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Porfirinas como quimiossensores óticos de iões metálicos

3. Estudos de interação entre sistemas multiporfirínicos e iões

3.1.2. Porfirinas como quimiossensores óticos de iões metálicos

A complexação de porfirinas com iões metálicos pode ser aplicada na determinação desses iões quando as propriedades óticas das porfirinas na sua forma livre e complexada são diferentes, possibilitando a distinção entre as duas espécies. Tal facto fez com que nos últimos anos vários trabalhos tenham abordado a utilização de macrociclos porfirínicos como ionóforos na preparação de novos quimiossensores óticos.

Macrociclos porfirínicos sintetizados diretamente pelo método da condensação de pirrol com um aldeído, como a TPP, a meso-tetraquis(p-dimetilaminofenil)porfirina e a

meso-tetraquis(N-fenilpirazolil)porfirina imobilizadas numa membrana foram testados

como quimiossensores de iões metálicos e mostraram seletividade para o ião Hg2+. Das três

porfirinas testadas, a meso-tetraquis(p-dimetilaminofenil)porfirina foi a mais eficiente na

resposta ao Hg2+, com uma acentuada diminuição da emissão.188,189 Para além destes, outros

macrociclos porfirínicos foram testados usando abordagens diferentes, nomeadamente a 5,10,15,20-tetraquis(4-carboxifenil)porfirina imobilizada em sílica e a 5,10,15,20-

tetraquis(4-metoxifenil)porfirina em solução.190,191 Enquanto que a porfirina contendo

grupos carboxílicos imobilizada em sílica mostrou ser capaz de diferenciar os iões Cu2+,

Zn2+, Pb2+ e Ni2+, a 5,10,15,20-tetraquis(4-metoxifenil)porfirina mostrou seletividade para o

ião Ag+.

Outro estudo importante na construção de quimiossensores no estado sólido consistiu na preparação de um filme polimérico anfifílico de um derivado de porfirina, que mostrou

seletividade para o ião Hg2+ na presença de Cu2+, Cd2+, Pb2+ e Zn2+.192

Mais recentemente, um filme sólido Langmuir-Schaefer de 5,10,15,20-tetra(4-

piridil)porfirina mostrou ser seletivo para os iões Hg2+ e Cu2+ apresentando comportamentos

diferentes. Enquanto que a interação do ião Hg2+ com os derivados porfirínicos envolve tanto

os grupos piridilo substituintes e o interior do macrociclo, os resultados espectroscópicos

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Um estudo envolvendo sistemas multiporfirínicos consistiu na preparação de

partículas de poli(meso-tetrafenilporfirina)-co-ciclotrifosfazeno) (TPP-PZS) por

policondensação de hexaclorociclotrifosfazeno e 5,10,15,20-tetraquis(4-

hidroxifenil)porfirina, como uma nova estratégia de “isolar” unidades porfirínicas (Esquema 3.1). As partículas TPP-PZS mostraram ser fotoestáveis e elevada sensibilidade

e seletividade para a deteção de iões Hg2+.172

111

Apesar da complexação de porfirinas com iões metálicos poder ser aplicada na determinação desses iões, esta pode tornar-se bastante lenta. Para além da capacidade de coordenação com os quatro átomos de nitrogénio existentes no interior no macrociclo, a grande versatilidade da química das porfirinas permite a introdução de grupos funcionais em diferentes posições do macrociclo. A presença desses grupos funcionais pode não só facilitar a inserção do metal na porfirina na sua forma livre para formar o respetivo complexo porfirínico, como também permitir a introdução de outros locais de coordenação. Assim, muitos dos estudos que usam porfirinas como quimiossensores na deteção de iões metálicos baseiam-se em macrociclos porfirínicos funcionalizados nas posições meso com unidades

de coordenação adequadas, nomeadamente piridinas,194-201 quinolinas,202 aminas,203

imidazolinas204 ou timinas.205

Em 2007, Ye e colaboradores sintetizaram o complexo porfirínico de zinco(II) 3.1 contendo quatro grupos N,N-di(piridin-2-il)amina, o qual é capaz de detetar seletivamente o

ião Cu2+ como um quimiossensor fluorescente do tipo “turn-off”. Os resultados

experimentais mostraram claramente que este ligando interage com o ião Cu2+ numa

estequiometria de 2:1 (metal:ligando). Com base nestas observações, os autores propuseram

a formação de uma estrutura polimérica em que cada ião de Cu2+ coordena com dois grupos

N,N-di(piridin-2-il)amina de dois ligandos diferentes (Esquema 3.2).194

Esquema 3.2

Desde então, outros autores têm vindo a usar macrociclos porfirínicos semelhantes

como quimiossensores fluorescentes capazes de detetar seletivamente os iões Cu2+, Pb2+ e

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Seguindo uma estratégia semelhante, Zhang e Yu sintetizaram o derivado porfirínico 3.2 com dois grupos piridin-2-ilmetiloxi nas posições meta e para de um anel fenilo. Este derivado foi testado como quimiossensor de iões metálicos, tendo-se observado capacidade

de deteção altamente seletiva para o ião Zn2+, exibindo um comportamento inesperado do

tipo raciométrico na intensidade de fluorescência. Num estudo comparativo entre este derivado, um outro contendo apenas um grupo piridin-2-ilmetoxi na posição para e a TPP,

os autores mostraram que a resposta do novo quimiossensor ao ião Zn2+ teve como base a

complexação da porfirina com um efeito cooperativo dos grupos piridin-2-ilmetiloxi. As alterações observadas nos espectros de fluorescência foram atribuídas à formação do

complexo por coordenação entre o ião metálico e o interior do macrociclo (Esquema 3.3).196

Esquema 3.3

Os mesmos autores prepararam o derivado porfirínico 3.3 com um grupo terpiridina

capaz de detetar o ião Cd2+ com um aumento de intensidade de fluorescência após a adição

do ião metálico. Com base nos espectros de absorção, os autores propuseram como local de coordenação do ião metálico o grupo terpiridina (Esquema 3.4). O quimiossensor mostrou

seletividade para o Cd2+ na presença de vários iões metálicos à exceção de Cu2+ e Zn2+.195

113

Outros ligandos do tipo cumarina-porfirina, naftalimida-porfirina e picolilamina- porfirina contendo grupos piridilo como locais de coordenação com iões metálicos exibiram características favoráveis à sua utilização como quimiossensores fluorescentes para a

deteção raciométrica de Co2+, Hg2+ e Cd2+, respetivamente.197,198,201

Para além de derivados porfirínicos contendo grupos piridilo como locais de coordenação com iões metálicos, Zhang e Yu também descreveram uma porfirina ligada a um núcleo quinolina, usando como espaçador um grupo éster. Este ligando apresentou um

comportamento do tipo raciométrico para a deteção do ião Hg2+ com elevada seletividade.

A complexação do ligando com o ião metálico provocou uma diminuição da intensidade de fluorescência da porfirina a 614 nm e um aumento a 603 nm. Esta alteração nos espectros de

emissão foi atribuída à coordenação do ião Hg2+ com o núcleo quinolina.202

Lv et al. relataram um novo quimiossensor raciométrico fluorescente de Zn2+ com

base no derivado porfirínico 3.4 que se encontra representado no Esquema 3.5. Este

quimiossensor mostrou elevada seletividade e sensibilidade para o ião Zn2+ e a ausência de

interferências vindas de outros iões metálicos competitivos, em especial do ião Cd2+. Os

autores propuseram o comportamento deste derivado porfirínico como um ligando

tridentado, em que o ião Zn2+ coordena com os três átomos de nitrogénio.203

Esquema 3.5

Campos e Jang descreveram o derivado porfirínico 3.5 contendo grupos imidazolilo

e piridilo para a deteção seletiva de Au3+, resultando numa diminuição da fluorescência do

tipo “turn-off” (Esquema 3.6). Os autores sugerem que a coordenação com o ião Au3+ ocorre

114

Esquema 3.6

Mais recentemente, Chen e Li sintetizaram um complexo porfirínico de zinco(II)

contendo quatro grupos de timina, o qual é capaz de detetar o ião Hg2+ como um

quimiossensor com elevada sensibilidade e seletividade. Após a adição de apenas 1 equiv.

Hg2+ o ligando exibiu uma diminuição acentuada da emissão de fluorescência devida à

formação de complexos timina-Hg2+-timina.205

Porfirinas funcionalizadas nas posições beta também têm vindo a ser usadas como

quimiossensores de iões metálicos.206 Seguindo esta estratégia, o grupo de Química Orgânica

da Universidade de Aveiro em colaboração com o grupo BIOSCOPE da Universidade Nova,

também tem vindo a contribuir para o desenvolvimento de novos quimiossensores óticos.207-

210 Não sendo esta estratégia a usada neste trabalho, não será feita uma descrição

pormenorizada dos estudos envolvendo o uso de porfirinas funcionalizadas nas posições beta como quimiossensores de iões metálicos. Há, no entanto, um estudo que merece ser aqui apresentado, pois envolveu o uso de um sistema diporfirínico para a deteção de iões metálicos.

Cavaleiro e Lodeiro, sintetizaram uma nova piridina 3,5-disubstituída contendo duas unidades de porfirina e a sua capacidade sensorial foi estudada para um conjunto de iões

metálicos, nomeadamente Zn2+, Cu2+, Hg2+, Cd2+ e Ag+. Foram detetadas alterações

significativas no estado fundamental e excitado no caso dos iões metálicos Zn2+, Cd2+, Hg2+

e Cu2+, tendo sido observado um comportamento raciométrico significativo na presença de

Zn2+. Os resultados experimentais, bem como estudos teóricos, mostraram que, em todos os

casos, este ligando interage com o ião metálico numa estequiometria metal:ligando de 3:1. Com base nestas observações, foi proposto como locais de coordenação com o ião metálico o interior de cada macrociclo porfirínico e o nitrogénio do anel piridina (Figura 3.3). Estudos usando um filme polimérico de poli(metacrilato de metilo) mostraram que o ligando

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pode ser usado para o desenvolvimento de novos dispositivos moleculares colorimétricos

capazes de diferenciar os iões Hg2+ e Zn2+ no estado sólido.208

Figura 3.3: Estrutura proposta para a formação dos complexos metálicos.