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4 A PALAVRA, A AUTORIDADE E O SUJEITO CONTEMPORÂNEO

4.3 ESVAZIAMENTO DA AUTORIDADE DA PALAVRA

4.3.3 Por que esvaziamento e não perda da autoridade?

A discussão acerca da perda da autoridade da palavra surge, como já indicamos na introdução, da conjectura oferecida por Dufour (2005a).

Subtrair-se à autoridade da palavra conduz, pois, a se subtrair ao mesmo tempo à escrita que leva os seres falantes para os múltiplos aspectos do enigma de sua condição. Inaugura-se, pois, um triste destino para esses novos alunos mal instalados na função simbólica: eles se encontram de algum modo privados de enigma. (p.135).

Foi essa afirmação que nos instigou a pesquisar e indagar: haverá esvaziamento da autoridade da palavra do professor? O que significa dizer isso e quais fatores contribuíram para tal esvaziamento?

Ao darmos início à discussão sobre a perda da autoridade da palavra, logo tratamos de colocar em outros termos, pois, se algo acontece com a autoridade da palavra, recusamos a ideia de perda, tratando-a como um esvaziamento.

Substituir a palavra perda pela palavra esvaziamento de maneira alguma se propõe a dar fim à discussão, ao contrário, a inicia de um ângulo diferente, introduzindo a ideia de que um esvaziamento é um processo que permite reversibilidade, ou em outras palavras que tem uma elasticidade, ao contrário da palavra perda, que é definitiva e brusca, diferentemente de processual.

Neste cenário que se configura, chegamos a questionar como poderia o professor contemporâneo sustentar sua prática frente a uma sociedade que, segundo Dufour (2005a),

aparentemente encontra-se na perda da autoridade da palavra, sendo que ele define a palavra como possuidora em si mesma de uma autoridade. Tal colocação foi transportada de outro autor, Maurice Blachot: “La parole est toujours parole d’autorité (parler, c’est toujours parler selon l’autorité de la parole)”(1973, p.67). Segundo Blanchot, falar é sempre falar segundo a autoridade da palavra e Dufour (2005a) se utiliza desta afirmação para sustentar suas hipóteses, defendendo que a autoridade nunca é a autoridade de alguém, é, no entanto, o que estaria implicado pelo acesso à função simbólica (p.134), “[...] o que nos faz nos tornarmos sujeito falante no momento mesmo que nos tornamos objeto, até mesmo servo da linguagem” (p.134), ou seja, o que nos diferencia dos animais:

O universo simbólico refere-se à capacidade essencial que distingue o homem dos animais: a de falar, identificando-se a si próprio como sujeito falante e dirigindo-se a seus semelhantes a partir dessa referência, enviando- lhes sinais que supostamente representam alguma coisa. Para ter acesso à função simbólica, basta fazer seu, integrando-o, um sistema onde o "eu" (presente) fala a "você" (co-presente) sobre "ele" (o ausente, ou seja, alguém ou alguma coisa que se trata de re-presentar). (DUFOUR, 2001)23.

Falar segundo a autoridade da palavra, seria, então, falar instalado na função simbólica, ou seja, falar de representações, a própria fala inconsciente. Podemos inferir que a autoridade para Dufour se relaciona com o momento de passagem para a cultura, a entrada no Simbólico, saindo de uma relação Imaginária de completude. O autor considera que se essa passagem hoje não é feita, a palavra perde seu peso e assim alunos “mal-instalados” na função simbólica, ou seja, que não fizeram essa passagem, não conseguem se colocar no lugar de alunos, não tem firmados que existe o lugar que fala e o lugar que escuta, impedindo que enganchem na palavra do outro, ou, em outras palavras, que enganchem na cultura.

Relacionando as afirmações de Dufour e Blachot podemos relacionar a autoridade da palavra com a fala vazia de Lacan. Sendo a palavra sempre palavra de autoridade, como determinou Dufour, podemos pensar que há sempre um efeito que a palavra produz no outro e em nós mesmos. Ao que nos parece, Dufour detecta que este processo – da palavra sempre causar um efeito – está hoje fadado ao fracasso, já que percebe, especialmente na escola, que a reação mais comum dos alunos à palavra dos professores é a apatia e o enfraquecimento da função crítica, que nada mais é do que dois lados da mesma moeda: não há enigma, portanto, não há nada a ser desvendado.

Se pensarmos que a palavra é essencial ao professor para, de alguma forma, alcançar o aluno (em seu desejo), tornar-se-á dificultosa sua tarefa ao se deparar com o esvaziamento da

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autoridade da palavra, ou seja, a palavra não teria efeito sobre o sujeito, não chegaria mais da mesma forma para este. Lajonquière (2011) aponta que o fato de não nos relacionarmos com a palavra é um desejo de não desejar (p.120), ou seja, é um rechaçamento do desejo. Ora, o esvaziamento da palavra denuncia algo na mudança no discurso (como laço social) e consequentemente no modo de funcionar do sujeito.

A autoridade, para Dufour (2005a), é o enredamento dos sujeitos no “fio do discurso”. Os alunos de hoje “[...] sentem a maior dificuldade em se integrar no fio de um discurso que distribui alternativamente e imperativamente cada um em seu lugar: aquele que fala e aquele que escuta” (p.134), ou seja, enredá-los no fio do discurso seria uma forma de implicá-los na fala; falados pelo Outro24 como sendo aqueles que aqui chegaram depois. Seguindo esta linha de pensamento, caberia aos professores transmitir aos novos por nascimento algo da cultura, das instâncias coletivas e que supostamente permitiria o acesso à função simbólica.

A função simbólica que Dufour discute não é totalmente equivalente ao registro Simbólico calcado por Lacan, tendo em vista que Dufour, ao falar da função simbólica, não faz referência a Lacan. O que o autor chama de função simbólica, nesse caso, se dá pelo discurso, pela transmissão de narrativas, transmissão do dom da palavra, para assim fazer o sujeito identificar-se e situar os outros a seu redor, ou seja, instituir-se como sujeito falante, ou ainda em outras palavras, à medida que conhece o comum e se diferencia pelo seu desejo. Todo esse percurso acontece por meio do discurso, antes e ainda hoje. Fazendo com que nos perguntemos: o que teria mudado no discurso a ponto de influenciar a função simbólica?

O autor defende que uma das razões para essa mudança é a exposição maciça das crianças à imagem da televisão, que substituiu as conversas dentro de casa, e é por meio da conversa entre pais e filhos que se transmite a herança cultural. A televisão não possibilita a transmissão do dom (DUFOUR, 2005a, p.129). Esse “dom” é o de transmitir a palavra, levada a cabo pelo discurso oral frente a frente, do velho frente ao novo, aquele discurso que sustenta a diferença geracional. Sobre a presença bastante precoce da televisão na vida das crianças, constata: “A inundação do espaço familiar por essa torneira permanentemente aberta, de onde escorre um fluxo ininterrupto de imagens, tem efeitos consideráveis na formação do futuro sujeito” (DUFOUR, 2001)25

A mudança se configura aparentemente pela relação de uns com os outros, ou seja, se o sujeito moderno influenciado pelo capitalismo se tornou também mero objeto e as pessoas

24 Ao escrevermos Outro com letra maiúscula estamos nos referindo ao grande Outro formulado por Lacan, que

seria, nas palavras de Kupfer, a “dimensão simbólica do campo social” (2007a, p.143)

só conseguem se comunicar através dos objetos, perde-se algo relacionado à palavra vazia de Lacan. Segundo este circuito, a palavra está para além da fala, naquilo que escapa, nos elementos surpresa, nos tropeços e essa característica é própria dos sujeitos e não das coisas ou dos objetos. Perder esse traço da palavra acaba por esvaziar ela mesma, num sentido paradoxal, pois a palavra vazia de Lacan seria o contrário de uma palavra esvaziada, precisamos deixar bem claro. O esvaziamento da autoridade da palavra denota portanto o esvaziamento do peso da palavra.

É digno de nota o que alerta Lajonquière: “[...]é impossível que um bebê seja, no limite, criado, educado à distância por videoconferências, por mais coloridas e interativas que elas possam ser para, assim, ele virar mais um ‘formado’ da família sapiens”. (2011, p.124)

Assim como a invenção do livro processou mudanças importantes nas formas de simbolização, a entrada da televisão – e também de todos os aparatos eletrônicos na vida da família – instalou uma nova forma de comunicar-se e tal fato tem efeitos consideráveis nas relações dos sujeitos, já que, como mencionado anteriormente, houve uma mudança na transmissão de valores que cabem a cada família (que situa “Joana da Silva” numa família e não em outra) pela transmissão televisiva, que deixa os sujeitos quietos, lhes permite fechar em si mesmos, sem que se preocupem e se incomodem com o outro ao seu lado. Dufour chega a chamar a exposição à televisão de “consumo de imagens”. Exposição que, ao mesmo tempo que fala com todos, não dirige a palavra a ninguém – esta seria a função da televisão, atingir somente aquilo que todo sujeito quer sanar, sua falta. Ou seja, ocupar esse espaço com o qual o novo sujeito não quer entrar em contato. Deixar esse espaço é importante, pois a falta não se trata de insuficiência, mas sim “[...]lança o sujeito na busca do que falta para a realização de seu desejo, e o movimenta incessantemente.” (KUPFER, 1999, p.87). É nesse sentido que nos referimos ao mencionarmos o engessamento do sujeito pela influência da televisão e do consumo: visa a suturar a falta, barrando a movimentação do sujeito.

Não poderíamos nesse caso nomeá-la de transmissão televisiva, mas sim, pensar em consonância com Dufour, em um consumo exacerbado de imagens, que enuncia claramente: “não há mais impossível” (MELMAN,2008, p.17).

Essas tecnologias oferecem ao sujeito novas dimensões lúdicas na medida em que ele pode pôr em jogo, no pleno sentido do termo, as referências simbólicas nas quais está construída sua própria evidência (“eu”, no cruzamento de um “aqui” com um “agora”). (DUFOUR, 2005a, p.129). Segundo Dufour (2005a), para que o sujeito possa ‘pôr em jogo’ suas referências simbólicas, essas devem estar bem fixadas pela troca discursiva. Ou seja, toda a influência

imagética de consumo e violência que a televisão veicula – como toda nova prática de linguagem – produz transformações, mas se as referências simbólicas estiverem firmadas, o sujeito é capaz de retranscrever essas imagens em discurso. É fato que o conteúdo veiculado na televisão para o grande público oferece um mundo fragmentado e desarticulado, mas, talvez, ainda nos seja difícil indicar os efeitos que isso pode ter na educação das crianças.

O filósofo é bastante categórico com relação à influência negativa que a televisão causa nas crianças, afirmando acontecer um “embrutecimento” dessas devido ao “empanturramento” causado pela “telinha”. Para ele, a televisão está instalada em um “[...]lugar preponderante ocupado por uma publicidade onipresente e agressiva, constitui uma autêntica submissão precoce ao consumo” (DUFOUR, 2001)26.

Os alunos, precariamente instalados na função simbólica, estão privados de enigma que, a nosso ver, seria resultado de um discurso privado de desejo e que não instaura a pergunta sobre o outro. Sobre o enigma, Lacan lembra que é um semidizer, algo que só pode ser dito pela metade, como aquilo que dá possibilidade de ser elucidado, coloca dúvidas. Essas crianças, como consequência, têm dificuldade de participar do discurso da escola.

Em certo ponto, o autor retoma Hannah Arendt para justificar tais acontecimentos, utilizando como argumento a perda da autoridade e a não responsabilização dos adultos. O autor insiste em dizer que é a autoridade que permite aos velhos introduzir o mundo aos novos por nascimento e que paira uma recusa por parte dos adultos em assumir este posto de responsabilização. A visão de Arendt é um tanto catastrófica sobre as consequências da perda da autoridade e vemos também em Dufour indícios de um destino inelutável da educação: o fracasso.

Podemos supor que existe um declínio da autoridade como era conhecida outrora, porém ela tomou muito provavelmente outra forma. Temos que concordar com os dois autores ao defenderem que não seria aceitável colocar no lugar da autoridade a igualdade, nem a coerção, tampouco a persuasão, pois isso seria uma maneira autoritária de trazer ordem ou, em uma análise mais atenta, um modo sedutor dos adultos conseguirem com que os jovens façam o que eles querem, entregando-lhes a culpa do declínio da autoridade. Ou seja, não seria viável a um professor utilizar-se a todo tempo da persuasão para convencer seus alunos de que sua disciplina é importante e interessante. Tampouco seria plausível conversar com seus alunos e chegar a um consenso da melhor forma de passar seus conhecimentos.

Parece-nos que o discurso da Pedagogia vem sustentando esta iniciativa (mesmo que inconscientemente) há muito tempo.

Não se trata da retomada ou resgate das antigas (muitas vezes ditas tradicionais) formas de ensinar e da autoridade. Acreditamos que a autoridade (que já é outra) pode estar na palavra, como um enigma. O que nos preocupa é o esvaziamento desse enigma, causado por tantos discursos lançados na educação com vistas a tornar científico o ato de educar. Vemos a palavra do professor (e poderíamos dizer do aluno também) cada vez mais esvaziada de enigmas que permitam enganches do outro. O sujeito contemporâneo parece falar do outro para o outro, tentando capturar, saber o que este outro quer ouvir, em vez de falar de si mesmo e dar a oportunidade para que o outro desvende.

É por este motivo que, ao entrarmos em contato com as ideias de Dufour, especialmente sobre a perda da autoridade da palavra, optamos por nomeá-la de esvaziamento da autoridade da palavra para que possamos pensar a elasticidade de um esvaziamento, ou seja, de que ainda existe algo da autoridade da palavra, pois, se não fosse assim, não teríamos alunos que engancham na palavra e conseguem superar a escola, tornando-se estudiosos e interessados no que a escola propõe.

Outra forma de enxergarmos o esvaziamento da autoridade da palavra seria pensarmos este esvaziamento como uma passagem da palavra que tudo quer significar para uma palavra mais enigmática, o esvaziamento da exclusividade do registro Simbólico como o que pode dar conta de tudo, a mudança do entendimento da palavra apenas como aquela que faz sentido. Saindo, portanto, do circuito de procurar a Verdade e aceitar que a Educação só poderá nos dar meias verdades. Deixando, assim, de acreditar que é através da prevalência do Simbólico que se chegará à Verdade. Sair do Simbólico que captura somente o Imaginário e ir para um Simbólico que também capture o Real. Exatamente porque o Real da escola escapa. Os professores escapam de seus encontros com o Real, chamando os também famigerados especialistas para lidar com as questões de seu dia a dia ou solicitando cursos de formação continuada, pois declaram não poder lidar com determinada situação ou criança por não terem conhecimento sobre aquilo. O conteúdo veiculado nas mídias reafirma a posição do professor como aquele que não sabe sobre sua prática. Para exemplificar, retomemos uma vez mais o artigo da Revista Nova Escola sobre indisciplina: “As estratégias usadas atualmente por parte dos professores para lidar com a indisciplina estão na contramão do que os especialistas apontam ser o mais adequado.” (MOÇO, 2009)27.

Esta seria a posição a ser modificada: não é porque se tem conhecimento sobre algo que se saberá lidar com aquilo, lidar com situações cotidianas do professor requer elaboração psíquica. Sendo assim, [...] será necessário estabelecermos novas formas de vínculo social para que algo da autoridade política do professor seja restituída ou que, uma vez deslocada, seja considerada na experiência”. (PEREIRA, 2009, p.23).

4.4 DISCURSO DA CIÊNCIA COMO UMA NOVA FORMA DE SE RELACIONAR COM