5 REGULAMENTAÇÃO DA CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA: PORTARIAS DO
5.1 Portaria nº 773, de 19 de outubro de 1990
O detalhamento da Classificação Indicativa é encontrado em Portarias emitidas pelo Ministério da Justiça, sendo a primeira delas a de número 773, de 19 de outubro de 1990, publicada no Diário Oficial da União (DOU) de 29 de outubro de 199082.
Pela análise das datas, é fácil perceber que sua publicação ocorreu pouco depois do advento do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), cuja publicação deu-se em julho do mesmo ano.
A Portaria continha apenas sete artigos e tinha por base o art. 21, XVI c/c art. 220, §3º, I, CF/88 e o art. 254 do ECA, o qual prevê pena de multa para transmissão de espetáculo de forma irregular.
Objetivava “estabelecer a uniformização dos critérios classificatórios das diversões públicas e de programas de rádio e televisão”, ou seja, como se pode observar, uma mesma portaria disciplinava todos os espetáculos e diversões públicas.
As faixas etárias, desde então, já eram relacionadas com faixas horárias e eram menos diversificadas do que as existentes na atualidade. O art. 2º, caput da Portaria nº 773/90 é elucidativo:
Art. 2º - Os programas para emissão de televisão, inclusive "trailers", têm a seguinte classificação:
a) veiculação em qualquer horário: LIVRE;
b) programa não recomendado para menores de 12 anos: inadequado para antes das vinte horas;
c) programa não recomendado para menores de 14 anos: inadequado para antes das vinte e uma horas;
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82 BRASIL. Ministério da Justiça. Portaria MJ nº 773, de 19 de outubro de 1990. Legislação. Brasília. Disponível em: <http://www.mj.gov.br/classificacao/main.asp?View={3D84A805-EE11-49BD-BC45- 5B6CFFAA77D0}>. Acesso em: 5 jan. 2010.
d) programa não recomendado para menores de 18 anos: inadequado para antes das vinte e três horas.
Os programas ao vivo já eram dispensados de classificação, mas o titular da empresa ou seu apresentador e toda a equipe de produção poderiam ser responsabilizados “pelos abusos e desrespeito à legislação e às normas regulamentares vigentes” (art. 2º, parágrafo único, Portaria nº 773/90).
Os critérios para a classificação eram violência, sexo e “desvirtuamento dos valores éticos” (art. 3º), o último conceito extremamente abstrato.
A classificação era atribuída em portaria do órgão competente do Ministério da Justiça (art. 4º) e publicada no Diário Oficial da União (DOU). Os programas de televisão e de rádio tinham que apresentar o aviso de sua classificação antes e durante a transmissão (art. 6º, parágrafo único).
Revelando a polêmica e a resistência que sempre acompanham o tema da Classificação Indicativa, foi proposta Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) junto ao Supremo Tribunal Federal (STF) pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB) em face da Portaria nº 773/90.
Para Sérgio Mattos, tal reação à Portaria se deveu ao fato de os meios de comunicação e a intelectualidade do País estarem vivendo uma “liberdade nunca antes experimentada”, fazendo com que a considerassem uma “atitude censória assumida pelo governo”83.
A referida ADI tramitou sob o número 392 e baseava-se no fato de a Constituição prever, em seu art. 220, §3º, I, que cabe à lei federal regular as diversões e espetáculos públicos, e tal regulamentação, segundo os promoventes da ação, ter sido feita por meio de Portaria do Ministro da Justiça e não por meio de lei aprovada pelo Congresso Nacional.
Para os promoventes, isso corresponderia a uma invasão de competência de um Poder pelo outro, ou seja, do Executivo sobre o Legislativo, em afronta também ao art. 2º da CF/8884, que prevê a separação dos Poderes85.
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83 MATTOS, Sérgio. Mídia Controlada: a história da censura no Brasil e no mundo. São Paulo: Paullus, 2005, p. 127.
84 Art. 2º São Poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário. 85 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 392/DF. Requerente: Partido Socialista Brasileiro – PSB. Requerido: Ministro da Justiça. Brasília, 5 de novembro de 1990. Petição Inicial – Paginador STF. Disponível em:
<http://www.stf.jus.br/portal/geral/verPdfPaginado.asp?id=186127&tipo=TP&descricao=ADI%2F392>. Acesso em: 18 jan. 2010.
O STF, contudo, em decisão unânime, que restou ementada conforme adiante se vê, entendeu que não era cabível exame de constitucionalidade no caso e que a Portaria consolidava o regulamento mencionado no art. 74 do ECA .
ADI 392 / DF - DISTRITO FEDERAL
AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE Relator: Min. Marco Aurélio
Órgão Julgador: Tribunal Pleno Data do julgamento: 20/06/1991 Partes:
Reqte.: Partido Socialista Brasileiro - PSB Reqdo.: Ministro da Justiça
Ementa
AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE - REGULAMENTO - Possível extravasamento revelado quando da edição de regulamento resolve-se no campo da legalidade. Descabe, no caso, discuti-lo em demanda direta de inconstitucionalidade. A Portaria n. 773 do Exmo. Sr. Ministro de Estado da Justiça consubstancia o regulamento de que cogita o artigo 74 da Lei n. 8.069/90 (ESTATUTO DA CRIANCA), sendo impróprio o ajuizamento, contra ela, da citada demanda.86
Houve outras manifestações de inconformismo com a Portaria nº 773/90, como é exemplo o Mandado de Segurança nº 750 impetrado pelo Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões no Estado de São Paulo junto ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), tendo por fundamento a suposta ilegalidade da portaria, por entender que a competência para regular as diversões e espetáculos era do Legislativo, cabendo ao Executivo apenas “informar sobre a natureza deles”87.
Nesse caso, o STJ, também por unanimidade, não conheceu do mandado de segurança, por aplicação da Súmula 266 do STF, que prevê ser incabível mandado de segurança contra lei em tese, considerando ser a Portaria “ato administrativo normativo, que tem natureza de lei em sentido material”. Eis a ementa:
MS 750 / DF __________________________
86 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 392/DF. Requerente: Partido Socialista Brasileiro – PSB. Requerido: Ministro da Justiça. Brasília, 20 de junho de 1991. Supremo Tribunal Federal: Pesquisa de Jurisprudência. Disponível em: <http://www.stf.jus.br/portal/jurisprudencia/listarjurisprudencia.asp?S1=%28ADI$.SCLA.%20E%20392.NU ME.%29%20OU%20%28ADI.ACMS.%20ADJ2%20392.ACMS.%29&base=baseacordaos>. Acesso em: 6 jan. 2010.
87 Idem. Superior Tribunal de Justiça. Mandado de Segurança nº 750/DF. Impetrante: Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões no Estado de São Paulo. Impetrado: Ministro de Estado da Justiça. Brasília, 16 de abril de 1991. Revista Eletrônica. Disponível em: <https://ww2.stj.jus.br/processo/jsp/ita/abreDocumento.jsp?num_registro=199000143705&dt_publicacao=06- 05-1991&cod_tipo_documento=>. Acesso em: 6 jan. 2010.
MANDADO DE SEGURANÇA 1990/0014370-5 Relator: Ministro Ilmar Galvão
Órgão julgador: S1 - Primeira Seção Data do julgamento: 16/04/1991
Data da publicação/Fonte: DJ 06/05/1991 p. 5637 Partes:
Impetrante: Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões no Estado de São Paulo
Impetrado: Ministro de Estado da Justiça Ementa
Mandado de segurança. Portaria n. 773/90 do Ministro da Justiça. Ato normativo abstrato. Incabível mandado de segurança contra lei em tese. Aplicação da Súmula n. 266 do STF. Mandamus não conhecido.
Acórdão
Por unanimidade, não conhecer do mandado de segurança.88
Esta portaria foi revogada no ano 2000 pela Portaria nº 796 também do Ministério da Justiça.