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4.1 O PONTO DE PARTIDA: TRABALHO E FORÇA DE TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

No capítulo anterior, esclarecemos não só sobre a maiêutica, mas também apontamos as formas de sua superação no processo de uma ação educativa de formação social. Cabe ressaltar que o trabalho demonstra o caráter político de nossa proposta, contudo, tal modo de proceder, ou seja, a utilização dessa técnica corresponde a outro tipo de prática educativa que não tem imediatamente por objetivo contribuir para o processo de formação da consciência de classe.

Em nosso caso, temos claro que a intervenção do profissional na direção da educação popular deve ter caráter ético e político, com objetivos consistentes e definidos. Tal procedimento revela não só o grau de entendimento da dimensão socioeducativa, como, evidencia o cerne necessário da prática dos trabalhadores sociais.

Frente ao pressuposto acima, buscamos apresentar neste capítulo, como compreendemos a maneira como o serviço social pode apropriar-se dessa forma revolucionária de abordagem, que possibilita ao profissional assistente social criar espaços menos alienados nas esferas das instituições capitalistas em que opera. Para tanto, a priori, apreendemos a necessidade de refletir sobre o trabalho do assistente social no processo de emancipação humana.

Nesse sentido, consideramos que o trabalho do assistente social está inserido no contexto da produção social capitalista e tal atividade corresponde ao conjunto da força de trabalho coletivo de produção direta ou indireta do capital.

Para Marx, a palavra ‘trabalho’ designa uma gama bastante ampla de formas possíveis de atividade humana. Na medida em que se refere ao trabalho como

atividade concreta, através da qual os homens, modificando a natureza, produzem seus meios de subsistência e, através disso, sua própria vida material, acrescenta que essa maneira de produzir não deve ser vista como simples reprodução da existência física dos indivíduos. Trata-se, antes, de um modo de manifestar a vida, a sua maneira de viver e maneira de ser. Sua maneira de ser conjuga-se à sua produção, tanto àquilo que é produzido como ao modo pelo qual produzem.

O que os indivíduos são, portanto, depende das condições materiais de sua produção. Aqui, o trabalho assume um sentido totalizante e é entendido sob uma dupla dimensão: de um lado, a relação homem e natureza, onde o trabalho humano transforma a natureza e marca com sentido humano as matérias naturais: de outro lado, as relações homem-homem, que são as relações que se estabelecem entre eles para organizar a atividade produtiva comum.

Podemos dizer que é nessa dimensão da relação homem-homem que se estabelece o caráter do trabalho do assistente social, o qual está intrinsecamente no cerne das relações sociais de produção capitalista. Portanto, é um trabalhador que tem em sua práxis todo um processo ideológico determinado pela luta de classes. Assim, em primeiro plano, esse trabalhador apresenta-se como parte integrante do movimento do capital para manter inalteradas as estruturas econômicas e as relações de poder no âmbito da superestrutura.

Para esse trabalhador, é fundamental a compreensão de tais relações, principalmente as transformações no mundo do trabalho que vêm acarretando profundas conseqüências para a sobrevivência da classe trabalhadora, inclusive dele próprio. As demandas trazidas de forma caótica e desagregada pela população devem ser sistematizadas, elaboradas teoricamente e devolvidas de maneira clara e objetiva para a organização de estratégias de luta de classe.

Inserido na divisão sócio-técnica do trabalho, o assistente social vem cumprindo o papel de intelectual nas relações de poder. Alguns, levando os indivíduos a aceitar seu destino de subalternidade, preservando os mecanismos de dominação e reprodução ideológica; outros conscientes de seu papel político no processo coletivo de libertação do homem, desenvolve ações no sentido de sua desalienação, o que

demonstra o compromisso que os profissionais vão estabelecendo frente à luta de classes.

A análise dessas funções e a indicação de sua importância para a relação de poder é um dos fulcros dos trabalhos de Antônio Gramsci. Em virtude da vinculação dos intelectuais à posições de classe, a discussão da noção de intelectual é constantemente encaminhada em termos de intelectual orgânico e intelectual tradicional. Sem entrar no detalhe da questão, é importante considerar a definição de Gramsci, segundo o qual os intelectuais modernos são os que dominam, em função do próprio desenvolvimento da indústria e das forças produtivas, ou seja, o tipo técnico de fábrica e engenheiro: o velho tipo de intelectual era o elemento organizativo de uma sociedade predominantemente camponesa e artesanal.

A indústria moderna introduziu um novo tipo de intelectual: o organizador técnico, o especialista em ciência aplicada. Nas sociedades em que as forças econômicas se desenvolveram em sentido capitalista até chegar a absorver a maior parte da atividade nacional, é esse segundo tipo de intelectual o que prevaleceu, com todas as suas características de ordem e disciplina intelectual. Portanto, a determinação do lugar dos intelectuais não privilegiou apenas as superestruturas ou a ideologia: ela parte daquilo que é específico ao modo de produção, às forças produtivas modernas: o aparelho de produção.

Entretanto, se é a partir das transformações ao nível do aparelho de produção que se pode perceber a emergência dos novos tipos de intelectuais, nem sempre a expansão desses tipos é determinada pela produção: no mundo moderno, a categoria dos intelectuais ampliou-se de modo inaudito. Foram elaboradas pelo sistema social democrático burguês, importantes massas de intelectuais, nem todas justificadas pelas necessidades sociais de produção, ainda que justificadas pelas necessidades políticas do grupo fundamental dominante.

Desse modo, é possível pensar nos intelectuais como indivíduos que ocupam funções-posições de supervisão e comando e que, de acordo com as necessidades da produção ampliada do capital, podem vir a constituir uma massa social que exerce funções de organização no sentido amplo: seja no domínio da produção, da cultura ou da administração pública.

Assim entendida, fica claro que a ampliação de noção de intelectual operada por Gramsci prende-se ao fato de o intelectual ser definido no conjunto do sistema de relações no qual tais atividades (intelectuais) e, portanto, os grupos que as personificam, encontram-se no conjunto geral das relações sociais. Como conseqüência dessa ampliação, o conceito de intelectual passa a abranger desde produtores de ideologia até os funcionários de Estado, passando pelos empregados técnicos. O que une esses diferentes intelectuais e o que fundamenta essa ampliação é o fato de que exercem concretamente uma função que os caracteriza especificamente: “Todos os homens são intelectuais, poder-se-ia dizer; mas nem todos os homens desempenham na sociedade a função de intelectuais”. (GRAMSCI, 1968, p. 07).

A discussão precedente evidencia a seguinte questão: qual a necessidade emergente, na sociedade capitalista, dessas funções? A pergunta só pode ser respondida se pensada dentro da relação Estado-sociedade, ou seja, entre um poder político constituído e a dinâmica das classes sociais, numa formação social capitalista. É dentro dessa discussão que frisamos o trabalho intelectual do assistente social e a ideologia que permeia as relações cotidianas, impondo condições muitas vezes estruturantes nas intervenções profissionais. Intervenções estas que se dão no interior de um determinado tipo de Estado.

O estado capitalista surge como a esfera das superestruturas jurídico-políticas para a reprodução das relações de produção, a partir da subsunção real do trabalho ao capital. Ou seja, embora o processo de produção imediato engendre no seu próprio movimento as condições da auto-reprodução do capital, definindo no seu interior as posições que caracterizam as relações de produção capitalista, a reprodução ampliada de capital coloca a questão da reposição, sempre problemática, das condições sociais, isto é, condições materiais e jurídico-politicas da própria acumulação. Assim, se o primeiro processo define as classes sociais básicas no capitalismo, definindo a contradição inerente a sua existência, a produção em seu conjunto propõe um problema para a continuidade da acumulação ampliada do capital, que vai implicar na emergência de novos segmentos das classes sociais, com níveis distintos de atuação e participação, e que acompanham a complexificação do processo de produção geral. A reprodução ampliada do capital, na sua dinâmica intensiva e extensiva, diversifica

ramos e setores da produção e redefine constantemente as relações sociais, o que significa que amplia também o âmbito de sua contradição fundamental para outros segmentos de classes e frações de classe. O que nos interessa é que essa ampliação instaura dimensões também amplas e mais complexas na esfera política, ou seja, ao nível da constituição do poder político. Essas mudanças para se concretizarem precisam da ratificação do Estado. Pode-se dizer então, que com essa argumentação tem-se a proposta, a questão de uma redefinição das funções do Estado no capitalismo, funções estas que Gramsci procura abarcar através do conceito de aparelhos de hegemonia.

O conceito de hegemonia, considerado nesse contexto, implica um duplo sentido nas relações Estado-classes sociais: a direção e a dominação. Segundo Gramsci (1984), a supremacia de um grupo social se manifesta de duas maneiras: como dominação e como direção intelectual e moral. Um grupo social exerce sua dominação sobre os grupos adversários, aos quais tende a liquidar e a submeter, mesmo se necessário pela forças das armas. Desse modo, Gramsci tem razão ao conceber que o Estado deixa de ser visto apenas como violência organizada e concentrada da sociedade ou comitê executivo da classe dominante, mas também como instaurador de uma ordem jurídica e repressiva que salvaguarda certas normas fundamentais à existência do capitalismo e passa a ser também o inspirador da disseminação do “consenso”. Em outros termos: ele penetra no interior da formulação dos interesses de cada grupo, tentando desarticular uma “visão de mundo” autônoma e orgânica a cada um dos grupos e classes sociais potencialmente adversários, e procura rearticulá-la sob a égide de uma “visão de mundo” proposta como universal.

Para Gramsci, é através dos intelectuais que se realiza a íntima interpenetração entre a estrutura produtiva e a superestrutura que, como já foi dito, só é assim designada na medida em que ocupa uma função-posição no mundo da produção capitalista. Em nossos termos, uma posição de saber e poder determinada, sendo, simultaneamente, nessa qualidade, um comissário do poder político.

Quando agente dos aparelhos de hegemonia, o assistente social, como intelectual, está integrado à idéia de expansão de uma classe, a qual depende de um consenso espontâneo aceito pelas massas da população, em relação à orientação

impressa à vida social pelo grupo fundamental dominante. As práticas desses profissionais na ordem vigente devem expressar uma orientação centrada no que se chama ideologia dominante. Contudo, o assistente social não está necessariamente confinado a obedecer aos ditames sutis e velados dessa ideologia; ele pode, como agente educador e formador das classes populares, intervir no processo de consciência das massas através de uma prática educativa de emancipação.

Para nós, assumir esta última posição é a dimensão mais significativa do trabalho do assistente social; não pode ocorrer de qualquer maneira, sem nexo com a verdadeira realidade vivenciada pelas classes subalternas. Portanto, ele precisa de uma metodologia que lhe permita colher das pessoas aquilo que elas trazem como senso comum, de forma desagregada, confusa e alienada para devolver a questão de maneira sistematizada e clara. Essa prática consiste em assumir não só uma teoria social, como também uma metodologia capaz de viabilizar com que o próprio sujeito faça a trajetória que vai do senso comum para uma visão crítica da vida social.

A maiêutica em si como técnica educativa não leva o individuo a interiorizar novos valores para o avanço na consciência. Entretanto, traz subsídios para a construção de uma forma de realizar um trabalho de formação crítica das pessoas. Temos claro que nem toda técnica educativa contém esse processo que leva à criticidade, o que existe na maiêutica; sua metodologia sempre exige a presença do educativo e do movimento do pensamento.

Em um atendimento onde o assistente social utiliza reflexões contundentes, de certa forma se está aplicando parte do processo da maiêutica, principalmente quando encaminha a reflexão no sentido de questionar certas atitudes e ações dos indivíduos ou discute determinada realidade social. Mas, na utilização da maiêutica é importante superar sua proposta original de apenas questionar as pessoas; é preciso introduzir um sentido político nesse processo, o que leva à superação de sua gênese. Consideramos que esse procedimento é possível na práxis do serviço social.