Capítulo 2: As gravadoras Festa, Elenco e Forma: fundação, modo de atuação, perfis
2.1. Populismo, funcionalismo público e modernismo
Dentro da perspectiva de reflexão proposta neste trabalho sobre as relações entre as atividades das três gravadoras e as condições materiais sócio-históricas de produção no contexto das décadas de 1950 e 1960, neste capítulo tratamos das trajetórias das gravadoras Festa, Elenco e Forma, os perfis dos seus produtores, os procedimentos de produção adotados, os gêneros musicais que predominaram em suas produções e a caracterização dos discos mais representativos dos seus catálogos. No entanto, com o intuito de tentar conferir maior profundidade à nossa tese principal e abordar questões centrais que tangem os nossos objetos de estudo, como o papel desempenhado pelo Estado e seus agentes na dinâmica do mercado de bens simbólicos, suas relações com o setor privado, a construção da identidade nacional, o modernismo e a presença do funcionalismo público no campo cultural, reconhecemos como necessário antes percorrer algumas transformações promovidas pelo modelo de governo do período vigente situado entre os anos de 1930 e 1945, caracterizado na sociologia como governo populista.
Nos quadros da estrutura social e econômica do Brasil, uma série de transformações políticas e institucionais, ocorridas a partir de 1930, impulsionavam um processo de transição de uma base social de caráter agro-exportador para o modelo urbano-industrial. A progressiva perda da base de poder pelas oligarquias rurais e sua paulatina derrota política para as classes sociais urbanas, vinculadas a então nascente indústria nacional, ficaram marcadas historicamente pelo episódio conhecido como “Revolução de 1930”. Desde esse período os desenvolvimentos das políticas estatais tenderam a favorecer os conteúdos burgueses em detrimento dos elementos culturais e políticos de tipo oligárquico vigentes nas décadas anteriores (cf. IANNI, 1996). Nesse sentido, nos primeiros anos o governo provisório de Vargas, apoiado por uma nova coalisão de classes procurou, por um lado, reformular, redimensionar e integrar órgãos governamentais pré-existentes e criar novos com o intuito de combater a recessão econômica vinculada ao setor exportador cafeeiro e à crise internacional de 1929 e, por outro lado, solapar as bases políticas da oligarquia tradicional.
Uma vez que chegou ao poder em decorrência da crise do poder das oligarquias associadas à Velha República, o governo Vargas não possuía uma base social vinculada
à colisão de uma classe hegemônica. Embora tenha recebido apoio de segmentos da burguesia industrial nascente, oligarquias dissidentes que produziam para o mercado interno e certas alas do tenentismo (MICELI, 2001: 100), o governo assumiu ainda como necessário para garantir a ordem social conquistar legitimidade junto às massas urbanas, que se ampliavam desde a abolição da escravidão com o crescimento do setor terciário e da própria urbanização. Segundo Weffort (1989: 50), “o poder conquistado pelos revolucionários nos quadros de um compromisso, só encontraria condições de persistência na medida em que se tornasse receptivo às aspirações populares”. Assim, os decretos, dispositivos constitucionais e a legislação trabalhista implementados pelo governo tiveram o intuito de atender às diversas reivindicações das massas urbanas e, ao mesmo tempo, desarticular e esvaziar o conteúdo político dos movimentos e lutas operárias (IANNI, 1996: 44-51). Esse tipo de política caracteriza um governo populista, pois se por um lado se mostra receptivo aos anseios das massas urbanas, por outro lado busca manipular e esvaziar o sentido político das lutas de classes, constituindo o motivo de sua insatisfação e pressão. Comentando à respeito, destaca Ianni (1968: 61-4):
[...] graças à política de massas, foi possível efetivar determinadas etapas do desenvolvimento industrial. Por meio das técnicas políticas e jurídicas inerentes ao populismo, manteve-se em nível adequado ao progresso industrial a relação entre custo de vida e salário real. Em âmbito mais largo, foi a política populista que propiciou a conciliação de interesses [econômicos] em benefício da industrialização e em nome do desenvolvimento nacionalista.23
Para Octavio Ianni (1996), no percurso de desenvolvimento do sistema político- econômico brasileiro do período Vargas convergiram duas tendências importantes de impacto representativo na estrutura social e na esfera cultural do país: a crescente participação estatal na economia e a política econômica planificada. As sucessivas crises ocorridas na economia primária exportadora (açúcar, café, borracha, etc.) e os efeitos das crises do capitalismo mundial (Depressão de 1929, Primeira e Segunda Guerra Mundial) tornaram evidentes as limitações da dependência econômica em relação ao capital estrangeiro e acentuavam a necessidade de transformações políticas profundas. A interferência estatal na economia e a adoção de medidas estratégicas planejadas impunham-se no governo de Vargas como essenciais para superar as deficiências estruturais do país e os diversos impasses interpostos no desenvolvimento
da indústria nacional, frente à omissão de iniciativas privadas. Nesse sentido, conforme Ianni destaca (1996: 51-64), o poder público passa cada vez mais a adotar diretrizes intervencionistas, nacionalistas e a prática de medidas planificadas no âmbito econômico. Este aspecto fica evidente no conteúdo das Constituições brasileiras de 1934 e 1937 e na criação de diversos órgãos públicos como o Conselho Federal do Comércio Exterior; o Conselho Nacional de Política Industrial e Comercial; a Coordenação de Mobilização Econômica; entre outros, destinados a expandir e implementar a eficiência do sistema produtivo, da logística e dos mecanismos financeiros de diversos setores (mineração, agricultura, pecuária, etc.) por meio de estudos técnico-científicos com coleta de dados e consequente sistematização, análise e avaliação de medidas sobre os problemas identificados (idem).
Além da implementação de uma política nacional-desenvolvimentista de perfil intervencionista e emancipacionista, o período do governo Vargas caracterizou-se também pela associação de um modelo de governo populista com o surgimento de uma cultura de massa. Para Zan (1997: 34), a massificação ocorrida no Brasil adquiriu características específicas, se comparada com a dos países desenvolvidos, uma vez que ela promoveu certo enfraquecimento das formas de solidariedade internas e de consciência da classe trabalhadora em formação desde o início da República Velha (1889-1930). Dado que a industrialização consistia ainda em um fenômeno nascente na sociedade brasileira, a massificação não ocorreu a partir de uma estrutura de classes bem delineada como nos países industrializados e contribuiu para a dissolução de formas tradicionais de sociabilidade vigentes, especialmente nas zonas rurais. Além disso, a constituição do massivo no país se difere também pela ausência de uma indústria cultural. As empresas ligadas à comunicação de massa no Brasil tinham suas atividades limitadas pelos entraves e dificuldades presentes no estágio de desenvolvimento do sistema capitalista e, por isso, faltava o caráter integrador de diversos setores, característico em sociedades urbanizadas e industrializadas (ORTIZ, 1994: 48).
Segundo Martín-Barbero (2009: 228-31), a cultura massiva iniciou a partir de 1930 nos países latino-americanos em um processo no qual os meios de comunicação desempenharam um papel fundamental até os anos 1950 como um dos principais elementos mediadores das relações entre o Estado e as massas. Conforme aponta o autor (idem), a eficácia e o sentido social dos meios estão mais relacionados ao modo como foram apropriados e o reconhecimento que as massas populares fizeram deles e de si
próprias do que com a sua organização industrial e seus conteúdos ideológicos. Barbero ainda complementa:
“não porque o econômico e o ideológico não fossem desde então dimensões-chaves no funcionamento dos meios, mas porque o sentido de sua estrutura econômica e da ideologia que eles difundem remete para além de si mesmas, para o conflito que nesse momento histórico informa e dinamiza os movimentos sociais: o conflito entre massa e Estado, e sua solução de ‘compromisso’, sob a forma do populismo nacionalista e dos nacionalismos populistas” (idem).
Além disso, a ideologia nacionalista foi um dos componentes importantes do imaginário de governos populistas dos países latino-americanos, uma vez que ao manipularem os meios massivos, atuaram “no sentido de converter as massas em povo e o povo em Nação”. No entanto, para Barbero a interpelação do Estado frente às massas somente surtiu efeito no momento em que as massas reconheceram nos bens culturais veiculados pelos meios de comunicação algumas de suas expectativas, demandas e suas próprias formas de expressão. Deste modo, pode-se dizer que através desse modelo populista de constituição do massivo foi realizada nos países da América Latina a gestão da crise de hegemonia, o parto da nacionalidade e a entrada na modernidade (idem).
No processo de centralização autoritária, ocorrido no governo Vargas entre 1930 e 1945, a ampliação do aparato burocrático prestou uma contribuição efetiva na manutenção de uma base social de apoio ao poder público. Conforme aponta Miceli (2001: 195-237), a abertura de ministérios, uma série de departamentos e órgãos vinculados diretamente ao Presidente da República, e de uma rede de autarquias, conselhos e comissões especiais teve função não apenas administrativa direta, mas também de atingir espaços emergentes de negociação entre o Estado e os diversos setores econômicos e operavam como frentes de legitimação da crescente intervenção do Estado em setores até então sob o domínio de outras frações da classe dominante. Tal processo de formação de uma grande rede de aparelhos estatais propiciou as condições necessárias para a expansão e a cristalização da categoria social dos funcionários públicos.
Nesse contexto, cresceu constantemente o número de postos e cargos destinados a intelectuais que também estavam envolvidos na produção cultural e simbólica. Estes
assumiram as diversas tarefas políticas e ideológicas associadas à crescente intervenção do Estado nos diferentes setores de sua atividade. Segundo Miceli (2001: 197),
Durante o período populista (1945-1964), verifica-se uma ampliação das carreiras reservadas aos intelectuais ao mesmo tempo que se intensifica o recrutamento de novas categorias de especialistas (economistas, sociólogos, técnicos em planejamento e administração etc.); muitos deles se alçaram aos postos-chaves da administração central, dos quais foram sendo excluídos outros grupos de intelectuais e especialistas que resistiram à implantação das diretrizes e dos programas adotados pela nova coalizão dominante nos últimos quinze anos em que os militares se apoderaram do controle do Estado.
Dentre os intelectuais convocados, uma quantidade expressiva de escritores e poetas modernistas ocuparam cargos públicos e trabalharam em função das diretrizes e demandas do Estado nacional, a saber, Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Menotti Del Picchia, Guilherme de Almeida, Lima Barreto, Cassiano Ricardo, Jorge Amado, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Vinicius de Moraes, João Cabral de Melo Neto, Murilo Mendes, Cecília Meireles, entre outros24. Conforme aponta Miceli (2001: 208), estes e outros intelectuais tenderam a se
efetivar em cargos com que dispunham de padrões de rendimento elevados e de uma série de regalias e vantagens na hierarquia burocrática. Eram convocados ora para atuarem como funcionários em tempo parcial, para prestação de serviços de consultoria e trabalhos afins, para o desempenho de cargos de confiança em posições elevadas da hierarquia, para assumirem direções de órgãos governamentais ou para ocuparem posições que se abriam nas novas carreiras em demanda pelas políticas de intervenção do Estado. O ingresso dos intelectuais no estamento burocrático atingiu uma extensão considerável e passou a constituir uma condição favorável e indispensável para a legitimação nos diversos domínios do campo intelectual, inclusive aqueles da esfera privada que não dependiam necessariamente de favores e concessões do poder público para garantir sua subsistência.
Nesse sentido, na medida em que seus vínculos institucionais garantiam os subsídios necessários para a própria manutenção, os escritores modernistas e demais intelectuais dispunham de relativa autonomia em relação ao poder político para realizar sua produção literária, prestar colaborações para a imprensa e atuar em um mercado
24 Informações sobre as carreiras profissionais dos escritores retiradas de capítulos e de tabelas
editorial em vias de expansão. Condição esta contrastante à da geração de escritores associada à República Velha, os quais dependiam diretamente das instituições e grupos das classes dominantes e não raro “viam-se forçados a ajustar-se a gêneros havia pouco importados da imprensa francesa: a reportagem, a entrevista, o inquérito literário e, a crônica” (MICELI, 2001: 17). Assim, segundo Miceli (2001: 79), pode-se afirmar que os grupos sociais de classe média em expansão nos grandes centros industriais e administrativos do país (os funcionários públicos, profissionais do setor terciário, etc.), cujo apoio constituiu uma base social de sustentação do regime, favoreceram a constituição de um mercado de bens culturais dotado de maior autonomia, tanto em relação aos antigos grupos dirigentes e aos seus mecenas privados, como às instâncias políticas e religiosas (o Estado, a Igreja, a grande imprensa etc.) interessadas em impor suas diretrizes à produção cultural.
Ao mesmo tempo em que compunham o corpo de agentes do Estado e ocupavam-se em função das diretrizes e medidas intervencionistas de propósitos nacionalistas do governo na esfera institucional, os escritores modernistas integravam também a linha de frente das lutas literárias contra o academicismo e o formalismo da poesia parnasiana e a favor da construção de uma “identidade nacional” na esfera simbólica. Diferentemente de como ocorreu nos países industrializados, os integrantes do Modernismo no Brasil fizeram coincidir a busca pelo moderno, inspirada nos princípios e modelos estéticos das vanguardas européias (futurismo, cubismo, surrealismo), com um projeto nacionalista, representada pela busca de temáticas e símbolos das origens país. Deste modo, buscavam romper com os elementos culturais associados à ordem política oligárquica vigente nas décadas anteriores e assegurar uma “consciência criadora nacional” (ANDRADE, 1978: 242), com o emprego de signos locais para a decantação de uma arte moderna.
Dentro dos propósitos deste trabalho, convém avaliar a seguir de que maneira a conjuntura política e estrutural resultante do modelo de governo populista engendrou as condições de produção dispostas pelos agentes sociais (literatos, músicos, jornalistas, produtores, etc.) no mercado de bens simbólicos, e, mais especificamente, na produção da gravadora Festa. Além disso, interessa aqui refletir sobre a associação do Estado nacional com o setor privado na implementação de políticas e de fomento às produções culturais que contribuíssem para a integração nacional e “consolidassem” a identidade nacional.