a posição XI (c.

O conceito de ponto de apoio será fundamental para a análise e elaboração de dedilhados neste estudo. Ainda, todas as ferramentas da técnica de mão esquerda mencionadas anteriormente serão influenciadas por seu uso. Nossos critérios utilizados para a escolha do ponto de apoio na mão esquerda foram: em trechos “harmônicos”, onde há notas executadas ao mesmo tempo, selecionamos as notas de maior duração, que são pressionadas por algum dedo obviamente; e em escalas, onde há apenas uma nota tocada por vez, o apoio modifica-se constantemente, mas há a possibilidade de estabelecer apoios “artificiais”, isto é, com dedos que não são necessariamente tocados, ou que já foram tocados. Podemos listar algumas possibilidades de uso do ponto de apoio:

1) Ponto de apoio “antecipado”: o uso de ponto de apoio por antecipação implica no posicionamento e emprego de pressão no dedo antes de tocar a nota com a mão direita, isto é, a mão esquerda antecipa a pressão enquanto outro dedo é executado. Este procedimento já foi mencionado por Pujol (apud SOARES, 1997, p. 17);

2) Ponto de apoio “mantido”: o ponto de apoio mantido é a continuação da pressão em um dedo já utilizado, podendo ser executado novamente ou não, até o aparecimento de um novo ponto de apoio;

3) Ponto de apoio para auxílio de abertura/contração: consiste na utilização de um ponto de apoio que proverá equilíbrio para a abertura (distensão) e contração da mão esquerda. Acreditamos que a abertura e a contração são possíveis apenas com o uso de um ponto de apoio;

4) Ponto de apoio para o auxílio de mudança de posição por meio de abertura/contração: esse é um recurso comum e extremamente útil na execução violonística. O dedo de apoio da posição de partida permite que a mão se distenda e possibilite a mudança à outra posição, que por sua vez terá um dedo com ponto de apoio. Obviamente esse recurso é utilizado para mudanças próximas à posição inicial, em contraposição à utilização do dedo- guia que permite mudanças para regiões mais distantes. No entanto, ambos os tipos, por distensão e dedo-guia, são recursos importantes e utilizáveis de acordo com o contexto;

5) Ponto de apoio no “dedo-guia ativo” para mudança de posição: o dedo-guia é por si só um ponto de apoio, pois a pressão é exercida sobre ele para que a troca de posição

26). Observamos que Williams, ao desfazer a pestana, não toca a nota Fá sustenido na primeira corda (posição II), ele apenas posiciona o dedo 1 para obter um ponto de apoio e dedo guia para a realização da mudança de posição (posição XI).

seja efetuada. Distinguimos três tipos de dedo-guia: o ativo, o semi-inativo e o inativo. Chamaremos de dedo-guia ativo aquele que será tocado tanto na posição de partida quanto na de chegada, mesmo que não seja de maneira imediata. Acreditamos que este recurso é o mais adequado pra os translados por proporcionar maior segurança;

6) Ponto de apoio no “dedo-guia semi-inativo” para mudança de posição: entendemos por dedo-guia semi-inativo aquele que não é tocado em uma das posições. Este dedo não é comum às duas posições e é posto em uma delas de maneira “artificial”.

7) Ponto de apoio no “dedo-guia inativo” para mudança de posição: o dedo-guia inativo não é tocado em nenhuma das posições. É um mecanismo totalmente artificial, utilizado como último recurso para evitar o salto livre;

8) Ponto de apoio para mudança de posição através de mudança de apresentação: as apresentações favorecem a execução de determinadas notas, além de permitir aberturas e contrações. Vale lembrar que a mão, em alcance natural, está em apresentação longitudinal; já em alcance estendido ou diminuído, ela está em apresentação transversal. Dessa forma, se estamos em uma apresentação transversal, com uma contração, ao mudarmos para a apresentação longitudinal e seu alcance natural, pode haver um translado (ver Ex. 20). Este procedimento é conhecido na literatura como pivot;

9) Ponto de apoio em escalas: em princípio usamos o ponto de apoio nas notas mais longas. Entretanto, em trechos rápidos como escalas, cada dedo servirá de apoio para a colocação do seu sucessor;

10) Ponto de apoio em ligadura: o uso do ponto de apoio em ligados, descendentes e ascendentes, é transferido, geralmente, da primeira para a última nota.

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