5.ESTUDO DE CASO: A REGIÃO DO MUNICÍPIO DE SÃO JOSÉ DO XINGU
5.2. Pesquisa de campo
5.2.4. Ponto 4 – Município de Colíder (MT) – usina CL
A ocupação das terras da região ocorreu no tempo dos incentivos fiscais e projetos do Governo Federal da década de 1970. Quando os soldados do 9º Batalhão de Engenharia de Construção (BEC) ainda rasgavam a BR 163, Raimundo Costa Filho decidiu colonizar a região, nela entrando no sentido leste-oeste. Raimundo Costa Filho já tinha experiência em colonização no estado do Paraná, e em 1973 chegou a Mato Grosso. Sobrevoou a região e adquiriu extensa área de terras, mudou-se então para o lugar da futura cidade de Colíder, que inicialmente foi denominada de Cafezal.
A criação oficial do patrimônio de Cafezal se deu a 07 de Maio de 1973, considerando o dia do aniversário de Colíder, com o erguimento de um ranchão, que passou a servir de dormitório, armazém, enfermaria e pensão. Era tal a procura de terras que, em 1974, quase toda a Gleba Cafezal já havia sido ocupada. Programou-se, então, a cidade.
A povoação cresceu, passando à denominação de Colíder, utilizou-se das iniciais da palavra Colonizadora Líder (Co + líder), cujo significado descrevia que ali nascia uma unidade social de grande importância ao lado de outra, pois na época, Ênio Pipino já desenvolvia uma colonização de vulto naquela região, estabelecendo Sinop como sede dos empreendimentos. Colíder vinha a ser, então, outra Sinop. Os colonizadores tencionavam criar uma estrutura tal que justificasse o seu nome de liderança.
Em 18 de Dezembro de 1979, através da Lei Estadual nº. 4.158, foi criado o município de Colíder, que se tornou famoso devido à produção agropecuária e também aos garimpos nas décadas de 80 a 90; passando pelo processo de extração de madeiras e, por conseguinte a pecuária e a industrialização através de frigoríficos, laticínios e curtume, atividades do comércio e prestação de serviços.
Atualmente, tem destaque a criação bovina com 400 mil cabeças, além de pequenos projetos de agricultura familiar com produtividade significativa de produtos hortifrutigranjeiros, valorizando a produção de produtos orgânicos e fruticultura.
A usina CLV Agrodiesel pertence ao grupo Guaporé carnes. Sua certificação ocorreu em 2007, mas devido aos custos altos das matérias-primas, manteve-se paralisada iniciando suas atividades em 2008. Apesar da atividade principal da empresa ser frigorífico, o sebo bovino não é a matéria-prima base para produção de biodiesel, ele é utilizado somente
misturado. As matérias-primas são óleo de soja, girassol e algodão, sendo a soja a base principal, com participação de 70%.
A figura 5.10 mostra os tanques de armazenamento da usina CLV.
Fonte: Pesquisa de campo, 23/09/2009.
Figura 5.10: Tanques de armazenamento da Usina CLV – Colíder – MT.
A produtividade da usina é de 150 mil litros por dia, sendo 100 mil l/dia autorizados pela ANP. Atualmente, solicitou-se a autorização para produção de 200 mil l/dia. A venda é destinada diretamente à Petrobrás, que arca com frete e retirada do produto. Os leilões são realizados trimestralmente e no último leilão, ocorrido em agosto de 2009, a CLV teve sua venda a R$ 2,28/l. A empresa vendeu 6 milhões de litros.
O óleo de soja é adquirido de empresas esmagadoras da região, como a Agrossoja e a Bunge. Para minimizar os gastos com transporte e logística, a empresa prioriza esmagadoras que estão localizadas entre Cuiabá e Colíder. Há projetos para o processamento do óleo na empresa, mas que deverão ser colocados em prática somente a partir de 2010, como informado pelo diretor geral Sr. Usias Isidoro.
Os custos referem-se à compra do óleo de soja, que foi adquirido por R$ 1,50 na última vez e mais os custos operacionais, que estão em torno de R$ 0,40 a 0,50. Apesar dos preços do óleo serem dados pelas commodities internacionais, sendo desvalorizado, regionalmente, ele é comercializado a preços maiores.
A rota utilizada é a metílica e o metanol importado chega por meio dos portos de Santos – SP e Paranaguá – PR. A proporção de metanol adicionado no processo é de 16 a 20% da quantidade de óleo. A empresa não recebe subsídios para produção, mas tem alguns descontos em impostos como ICMS e Cofins.
O licenciamento solicitado pela ANP foi, inicialmente, menos rigoroso do que a solicitação para ampliação de produção da usina, que é mais burocrático e exigente. Pela avaliação do diretor, o processo de licenciamento é burocrático, embora seja necessário para que as usinas possam produzir com qualidade, atendendo as especificações exigidas.
A glicerina excedente é vendida à indústria de cimento Votorantim, que a queimam para os processos que exigem altas temperaturas. Para a substituição da lenha queimada na caldeira da usina, algumas pesquisas foram realizadas acerca da queima da glicerina. Porém, foram detectados entraves tecnológicos os quais exigem grandes investimentos e compra de peças importadas, o que inviabiliza esse aproveitamento na escala atual.
A figura 5.11 mostra um dos tanques de armazenamento de glicerina.
Fonte: Pesquisa de campo, 23/09/2009.
No futuro, com abertura do mercado as vendas da usina deverão abranger sua região, ou seja, atendimento a um mercado regional no Mato Grosso, para que os custos com frete e logística não inviabilizem a produção. Mesmo com caminhões próprios, o combustível utilizado é o diesel vendido nos postos, pois o biodiesel apresenta maiores custos.
A preocupação ambiental é dada pelo cumprimento da legislação e exigências da ANP e SEMA. Como a usina compra o óleo diretamente da beneficiadora, não é possível saber a origem da soja (agricultura familiar ou não). Há projetos recentes na cidade de Colíder com agricultura familiar de amendoim, porém o biodiesel de amendoim é mais custoso. Ainda sim, a usina compra óleo ou grãos de cooperativas, localizadas em Terra Nova do Norte, Feliz Natal (Cooperfeliz).
Quando há compra de grãos, troca-os por óleo em empresas esmagadoras, estimulando a produção de pequenos agricultores. Também, a usina oferece assistência técnica de profissionais especializados, como agrônomos e técnicos agrícolas às cooperativas.
Ainda, há um projeto da usina em parceria com a SEMA de ferti-irrigação do pinhão manso. Há uma pequena plantação na área da usina que utiliza a água residual do processo na irrigação. Não cogita-se sua utilização como matéria-prima para produção de biodiesel pois ainda é uma cultura muito nova, necessitando de pesquisas mais aprofundadas para viabilidade e segurança de produção.
A figura 5.12 mostra a plantação de pinhão manso.
Fonte: Pesquisa de campo, 23/09/2009.
Figura 5.12: Projeto de plantação de pinhão-manso promovido pela usina CLV e SEMA para ferti-irrigação.