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15 Luz de enfiamento na Marca Nova

3.4 Portas da cidade

As imagens que acompanham a carta Entrance of the Douro by Commander Edward and Belcher H.M.S. Aetna 1833 [11] registam a marca fulcral de reconhecimento da posição da barra do Douro, no perfil da costa: a presença altaneira dos maciços rochosos dos montes da Arrábida e da Furada que entalham o curso do rio, assinalando o estreito que fecha a bacia ampla do estuário amplo, na entrada e, inversamente, abre a vista da barra e do mar, na última volta do rio.

Depois da passagem da barra, o estreito marca um segundo limiar de entrada na cidade, tomando a designação de Dezoito Braças, numa referência à distância local entre margens. Na descida do rio é conhecido pela Volta do Cabedelo, apropriando a denominação da restinga que fecha a barra. Como em espelho, os nomes dessa passagem estreita (um segundo obstáculo à navegação e à acessibilidade) apontam o sentido de uma nova entrada para quem navega para montante, e quase antecipam a saída da barra para quem se despede da cidade, à vista do estuário do rio e do mar.

Na frente do mar, a posição conjunto da torre e da torrinha no meio do rio, que referencia os escolhos e os canais de navegação, define no espaço da barra um limiar que se torna (primeira) porta de entrada no rio.

143. Basto, "Notas e Comentários" - Avisos, Atalaias ou Fachos. Livro Antigo [19--] : 250. 144. Basto, "Notas e Comentários" - Avisos, Atalaias ou Fachos. Livro Antigo [19--] : 251-255. No Distrito do Julgado de Bouças contam-se os seguintes fachos:

Facho do Corpo Santo, no sítio do mesmo nome, freguesia de S. Miguel da Palmeira. Da Companhia de Leça de Palmeira. Facho no sítio do Senhor da Areia, na Praia de Matosinhos. Da Companhia de Ramalde.

Facho no Outeiro de S. Miguel o Anjo, freguesia de S. Fins. Da Companhia de Alfena.

Facho de N. S.ª da Luz, no sítio do mesmo nome, na freguesia de S. João da Foz. Da Companhia de S. João da Foz. No Distrito do Sargento-Mor de Gaia :

Facho do Monte de Cabedêlo da Barra. Da Companhia de Oliveira do Douro. Facho no Monte da Furada. Da Companhia de Avintes.

Facho da Madalena. Da Companhia de Santo André.

Facho de Francelos, freguesia de Gulpilhares. Da Companhia de Santo André.

16 A posição de fachos e atalaias num planta da Barra do Douro, s.d. e sem autor (AMOP, C-198-5C) 17 1820 | "Planta da Foz do Douro até Quebrantões Para intteligencia do Plano de melhoramento da Barra do

Porto Por Luiz Gomes de Carvalho Cor.el do Corpo d’ Eng.os"

16

A barra do Douro, coordenadas de navegação marítima e fluvial | Portas da cidade

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3.4.1 O projecto de uma barreira no estreito dos montes da Arrábida e da Furada

No século XIV é tomada a decisão de defender a passagem daquele estreito por meio de uma barreira formada por uma corrente, que devia ser amarrada em torres edificadas nas margens do rio. D. Afonso IV determina, em 1359, que sejam erguidas em lugar «convenhável» duas torres «para se pôr por elas uma cadeia através do dito rio para não virem por aí navios que fizessem mal nas ditas vilas do Porto e de Gaia»146. É possível que alguma das torres tivesse sido edificada, se for considerada a referência a uma «torre do Bicalho»147, o topónimo «tore»148 e a indicação de «Ponta do Cobelo» e «Covelo» (cubelo), respectivamente, nas plantas de 1779 [18,145] e de 1820 [17]. Mas o projecto da corrente não teve exequibilidade prática.

A ideia de um sistema defensivo constituído por uma barreira de torres, unidas por cadeias, não é um exclusivo do período medieval, antes será tematizado sob diferentes formas ainda no Renascimento149. Essas torres e cadeias recriam à escala maior do território o tema da entrada e de portal defendido, à imagem das portas da muralha da cidade.

Pela sua colocação relativa, as duas torres mandadas erguer por D. Miguel poderiam reenviar para uma mesma ideia, pois a sua implantação, na barra do rio, é simétrica da posição do estreito das Dezoito Braças [18].

Nesse sentido, as torres-baliza quinhentistas antecipariam um enquadramento correspondente à passagem maior do estreito dos montes, a partir de onde se avistava finalmente o porto de chegada à cidade. Inversamente, despediam numa última marca edificada pelo homem, elevada acima da linha de água, traçando o limiar da passagem da barra ao mar.

Obra do artifício do homem tendo como pano de fundo natural os montes e o rio, as torres recebiam como portas e "propileus", na entrada no território da cidade, e encomendando ao Senhor, na partida, o bom caminho de mareantes e viajantes:

SALVOS IRE R[OGO] D[EUM].

146. «As autoridades foram "ver o lugar em que se as ditas torres melhor podiam fazer, assim de um cabo como do outro". Pareceu-lhes então que na mar- gem direita "a fizessem no logo que chamam Arrábida", erguendo-se na outra margem a torre correspondente num "logo em direito", ou fosse "em uns penedos mui bons que aí estão", devendo as obras de construção iniciar-se na segunda feira seguinte, ou seja aos 16 de Dezembro de 1359, à custa dos dois concelhos». As opiniões dividiram-se quanto à viabilidade do projecto, tendo em conta a capacidade de resistência da corrente. Os homens de Gaia tenta- vam por todas as maneiras eximir-se à parte que lhes competia na obra, enquanto que os homens do Porto alegavam que «a não ser possível manter para defensão das duas terras a cadeia projectada, ainda assim as duas torres seriam de grande utilidade, pois erguidas num ponto em que o rio é estreito "se as torres aí fossem postas e trabuqetes em elas, que eles aí pretendem pôr, e besteiros, nenhum navio lhes não poderia por aí passar"». Cruz 1960 : 87(128)-88. 147. Joaquim António Gonçalves Guimarães, Gaia e Vila Nova na Idade Média : Arqueologia de uma área ribeirinha (Porto : Universidade Portucalense, 1995) : 166-168. (=Guimarães 1995).

148. Livro de Finta de 1521 (Pintura do Mundo, 1992, cap. e p. 48, n.º 68). Guimarães 1995 : 167. 149. Ver .

18 1779 | José Monteiro Salazar. Mappa da Barra da Cidade do Porto, com todas as suas pedras, bancos

d’areya e palmos q tem o d.º rio na baixa-mar (cópia de António Martins Alvares d’Almeida, 1784,

excerto)

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