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PORTAS DE ANÁLISE

A Análise de discurso nestes 50 anos de sua emergência em território francês sofreu muitos deslocamentos, desde seu objeto de estudo até seu aporte teórico-metodológico. Com efeito, se na AD de 69, os analistas se voltavam para o discurso verbal e político, atualmente e para além da língua de Molière, a pluralidade de objetos de análise discursiva é extensa.

Aliado ao verbal, o não verbal (imagens – tanto fixa quanto em movimento –, voz, gestos, sons, corpo, etc.)

se aproxima do centro das reflexões discursivas, uma vez que a produção de sentidos se constitui nesse sincretismo entre signos de diferentes ordens.

A disciplina, ressaltamos, ainda que tenha sofrido alguns deslizamentos, não deixa de ser uma área de intersecção de três grandes domínios, a saber: a Psicanálise, a História e a Linguística. Assim, aos analistas de discurso cabe refletir sobre como o dizer em curso (discurso) na história assinala os lugares ocupados pelos diferentes sujeitos. Para este texto, iremos nos ater aos dois últimos campos do conhecimento, a Língua(gem) e a História.

Com efeito, no início do século XX, Ferdinand Saussure no Curso de Linguística Geral nos antecipou como a Língua(gem), enquanto um grande domínio que ultrapassa a língua e seus signos verbais, seria objeto de uma ciência que se dedicaria ao estudo da “vida dos signos no seio da vida social [...] chamá-la-emos de Semiologia (do grego sȇmeȋon, “signo”). Ela nos ensinará em que consistem os signos, que leis o regem”.

(SAUSSURE, s\d, p. 24). Por essa razão, o corpo, mais que um objeto discursivo, é um objeto semiológico, ou seja, seus signos produzem sentidos.

A linguagem4, cara à Linguística e, sobretudo, à Semiologia, também se constitui como um dos pilares

4 O professor Eduardo Assis Duarte (2019) resume os elementos que distinguiriam a literatura afro-brasileira em: “Para além das discussões conceituais, alguns identificadores podem ser destacados:

uma voz autoral afrodescendente, explícita ou não no discurso; temas brasileiros; construções linguísticas marcadas por uma afro-brasilidade de tom, ritmo, sintaxe ou sentido; um projeto de transitividade discursiva, explícito ou não, com vistas ao universo

fundamentais para Um conceito de uma literatura afro-brasileira (DUARTE, 2017). Isso porque,

A linguagem é, sem dúvida um dos fatores instituintes da diferença cultural do texto literário. Assim, a afro-brasilidade tornar-se-á também a partir de um vocabulário pertencente às práticas linguísticas oriundas de África e inseridas no processo transculturador em curso no Brasil. Ou de uma discursividade que ressalta ritmos, entonações e, mesmo, toda uma semântica própria, empenhada muitas vezes num trabalho de ressignificação que contraria sentidos hegemônicos na língua. (DUARTE, 2017, s./p.).

De forma que a literatura afro-brasileira, além de trabalhar com os signos verbais, irá atualizar signos de outras ordens, tais como, gestos, sons, ritmos a fim de resgatar memórias de África e também imagens de lá, por isso, interafroiconicidades. A discursividade afro-brasileira está, portanto, imbricada em “práticas não verbais, o verbo não pode mais ser dissociado do corpo e do gesto, a expressão pela linguagem conjuga-se com aquela do rosto, de modo que não podemos mais separar linguagem e imagem” (COURTINE, 2011, p. 150).

Com efeito, marcar a raça na questão das intericonicidades5 (COURTINE, 2011) é um ato político,

recepcional; mas, sobretudo, um ponto de vista ou lugar de enunciação política e culturalmente identificado à afrodescendência, como fim e começo”. (idem, s/p.).

5 “A intericonicidade supõe, portanto, dar um tratamento discursivo às imagens, supõe considerar as relações entre imagens que produzem sentidos: imagens exteriores ao sujeito, como quando uma imagem pode ser inscrita em uma série de imagens, uma arqueologia,

sobretudo, frente à História que, não raras vezes, branqueou as imagens que fazem parte de nossas memórias ocidentais, desde Jesus Cristo loiro e de olhos verdes até Cleópatra que, de negra retinta foi representada em filmes como uma rainha branca. Em nossa literatura brasileira, Machado de Assis foi pintado e retratado por muito tempo nos livros didáticos como um homem branco – quando muito, moreno. Assim, quando propomos o trabalho com as interafroiconicidade estamos refletindo sobre a necessidade de se considerar

“todo conjunto de memória da imagem no indivíduo e talvez também os sonhos, as imagens vistas, esquecidas, ressurgidas ou fantasiadas que frequentam o imaginário”

(idem, p. 160). (grifos nossos).

Aliás, as análises discursivas e, sobretudo, semiológicas de imagens se justificam em razão do acordo de olhares, que

Define posições de leitor abstrato que o espectador concreto é convidado a vir ocupar a fim de poder dar sentido ao que ele tem sob os olhos, isso vai permitir criar, de uma certa maneira, uma comunidade – um acordo – de olhares: tudo se passa então como se a imagem colocasse no horizonte de sua percepção a presença de outros espectadores possíveis tendo o mesmo ponto de vista. (DAVALLON, 2010, p. 31).

De forma que, ao reivindicarmos uma interafroiconicidade, estamos falamos de uma ruptura

de modo semelhante ao enunciado em uma rede de formulações, em Foucault”. (COURTINE, 2011, p. 160).

desse acordo dos olhares que historicamente foi dirigido ao corpo negro. A exemplo do conceito de uma Literatura afro-brasileira, cujos crivos do ponto de vista e da autoria são essenciais para conceituarmos o seu caráter, as imagens postas pela poesia de Cristiane Sobral fazem deslizar alguns acordos e permite a criação de outros contratos de fala e de olhares.

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