• Nenhum resultado encontrado

3.4. Acessibilidade em sistemas de informação

3.4.6. Por que o modelo de acessibilidade da W3C é falho?

Ainda que no futuro as WCAG 2.0 sejam aceitas pela comunidade de desenvolvedores Web tanto quanto atualmente são aceitas as WCAG 1.0, fortes questionamentos a respeito do modelo de acessibilidade da W3C vieram à tona nos últimos anos.

O modelo de acessibilidade da W3C é sustentado por três alicerces, ou três conjuntos de guidelines. O primeiro alicerce é exatamente as guidelines para conteúdo Web, as WCAG. As ATAG representam o segundo alicerce ao tratar de como as ferramentas de autoria para Web deveriam auxiliar a produção de conteúdo Web acessível, ou seja, conteúdo condizente com as WCAG. Finalmente, o terceiro alicerce são as UAAG, que tratam de como os navegadores e tecnologias assistivas podem fazer uso das WCAG para entregar conteúdo acessível aos usuários. O diagrama da Figura 3.5 mostra a relação entre os alicerces e entre conteúdo Web, ferramentas de autoria e navegadores e tecnologias assistivas.

71

Kelly et al. (2007) analisaram este modelo de acessibilidade da W3C. Segundo eles, para que um site na Web seja acessível de acordo com tal modelo, é preciso que o autor do conteúdo tenha gerado conteúdo acessível segundo as WCAG de alguma maneira, mesmo que sua ferramenta de autoria não seja completamente aderente às ATAG. Ainda, é preciso que o usuário final tenha à sua disposição um navegador e/ou tecnologias assistivas capazes de usufruir deste conteúdo em conformidade com as WCAG, isto é, o navegador e as tecnologias assistivas do usuário devem ter conformidade com as UAAG, o que nem sempre pode ser garantido uma vez que estas condições estão fora do controle dos desenvolvedores Web (Kelly et al., 2007).

É notável o papel central que as WCAG possuem no modelo de acessibilidade da W3C – sem dúvida alguma, as WCAG são o principal alicerce do modelo. E, assim sendo, as WCAG são de importância para todos, tanto para usuários quanto para desenvolvedores de tecnologias assistivas, desenvolvedores de navegadores e para autores de conteúdo Web. Adicionalmente, as WCAG deveriam refletir boas práticas para se obter um design acessível para todos na Web. No entanto, como salienta Kelly et al. (2007), não há força de evidência (isto é, indicativo de credibilidade e de validade) para as WCAG que garantam que a conformidade com elas resulte efetivamente em um design acessível para a Web. Além disso, completa Kelly et al., todo o processo de elaboração das WCAG, tanto da versão 1.0 quanto da versão 2.0, foi muito pouco transparente. Para Kelly et al., o processo adotado pela W3C deveria ser similar ao adotado no usability.gov (2006), no qual mais de 500 princípios de design foram extraídos de estudos previamente publicados a respeito de usabilidade e discutidos entre diversos especialistas, que avaliaram tanto a importância de cada um dos princípios quanto a força de evidência.

Outro aspecto levantado por Kelly et al. (2007) é quanto ao contexto do uso de uma aplicação na Web. Certamente, a acessibilidade em diferentes contextos (cultural, artístico, educacional, etc.) e para diferentes audiências pode e deve ter diferentes maneiras de ser trabalhada, o que não é compreendido pelas WCAG. Por exemplo, em um exercício no qual um professor propõe aos seus alunos a análise e a interpretação de uma gravura na Web, pode não ser apropriado ou pode ser uma tarefa muito difícil inserir um equivalente textual ou uma descrição para a gravura sem que isto influencie a própria interpretação dos alunos,

72

videntes ou não videntes. Ou a descrição textual da gravura para alunos não videntes pode não ser suficiente para que eles façam uma análise e interpretação da mesma forma que fariam os alunos videntes. Assim, para Kelly et al. (2007), o ideal seria ter outra forma na qual alunos com deficiências visuais consigam também participar deste tipo de atividade, mesmo que seja utilizando recursos que não estão na Web, como gravuras em alto relevo, por exemplo. Se as WCAG fossem levadas em consideração, no entanto, esta gravura na Web teria obrigatoriamente que possuir um equivalente textual associado.

Em outro artigo, Kelly et al. (2005) analisaram diversos estudos de acessibilidade de sites do Reino Unido e constataram que os níveis de conformidade com as WCAG 1.0 são bem decepcionantes, sendo que nenhum estudo relatou mais do que 6 % dos sites com nível de conformidade AA. Procurando por justificativas para este fato, extraíram de fóruns e listas de discussão as opiniões e queixas de desenvolvedores Web sobre as WCAG 1.0, condensadas na lista a seguir (Kelly et al., 2005):

• Natureza teórica das WCAG 1.0, que é unicamente baseada na visão da Web da W3C e ignora tecnologias de terceiros amplamente adotadas na Web, como Flash, GIF e PDF.

• Natureza fechada das WCAG 1.0. Por ter uma visão restrita às tecnologias e padrões definidos pela própria W3C, as soluções de acessibilidade propostas nas WCAG 1.0 são sempre baseadas no conteúdo da página Web e sequer considera possíveis funcionalidades de acessibilidade presentes no sistema operacional.

• Dependência de outras guidelines (ATAG e UAAG), conforme já explicitado anteriormente.

• Complexidade das guidelines. A compreensão das mesmas não é uma tarefa fácil e a quantidade de documentos para suportar as WCAG 1.0 dá uma idéia da dificuldade. Cooper e Rejmer (2001) também identificaram a dificuldade em encontrar informação nas WCAG 1.0 e navegar entre e nos documentos que circundam as WCAG 1.0.

• Falhas lógicas das guidelines. Não bastasse o texto complexo, existem falhas lógicas nas WCAG 1.0. Por exemplo, o checkpoint 11.1, de prioridade 2, recomenda

73

usar tecnologias W3C quando disponíveis e apropriadas para uma tarefa. Assim, ao invés de usar o formato GIF para imagens, que é proprietário e não definido pela W3C, uma página Web poderia ser obrigada a usar o formato PNG, que foi estabelecido pela W3C. Todavia, não existe qualquer evidência de que um determinado formato de imagem é melhor ou pior para a acessibilidade de uma página Web.

• Nível de entendimento sobre questões de acessibilidade. Nem todos os desenvolvedores ou Web designers são ou serão especialistas em acessibilidade e tecnologias assistivas, mas necessitam de guias claros e diretos sobre como fazer sites acessíveis. Trata-se de uma expectativa exagerada supor que qualquer um diretamente trabalhando no desenvolvimento de sites entenderá não apenas as WCAG, mas também como as WCAG interagem com outras guidelines da W3C e com tecnologias assistivas.

Alguns autores também apresentam que, para assegurar um bom nível de acessibilidade, apenas guidelines como as WCAG 1.0, que são baseadas em tecnologias, não são suficientes. É preciso também entender os usuários e como eles navegam pelos sites (Theofanos e Redish, 2003).

Finalmente, um fato curioso é que, atualmente, diversas empresas e organizações dão algum tipo de suporte à WAI e seus conjuntos de guidelines, como a Microsoft e a IBM. Entretanto, poucas delas adotaram as WCAG ou as ATAG em seus sites ou ferramentas de autoria para a Web.