1 A TEIA UMA TEORIA DA PRISÃO
3.4 Por um fio possível de liberdade e de subjetividade
Quando pensamos na prática da leitura, nos aproximamos imediatamente do seu caráter subjetivo e nos interrogamos: ―O que acontece quando lemos um livro? Quais as sensações, as impressões que a leitura suscita em nós?‖ Em resposta a estas perguntas, Jauss (1979) vai dizer que o texto permite a ―fruição estética‖ – uma experiência particular – descrita por Barthes (1980) como um colocar-se em estado de perda, de desconforto, abalando convicções históricas, psicológicas, seus valores. Em convergência com a Estética da Recepção, o escritor francês vai dizer que o leitor se
coloca em crise, e nesta condição, é libertado pelo imaginário de tudo aquilo que o prende a uma realidade de vida, muitas vezes, constrangedora.
Nesta mesma direção, Sartre (1996), em sua obra O imaginário, mostra que a consciência ―imaginante‖, de fato, conduz o leitor a uma sensação dupla de liberdade e de criatividade. Contudo, para que isso ocorra, é necessária a ―aniquilação‖ do mundo do qual o sujeito deve se afastar, e, por conseguinte, a criação de um mundo novo em substituição ao primeiro.
Desta forma, percebemos que as ideias de Jauss estão alinhadas à proposta de Sartre, no momento em que o estudioso alemão afirma que a leitura, como experiência estética, resulta sempre ―tanto libertação de alguma coisa, quanto libertação para alguma coisa‖. Se por um lado, a leitura permite ao leitor desprender-se das incongruências de uma vida real; por outro, ao se deslocar para o universo textual, o leitor renova sua percepção do mundo. Neste novo contexto, o leitor tem a impressão de escapar de si próprio, ao mesmo tempo, em que se abre também para uma experiência de alteridade.
Ler, portanto, torna-se uma viagem. Percebemos a confluência destas ideias, na obra A leitura de Vincent Jouve (2002, p.108), quando o autor, ao sintetizar o ato da leitura, o compreende como uma entrada insólita em outra dimensão que, na maioria das vezes, enriquece a experiência, e permite ao leitor, num primeiro momento, escapar desta realidade para o universo da ficção, e num segundo momento, de maneira ainda mais surpreendente, voltar ao real, nutrido do fictício. É neste vaivém que o autor esclarece a questão:
Ao ler um romance, aceitamos esquecer por um tempo a realidade que nos cerca para nos ligarmos novamente com a vida da infância na qual histórias e lendas eram tão presentes. Ao acordar o eu imaginário, normalmente adormecido no adulto acordado, a leitura nos leva de volta ao passado. (JOUVE, 2002, p.115).
Percebemos, assim, que o imaginário de cada leitor tem um papel tal na representação que poderíamos quase falar de uma ―presença‖ da personagem no interior deste leitor. E essa sensação de consubstancialidade entre o sujeito que lê e a personagem representada, não poderia jamais ser dada sob nenhuma ótica, que não esta agora citada. Pensando, então, na força de toda esta energia psíquica, Jouve (2002) afirma que o leitor, neste processo, assemelha-se a um sonhador. E quando pensamos, então, a leitura, a partir de uma dimensão onírica, vimos que, a princípio, ela é
fundamentada numa imobilidade relativa, uma espécie de vigilância restrita (inexistente para aquele que dorme) e, posteriormente, ocorre uma suspensão da postura ativa em favor de uma mais receptiva.
Neste contexto, é certo que o texto atue sobre o leitor, exercendo uma influência concreta (confirmando ou modificando as atitudes e práticas imediatas do leitor). Não se pode, assim, na experiência literária, negligenciar a dimensão estratégica textual que, para além dos desafios de emocionar e distrair, considerados prazeres explícitos, esconde os verdadeiros desafios de informar e convencer, considerados performáticos. A leitura, portanto, no que diz respeito aos desafios performáticos do texto, nunca pode ser considerada uma atividade neutra. (JOUVE, 2002, p.123).
Viver um texto, evidentemente, não consiste em conformar-se diante do que se pode ler nele, como por exemplo, incorporar a ideia de que viver com Sade é se tornar sádico. Significa, contudo, importar para sua vida fórmulas emprestadas da obra lida. Neste sentido, o impacto da leitura na existência do sujeito é mais real do que se imagina. É de fato a ―significação‖ da obra – definida como a passagem do texto para a realidade – é o que faz da leitura uma experiência concreta. Assim, o que a maioria dos leitores busca não é uma experiência desestabilizante, mas, ao contrário, uma confirmação daquilo que eles acreditam, em resposta às suas próprias expectativas. (JOUVE, 2002, p.129).
Alinhando o discurso a esta perspectiva emancipatória e mundivivencial, é que tomamos assento nos estudos de Jouve (2002, p.18), para compreender melhor este processo ―neurofisiológico‖ da experiência literária, diretamente, relacionado a faculdades humanas, de certa maneira, compreendidas no seu espectro físico e sensorial e dividido, segundo classificação do autor, em cinco dimensões. A leitura, nesta perspectiva, manifesta-se como uma operação de percepção, de identificação e de memorização de signos e, portanto, é compreendida como um fenômeno fortemente subjetivo. Assim, a partir desta concepção concreta, a leitura é compreendida como uma atividade de ―antecipação, estruturação e de interpretação‖.
Começando pela ―antecipação e a simplificação‖, estas atividades são compreendidas como dois reflexos básicos da leitura, explicados a partir do princípio essencial da troca linguística no qual o destinatário para entender um enunciado, precisa reconhecer nele uma intenção. Assim, ao abrir o livro, o leitor constrói uma hipótese global do texto, antecipando e simplificando o conteúdo narrativo. (JOUVE, 2002, p.75).
Uma dimensão importante aqui a se considerar é a ―afetiva‖ que, segundo o mesmo autor, confere um certo charme à leitura. Assim, a partir desta percepção, a recepção do texto recorre às capacidades reflexivas do leitor que são igualmente influenciadas por sua afetividade. A emoção é o que o autor considera o princípio de identificação, motor essencial da leitura de ficção por provocar admiração, piedade, riso ou mesmo simpatia. Neste sentido, ―o papel das emoções no ato da leitura é fácil de entender‖, uma vez que “prender-se a uma personagem é interessar-se pelo que lhe acontece, isto é, pela narrativa que a coloca em cena‖. Assim, expulsar a identificação da experiência estética, e consequentemente, o emocional, é condená-la ao fracasso. Fica evidente a sua relação de dependência com a subjetividade do leitor.
Noutra dimensão, chamada de processo argumentativo, a intenção de convencer está presente em toda narrativa. Jouve (2002) explica que o texto é sempre analisável quando resultado de uma vontade criadora, conjunto organizado de elementos, mesmo no caso das narrativas em terceira pessoa, como ―discurso‖, representa o engajamento do autor perante o mundo e os seres. Enfim, qualquer que seja o tipo de texto, o leitor, mesmo que nitidamente ou não, sofre atração por ele, e de certa maneira é sempre interpelado, havendo assim, uma interlocução.
Por último, Jouve (2002) ressalta o processo simbólico como outra dimensão, na qual se infere que toda leitura interage com a cultura e os esquemas dominantes de um meio e de uma época. A leitura afirma, neste aspecto, sua dimensão simbólica agindo nos modelos do imaginário coletivo, independente, da sua recusa ou da sua aceitação. Nesta construção, o livro se abre para uma pluralidade de interpretações, já que cada leitor traz consigo sua experiência, sua cultura e os valores de sua época. É certo que o texto alarga o horizonte do leitor, abrindo-lhe um universo novo. Vimos que a ―descontextualização‖ da mensagem escrita é de fato, a condição plural do texto. (JOUVE, 2002, p.25).
É obvio, contudo, que a condição plural de um texto, não legitima qualquer leitura realizada pelo leitor. Sabemos que a recepção é, em grande parte, programada pelo texto. E seria um equívoco pensar que o leitor pode tudo. Segundo Humberto Eco (1985), o leitor tem seus ―deveres filológicos‖, cabendo a ele a tarefa de identificar, de maneira mais precisa as coordenadas do autor. Existe de fato, como nota Eco (1985), uma diferença essencial entre ―utilizar‖ um texto (desnaturá-lo) e ―interpretar‖ um texto (aceitar o tipo de leitura que ele programa), embora seja o universo textual um produto
inacabado, e seja imprescindível a participação do destinatário. De certo modo, nem todas as leituras, podem ser consideradas legítimas. (apud JOUVE, 2002, p.61).
Assim, a recepção de um texto pode ser percebida, a partir de dois polos: o de espaços de certeza e o de espaços de incerteza. É perceptível tal condução textual, quando o leitor se mostra, ao mesmo tempo, ―orientado‖ e ―livre‖. Os espaços de certeza são pontos de ancoragem da leitura considerados mais explícitos – a partir dos quais se entrevê o sentido global do texto. Já os espaços de incerteza, remetem a todas as passagens obscuras ou ambíguas que exigem a participação do leitor para seu deciframento. Desta forma, temos na leitura duas dimensões: uma programada pelo texto e a outra, advinda do leitor. É nesta medida que se constitui o ―pacto de leitura‖, quando o texto programa sua recepção, a partir de um certo número de convenções propostas ao leitor. (JOUVE, 2002, p.66-67).
O leitor, ao longo da história da leitura, assumiu uma postura, muitas vezes, subversiva ao não ceder à proposta imposta pelo livro. Entretanto, sua liberdade não pode ser considerada absoluta, já que existiam limitações nascidas das suas capacidades, convenções e hábitos em sua prática de leitura. De toda sorte, o comportamento do leitor assumiu uma nova postura, no tempo e no espaço, influenciando seu modo de ler. (CHARTIER, 1998, p.77).
Com isso, o leitor escapou de uma condição marginal e pode, enfim, ser colocado no centro do debate. Em breves palavras, a leitura tornou sua condição singular e esta singularidade foi atravessada por aquilo que o fez semelhante a todos aqueles que pertenciam à mesma comunidade. (CHARTIER, 1998, p.91).
De fato, a liberdade pela fruição literária abriu uma nova dimensão ao leitor – o imaginário – a partir desta condição, todo o processo subjetivo desaguou nas emoções, nas relações de afetividade proporcionada pelo texto. A descrição do processo neurofisiológico da experiência literária dá conta desse mundo entreaberto que permite ao leitor escapar de si próprio.