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Volto ao momento do exame de qualificação do relatório da tese em andamento, que aconteceu logo antes da ida a campo, para alguns comentários importantes. À época, estruturei a pesquisa levando em conta três fatores: meus anos de atuação na Alecrim (e o olhar construído até então, procurando situar a criança no centro do fazer musical); a influência dos estudos teóricos durante o

29 curso (incluindo a inclinação por investigar as relações entre pares construídas pelas crianças); e uma espécie de teste piloto – a observação de uma aula de musicalização como vinheta ilustrativa para a escrita de um artigo acadêmico. Nesta etapa, na tentativa de organização da tese, minha opção foi por analisar múltiplas faces do envolvimento das crianças na musicalização, considerando as relações entre pares, com os professores, com os pais, com a estrutura física da escola, e com a própria música, conforme o diagrama inicial que aparece na Figura 2. No título do relatório de qualificação, à época, incluí “as relações entre espaço, família, professores e coletividade”, fruto destas possibilidades de entendimento do conceito de envolvimento que esbocei anteriormente. Para tanto, construí um desenho metodológico incluindo a pesquisa etnográfica e a observação participante como estratégia e ferramenta de coleta de dados para possibilitar as reflexões teóricas.

FIGURA 2 – DIAGRAMA INICIAL DE RELAÇÕES DETERMINANTES DO ENVOLVIMENTO

MUSICAL INFANTIL

FONTE: O AUTOR

A complexidade deste organograma, bem como da intenção inicial em observar três turmas de crianças, e também a falta de foco representada já no título do texto, foram levantadas no exame de qualificação, quando optei por seguir as recomendações dos examinadores e fechar o foco de investigação.

Já no andamento da coleta de dados e nas primeiras análises, passei a considerar que as práticas musicalmente envolventes partiam de um diálogo entre o

30 grupo de crianças que escolhi observar, que particularmente me parecia ter boa aceitação das propostas musicais realizadas em aula, e que era formado por crianças com grande experiência musical, e uma dupla de professoras que levava grande quantidade de conteúdo musical inédito em propostas que chamavam a atenção das crianças a cada aula. Assim, cheguei à definição desta infância em específico – a de uma turma de crianças de cinco anos com experiência de alguns semestres de musicalização na escola, em trabalho com uma dupla de professoras, que era considerado o grupo “mais envolvente” do ponto de vista musical – havia uma identidade da turma no contexto da escola, o que acabou por defini-la como caso de estudo. Por esta razão, inicialmente coletei dados de duas turmas, e mais tarde optei por concentrar a análise nos achados na observação deste grupo.

A partir das reflexões mencionadas nesta Introdução, passei a considerar a necessidade de um olhar “às avessas”8 para melhor compreender o envolvimento das crianças em minhas observações; mas o que marcou a etapa inicial das análises foi principalmente o fato de que estas reflexões foram construídas a partir daquilo que não encontrei – embora esperasse encontrar – no campo empírico.

Parti do pressuposto de que encontraria dezenas de episódios9 em que as crianças se envolveriam musicalmente partindo de ideias delas mesmas, em uma “conversa paralela” longe do olhar e do ouvido adultos – legítimas e autônomas produções musicais a partir das interações entre pares, como eu havia registrado no “teste piloto” que mencionei. Mas não encontrei sequer um destes episódios levando a produções musicais interativas nas dezoito aulas observadas. Para minha surpresa, acompanhei poucas ocorrências de interações entre pares, em aulas com um planejamento que minha experiência e olhar pré-concebido de professor julgariam muito coerente e ao mesmo tempo aberto para considerar as reações das crianças a todo tempo. Com isso, percebi a necessidade de retornar ao início, considerando novas perspectivas como solução teórica: afinal, qual seria o lugar da criança neste fazer musical ativo?

8 Empresto a ideia de um olhar “do avesso” no estudo das crianças da tese da portuguesa Manuela Ferreira, que trouxe fundamentais questões para que eu (re)pensasse certos aspectos da pesquisa etnográfica com crianças. Ferreira (2004) considera a importância de seu olhar enquanto pesquisadora, “virando o quotidiano do avesso” na análise das relações sociais construídas por crianças em um Jardim de Infância em Portugal – de uma visão vertical adulto-criança para um olhar centrado no Jardim como espaço de agência, de cidadania, de presença do brincar infantil como atividade central.

9 Termo emprestado da metodologia de Corsaro (1979), como explico no capítulo 2.

31 Em resumo, nas primeiras análises a partir do contato com o campo empírico, e com todos os questionamentos na definição de envolvimento a partir dos delineamentos inicialmente adotados, atualizei e sintetizei o diagrama das questões determinantes do envolvimento musical das crianças, de forma concisa, em dois pontos de vista: as questões sociais e as musicais que fazem parte deste envolvimento, em um processo contínuo nas aulas de música, como aparece na Figura 3.

FIGURA 3 – DIAGRAMA ATUALIZADO DAS QUESTÕES DETERMINANTES DO ENVOLVIMENTO

MUSICAL DAS CRIANÇAS

FONTE: O AUTOR

Este foi o mais difícil ponto de virada em minhas reflexões analíticas: considerei que precisaria também virar do avesso tudo o que eu havia produzido do ponto de vista teórico e textual até ali.

Por isso, na escrita do relato final desta tese, optei por inverter a ordem tradicional dos capítulos, tal qual me senti “de pernas para o ar” no início do processo de análise e redação. Esta decisão também me pareceu apropriada tendo em vista a ideia de ludicidade presente na musicalização infantil, que considerei ser necessária para uma escrita / leitura mais coerente com meus achados no campo.

Sem a pretensão quase surrealista de um “Jogo da Amarelinha” de Cortázar, por respeitar os limites do discurso acadêmico, proponho um estilo de escrita talvez lúdico, também invertido, em que inicio pelos dados encontrados, abrindo mil possíveis fios; e apenas depois apresento muitos mais fios teóricos, para então tecer considerações. Este jogo do texto, para mim, é em respeito à importância

32 fundamental da observação das crianças para construção do pensamento – a “tese”

não se restringe à etapa da análise, mas também à metodologia da própria apresentação dos dados.