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2.1 Quem é a plebe, a nação e o povo?

2.1.2 Populus e plebs

Na sexta edição do dicionário de Moraes Silva, de 1858, povo e nação são descritos nos seguintes termos: a palavra “nação” indica uma relação comum de nascimento, de origem; e “povo”, uma relação de número e de reunião. A nação é uma dilatada família; o povo é uma grande reunião de seres da mesma espécie. A nação consiste nos descendentes de um mesmo pai, e o povo, na multidão de homens reunidos em um mesmo sítio, em outra acepção, a palavra “nação” compreende os naturais do país; e “povo”, todos os habitantes (PAMPLONA, 2009, p. 164-165). Povo, nesse verbete, aparece com o sentido da população na linguagem contemporânea, enquanto nação remeteria à coleção de indivíduos, o que, hoje em dia, seria remetido ao povo abstrato da Constituição.

Em concordância com o que já foi dito, no século XIX, a nação ainda estava ligada ao sentido local, enquanto, por outro lado, o povo mostrava a mudança semântica operada nesse período: “O povo é uma grande reunião de seres da mesma espécie”, “o povo, na multidão de homens reunidos em um mesmo sítio” e “todos os habitantes”. O problema com dicionários é que eles efetivam uma mudança que, durante os anos da pesquisa, está em plena operação, o que traz uma dificuldade adicional à pesquisa. Se, em 1858, tais termos puderam ser separados com tanta clareza, o mesmo não pode ser dito sobre o período deste estudo, por isso a necessidade de um estudo sincrônico que se preocupe com os debates legislativos do império durante um período restrito de tempo.

37 José Antônio Rodrigues de Carvalho, cearense, foi eleito pela província na constituinte, ocupou cargo de

Uma mudança de entendimento tinha sido operada na questão sobre os sentidos de povo na época da Constituinte. Um problema arqueológico, no sentido proposto por Foucault, viria de localizar uma mudança nas regras pelas quais se regiam os enunciados. A fala do deputado Andrada Machado pode trazer dinâmica ao que se deseja aqui afirmar sobre a ambiguidade de nação e povo no ano de 1823:

Há uma differença entre povo e nação, e se as palavras se confundem a desordem nasce. Nação abrange o soberano e os subditos; povo só compreende os subditos. O soberano é a razão social, colleção das razões individuais; povo é o corpo que obedece á razão. Da confuzão destes dous termos, da amalgamação imphylosophica da soberania e povo, tem dismanado absurdos, que ensanguentárão a Europa e nos ameaçam também; exijo por isso, que se substitua á palavra povo a de nação todas as vezes que se falar em soberania.38

A fala do deputado ilustra o problema desta tese, já que Andrada Machado desejava estabelecer como métrica do debate constituinte a soberania cuja característica é a união das razões individuais. O povo, entendido negativamente nesse trecho, aparece como a plebe que deve obedecer passivamente à razão, o populus.

Tal distinção pode ainda estar se referindo à defesa, pelos monarquistas, de que o povo, representado pela assembleia, não deveria estar no mesmo patamar do soberano. De forma geral, mesmo nos momentos em que povo e nação são confundidos, o aviso de Andrada Machado teve força de se impor como métrica mínima do debate. Observa-se, finalmente, a referência negativa que ele fez ao conceito de povo na França, cuja consequência final teria sido o derrubamento de sangue, referindo-se, provavelmente, à expansão dos movimentos na rua no período do Terror de 1793. A necessidade de desmerecer o povo, nesse trecho, com a conotação de plebe, vem do princípio de que ele não pode exercer o poder por si próprio, pois toda vez que ele o fizer sangue será derramado.

Nas encruzilhadas da formação do Estado brasileiro, os atores políticos, sejam conservadores ou liberais, apelaram para a restrição do povo enquanto ente abstrato distanciado do total da população brasileira, em outros termos, a plebe. Um dos sintomas do debate político era a presença da população no Brasil e a falta de um povo, principalmente quando comparado à Europa em termos idealistas:

É nada comparado a Portugal, isto é, a sua população, porque eu não meço terrenos, meço povos; é um Gigante em Verdade; mas sem braços, nem pernas; não falando no seu clima ardente, e pouco sadio, o Brasil está hoje reduzido a umas poucas hordas de negrinhos, pescados nas Costas d’África.39

No trecho acima, o autor trabalha com a distinção importante entre um terreno imenso nas terras do Brasil, desocupado nos termos do que seria a civilização europeia, em comparação com o valoroso povo português. Segundo Schwartz (2000), desde a colônia, havia um problema em se criar uma comunidade em que habitantes eram culturalmente diferentes, pagãos e escravos. Para os funcionários coloniais, o Brasil tinha uma população, mas não tinha povo.

Embora muitas cartas tenham sido escritas contra essa fala, não discordam sobre o termo “povo” enquanto civilização europeia. O que a defesa argumentava era que essa civilização já estava presente nos trópicos:

A quê? A algumas hordas de Negrinhos pescados na costa d’África. Ora aí está o que é falar! E o que é falar verdade! Segundo a ideia do Senhor Compadre o desgraçado Brasil nada mais tem, do que hordas de Negrinhos! E toda a Real Família, que aqui então se achava? E os empregados públicos? E uma multidão de Europeus aqui estabelecidos? E os seus descendentes o que serão? Hordas de Negrinhos.40

O problema não era necessariamente a ligação negativa aos termos “negros” e “indígenas”, mas a ignorância sobre a quantidade de elementos civilizatórios que estavam no Brasil: “Toda a Real Família”, “os empregados públicos” e “Uma multidão de Europeus aqui estabelecidos”.

Existem cartas, nessa polêmica, que chegam a retomar o valor dos negros e indígenas para a construção do Brasil, contudo tais elementos costumam ser valorizados num futuro distante: “Se não tem aparecido entre os pretos repetidas vezes grandes homens, é porque a condição servil, em que estão postos entre nós lho não consente”.41 No caso de serem

reconhecidos no seu estado atual, eles devem estar adaptados ao padrão civilizatório: “Falo

39 Carta do compadre de Lisboa em resposta a outra do compadre de Belém ou juízo crítico sobre a opinião

pública, dirigida pelo Astro de Lusitânia. Reimpresso no Rio de Janeiro: Tip Real, 1821.

40 Carta, em que defesa dos brasileiros insultados escreve ao sachristão de Carahi o estudante Constitucional,

Amigo do Filho do Compadre do Rio de Janeiro. Por o Estudante Constitucional [Evaristo Ferreira Veiga]. Rio de Janeiro. Na Impressão Nacional. 1821. Fundação Biblioteca Nacional.

41 Carta do Compadre do Rio S. Francisco do Norte, ao Filho do Compadre do Rio de Janeiro, na qual se lhe

queixa do paralelo, que faz dos índios com os cavalos, de não conceder aos homens pretos maior dignidade, que a de reis de Rozario e de asseverar, que o Brasil ainda agora está engatinhando. E crê provar o contrário de tudo isso. Por Joaquim José da Costa de Macedo. Rio de Janeiro. Na Impressão nacional. 1821. Fundação Biblioteca Nacional.

dos cristianizados [...] e sempre os achamos prontos, ou seja para conquistar os índios Selvagens, ou para nos opormos às hostilidades deles”.

Os não cidadãos, indígenas bravos e escravos, eram colocados de lado. O problema, conforme se verá no capítulo 3, é que havia dúvida sobre quem poderia ser colocado no termo da cidadania. Os libertos brasileiros, ou com sinais de ligação com a civilização europeia, poderiam ter direitos individuais. O limite tênue entre a não cidadania e a plebe foi reforçada pela necessidade de colocar o Brasil numa narrativa coerente com o resto dos países.

Uma particularidade do Iluminismo é a existência de diferentes períodos da história coexistindo. A criação de um conceito unificado de história permite que o mundo seja dividido em diferentes estágios da civilização. O debate pode, dessa maneira, ser visto como uma desavença sobre a etapa que o Brasil vivia na corrente do progresso, mas o avanço da civilização em si não era colocado em xeque. O grande obstáculo brasileiro, segundo as elites políticas, era como se adaptar aos requerimentos do progresso num país cujos elementos, como indígenas e africanos, não podiam fazer parte dessa narrativa.

A tese de Rauter (2011) traça o começo do desdobramento da diferença entre os sentidos de povo. Na colônia, povo era entendido no contexto da linguagem do Antigo Regime: uma hierarquia fundada numa ordem universal imutável cujas partes ou órgãos tinham responsabilidades, privilégios e deveres. O povo legítimo, representado pelas câmaras locais, era restrito aos proprietários brancos, ou seja, os “homens bons” de cada província. A divisão clássica do Antigo Regime – clero, nobreza e povo – não funcionava para os trópicos, pois a nomenclatura “povo” não poderia incluir indígenas, africanos e escravos libertos:

Pouco se esperava dessa população tão insubordinada, e essa desconfiança se refletia na transformação do terceiro estado, que de “povo” passa a ser “Plebe” [...]. Se durante o século XVI, a representação do “povo” era frequentemente positiva e a posição política do terceiro estado era codificada por meio da sua participação nas cortes [...] no século XVIII o termo “Plebe” começou a aparecer cada vez mais enquanto descrição pejorativa da população brasileira. (SCHWARTZ, 2000, p. 119)

A própria lógica do Antigo Regime não funcionaria perfeitamente no contexto dos trópicos pela presença da escravidão, uma vez que os escravos não seriam adicionados em qualquer um dos três estamentos: “A generalização do escravismo resultava na erosão do sistema estamental, posto que o escravismo inviabilizava a participação do portador desta condição na complexa tessitura de liberdades desiguais cuja trama tinha por pressuposto o exercício de algum direito” (JANCSÓ E PIMENTA, 2000, p. 141).

No decorrer do século XIX, houve expansão das nomenclaturas raciais, o que ocasionou uma necessidade de restringir a noção do povo. O surgimento de inúmeros novos grupos sociais forçou um processo de pluralização de estamentos. No interior do povo, cada vez mais, “passaram a existir os limpos e os vis” (ou plebe) (RAUTER, 2011, p. 205). O termo “povo”, na acepção de populus, foi exponencialmente diferenciado da plebe. Segundo Schwartz e Lockhart (2002), a lógica sobre a nomenclatura colonial tornou-se crescentemente complexa à luz da mestiçagem e ascensão social de pessoas nascidas nas colônias, o que acarretou um direcionamento das metrópoles em reafirmar nobrezas próprias.

A independência costuma ser vista como uma vitória das elites nacionais em oposição à metrópole, mas percebe-se que tal reafirmação das distinções sociais não é superada pela independência. As continuidades são marcantes na necessidade de distinguir a plebe. No período estudado, primeiro reinado, plebe e população tinham sentidos análogos distanciados da soberania do povo legítimo no sentido de populus.