4.2. O ladrão do 474
4.2.1. Ponto final: zona sul e o risco
O bairro de Copacabana, ponto final do 474, representa mais do que simplesmente a
pista. Localizado na zona sul da cidade, é considerado um bairro nobre e possui uma orla
extensa, que representa um dos mais conhecidos pontos turísticos da cidade. Por isso, possui grande rede hoteleira e recebe muitos estrangeiros, sobretudo no verão e no réveillon, quando há uma grande festa que lota toda a orla com pessoas vindas de diferentes cidades do mundo. Assim, Copacabana é um lugar de gringo e de rico, o que explica um incômodo com a presença dos menores infratores naquele espaço.
Como articulei no capítulo um, não é difícil compreender porque essa linha de ônibus é percebida como um risco para os moradores de Copacabana, e, desta forma, se constitui como um risco a ser combatido pela segurança pública. Por outro lado, e pensando sob outra perspectiva, para os adolescentes do Jacaré, andar nessa linha pode ser um risco. Sendo assim, o que é a linha do terror para os moradores da zona sul, pela possibilidade de ser vítima da prática dos furtos, para os adolescentes moradores do Jacaré e arredores, utilizar esse transporte para ir à praia, independente de estar praticando ou não um crime, pode gerar uma apreensão.
116 [Luana] Como é andar no 474?
[Caio] Pô, como é andar no 474? Às vezes é meio difícil. Não tá fazendo nada e tu leva a culpa por uma coisa que tu não fez. Sempre tem uns que pega o ônibus para poder roubar. Desce, rouba e volta para o ônibus, desce e rouba e volta para o ônibus. Aí acaba acontecendo uma coisa assim. A maioria das vezes é assim e quem não tem nada a ver acaba sendo preso. [...] [Luana] E esse ônibus toda vez dá problema?
[Caio] Toda vez dá problema, toda hora é parado. Esse e o 476. O 476 passa lá no Jacaré também e vai para o Leblon.
[Luana] Você anda muito de 474?
[Caio] Ando, para ir pra praia, tem o 474 ou o 476. [Luana] E onde você gosta de ir à praia?
[Caio] Eu gosto de ir no Leblon mesmo... Leblon, Arpoador, Ipanema. Onde tá mais tranquilo, eu paro. Para mim poder ficar tranquilo também. Bagulho de roubo sempre tem um que vem, aí rouba, aí tu tá na hora errada, no momento errado, foi o que aconteceu. Foi o que aconteceu com o Lucas130 também. O menor roubou, ele não tinha nem roubado, parou perto dele no ônibus. O ônibus foi parado e os policial botou ele descer, sendo que ele já tinha pulado CRIAAD. Aí o mandato dele bateu, mesma coisa.
[Edilson] A maioria, têm uns que, tipo assim, quem não pega ônibus assim [pra roubar]. E quando vai, já fica com medo de ir no ônibus e tomar uma
enquadração e perder tudo.
[Luana] Quem tá no ônibus sabe do risco então?
[Edilson] Já sabe que a qualquer hora o ônibus pode parar. Se tiver com algum bagulho assim que não for dele, roubado, sempre roda. Mas tem várias minas que vai com nós [pra deixar as coisas com elas]. Os polícia não pode nem encostar nelas, nem revistar
Edilson, ao contrário de Caio, praticava furtos em Copacabana, e inclusive apresentava técnicas para diminuir a possibilidade de uma apreensão. No entanto, o risco que os dois compreendem por andar nessa linha é semelhante.
Alexandre, que também foi preso no ônibus sem nenhum flagrante, e com outros adolescentes que ele nunca tinha visto, foi liberado pela juíza na audiência que ocorreu mais ou menos vinte dias depois de sua entrada no Padre. Ele me narrou, em uma conversa que tivemos após isso, que durante a audiência a juíza lhe disse que daria a ele uma chance e o liberaria, mas lhe advertiu: “A juíza falou assim „não pode ficar andando demais nesse coletivo [474], se você quer ir à praia, vai com outro coletivo e não vai pro Arpoador”. A advertência da juíza, inclusive, reitera que esses adolescentes eram certas pessoas, em um determinado lugar, que elas não deveriam estar.
Nesse sentido, e criando uma interlocução com o que falei sobre o risco para o ladrão, estar na rua te deixa mais vulnerável a uma prisão, sobretudo quando se está em locais em
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que se percebe que há mais abordagens policiais, como no 474. Nesse contexto, ainda surge outra categoria, que também está associada ao risco: os heróis.
[Edilson] Herói é os cara que fica parado. Qualquer um é herói, se vir correndo atrás, tentar pegar, é herói.
[Luana] E se for a vítima?
[Edilson] Não, vítima é vítima. Herói é que não tem nada a ver com o roubo e vem correndo atrás.
[Luana] E os justiceiros?
[Edilson] Eles ficam tudo lá... é os “justiceiros”, mas nós lá chama mais os
Pitbull. Só na televisão que apareceu os “justiceiros”. É duas ruas que eles
fica, uma é ali na 12 DP131. [Eles] fica sentado. Eles nem liga mais, só quando rouba na rua. Roubar na rua deles já, já vem de taco de beisebol.
Os heróis me foram apresentados quando eu perguntava sobre os “justiceiros”, que seriam moradores de Copacabana que teriam se reunido para tentar combater as práticas de roubos e furtos no bairro. Edilson chama os “justiceiros” de Pitbull, talvez fazendo alusão a forma física deles. Os heróis seriam todos aqueles que “não tem nada a ver com o roubo e vem correndo atrás”. Outro adolescente chegou a me dizer que preferia ser preso pela polícia a ser pego pela população, fazendo referência aos heróis, que “batiam muito” nele.
O interessante sobre a figura do herói é observar ambivalências nas falas dos adolescentes sobre eles, na medida em que alguns o apresentavam como sendo um risco, e outros legitimavam a postura deles, ao aproximarem a sua imagem da de bandido que apresentei neste capítulo, no sentido de que o herói está “defendendo a propriedade deles”.
Edilson quando diz que o herói “não tem nada a ver com o roubo e vem correndo atrás” explica que o herói é um elemento incabível na relação ladrão-vítima-polícia. Ele não tem nada a ver com isso, mas se colocam na situação, o que se torna mais claro quando eles dizem que alguém “quer dar uma de herói”. Dar uma de herói evidencia a ironia contida nesta categoria. Para os ladrões, se deparar com um herói não é desejável e eles me diziam que iam com facas e pedras para se prepararem para esse possível encontro.
Contudo, por outro lado, muitos adolescentes legitimavam a prática dos heróis, na medida em que eles compreendem, a partir de uma lógica semelhante com a imagem do
bandido, que eles são moradores de outro território e que teriam o direito de buscar
“melhorias para os moradores da zona sul”.
[Luana] Porque você acha que eles [heróis] fazem isso?
118 [Gabriel] Porque eles não aceita o roubo. Aí eles vê uma pessoa roubando, eles já que ir atrás de tu. Aí os cara fala que é herói, quer dar uma de herói, defender os outros.
[Luana] E os heróis?
[Vanderlei] Pra mim, eles faz isso pela melhoria dos moradores da Zona Sul mesmo.
[Luana] Lá no Mandela132 fazem isso?
[Vanderlei] Na comunidade já é outra coisa. Na comunidade, roubar uma pessoa na comunidade já é cobrado pelos traficantes. Madeirada na mão. [Wagner] Mas também eles tão pedindo, né? Porque eles tão roubando moradores. Independente que é morador que tem condição, bah. E aí morador vai criar uma revolta. É a mesma coisa que nós, na boca de fumo, começa a pegar morador, eles já vão querer criar uma revolta contra nós, vai ligar pra polícia... aí já não é maneiro.
[Luana] Então você acha que os heróis tão defendendo?
[Wagner] Tão defendendo, tão defendendo a propriedade deles, tão defendendo o direito deles.
[Luana] E os meninos que foram presos no arrastão pensam assim?
[Diego] Ah, aí eles já pensa diferente. Quanto mais apanha, mais raiva eles fica, eles esfaqueia, eles mesmo fala.
A fala de Wagner inclusive retoma a moralidade que apresentei entre o bandido e o
ladrão, demonstrando uma desaprovação moral da prática do roubo, já que ele indica que os
adolescentes que vão para a pista roubar os moradores, independente de ser ele rico ou não, vão apanhar de outros, que estão defendendo, dentro de seu direito, a propriedade deles. Diego acrescenta que essa visão não vai ser a mesma de quem está ali apanhando, porque para eles os heróis apresentam um risco, indicando a ambivalência na categorização do herói.
Observo, novamente, a maneira pela qual as diferentes formas de olhar e compreender os espaços da cidade influenciam na forma de categorizar moralmente as distintas práticas narradas por esses adolescentes, o que desenvolvo em seguida a partir de reflexões sobre o ponto de partida do 474, para pensar na representação do trajeto desta linha.