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Portugal: génese e transformação do fenómeno

No 3.º capítulo é abordada a vertente gráfica do hip-hop Promove-se uma reflexão sobre o enquadramento do graffiti Mais do que simbólica forma de resistência e produto de uma cultura

2. RAP| Vertente musical

2.4. RAP| Contexto nacional

2.4.1. Portugal: génese e transformação do fenómeno

Em Portugal o ‘berço’ do rap foi Miratejo, sendo que este género musical se desenvolveu através de vários momentos no seu local de origem, importa especificar o contexto local (português) em que surgiu e se expandiu.

…E é na Caparica que nos vamos encontrar (…) É pura ilusão que Portugal é diferente

Os Raps de Miratejo têm um granda ambiente Os gajos do Estrangeiro apanham do ar (…)106

Depois da sua génese na região de Lisboa, o rap nacional teve um incremento também na região do Porto, porém, a sua maior expressão continua contemporaneamente ligada à capital nacional, sendo de destacar no entanto os Dealema e os Mind da Gap enquanto grupos ligados à região do Porto que continuam a produzir rap nacional. Como refere o MC de um desses grupos,

…na altura quando o hip-hop rebentou no Porto, houve muita gente que se agarrou à cena porque achou muita piada, mas tal como nós na altura eram putos e não vendo as coisas a desenvolver se calhar perderam a vontade (…) Aqui em Lisboa é mais fácil

105 Contador, A. e Ferreira, E., Ritmo e poesia: Os caminhos do Rap, Lisboa: Assírio & Alvim, 1997.

106 Black Company, Nadar (1994), Nação HIP HOP - 10 anos de hip-hop em Portugal - Compilação – 2003 EMI –

porque estás perto de tudo, a nível de comunicação social e estás mais em contacto com as pessoas certas. No Porto tens de fazer telefonemas, mandar cartas, batalhar muito mais. Não sei se também tem a ver com o facto de terem fechado vários espaços nocturnos, tipo o Hard Club que fazia festas todos os meses, e antes do Hard Club o Comics, que foi o sítio onde eu e o Serial começámos a passar som e a fazermos festas. Conseguimos de certa forma aglutinar um círculo de pessoas que criou aquilo que viria a ser ou poderia ter sido um grande movimento no Porto. Mas eu acho que foi isso, as pessoas terem desacreditado.107

Tal como foi referido, uma das transformações que o género musical sofreu consistiu na criação das expressões Old School e New School, designando a primeira os fundadores e a sua cultura emergente e marginal, e a segunda um género musical mais ligado à expansão mercantil. Bem assim, as expressões sell-out e underground, distinguindo a produção que tem por objectivo fundamental vender, e a produção criada para “consumo interior”. Esta dualidade encontra-se também presente o contexto português, sendo alvo de frequente discussão. Nas palavras de Nelson Duarte, fundador dos Micro:

‘Underground’ é o caminho mais difícil a seguir e não dá tanto dinheiro. Mas há que ser fiel às origens. O verdadeiro hip-hop não é o que mostra a MTV.108

Deste modo, e como refere um outro rapper:

O rap verdadeiro é o rap que fala da vida real, do que a gente passou; tu tens de falar do que passaste, do que estás a sentir, não é falares de uma cena de outro gajo.109

A heterogeneidade a nível de produção, discursos e códigos locais, encontra-se bem ilustrada nas palavras dos Da Weasel:

Á medida que chegamos ao ano 2000 É cada vez mais difícil rotular cada feel R&b, drum’n’bass, hip hop, feminino, viril

Ando às voltas e voltas, ainda falam em Keep it real? Cada género musical atinge uma nova dimensão Como tudo o resto anda em constante mutação

Concentro-me apenas no que merece a minha atenção(…)

107 Ace in entrevista realizada pela equipa H2T: Mind da Gap Março de 2008,

http://www.h2tuga.net/entrevistas/060_minddagap.php (acedido a 04/07/09).

108 Nélson Nelassassin Duarte, reportagem, “Geração Yo!”, revista Única, Expresso nº1675, 4 /12/04. Nélson Duarte

iniciou o seu percurso em 1993 (sendo que foi principalmente a partir de 1994 que a produção nacional começou a ser mais difundida), fez parte da banda Zona Dred, com o álbum Rapública, um dos primeiros deste género musical a ter visibilidade, em 1996 fundou os Micro (com D-mars), trabalha agora a solo e com a sua própria editora.

O sentimento só interessa quando se tem talento O talento só interessa quando tem um fundamento O fundamento só interessa quando estás em paz

Quando tens harmonia, não interessa o nome que lhe dás(…) Não se pode ser músico sem criar nada de nada

E usar uma fórmula maquinalmente executada

Nasceste com um dom, aproveita o que trazes contigo, Se não tem nada a ver com rima, deixa-o comigo110(…)

O rap underground está mais afastado dos padrões comerciais e dos estereótipos ligados ao rap. Parte da realidade, individual ou colectiva, tem um discurso direccionado para os problemas sociais. Nele a produção acontece não por imposição temática das editoras, antes guiado por inspiração pessoal, que nasce da observação e análise da realidade e materializa uma opinião e posição própria em relação a ela. Os rappers que produzem rap alternativo, afirmam não ser sua prioridade ser famosos ou conhecidos, como se pode constatar nas palavras de Sam the Kid.

Depende do que quiseres dizer por underground. Se te referes à atitude e à pessoa ser fiel aos seus princípios logicamente que sim. Tento sempre ter os pés na terra. Não faz sentido ser outra pessoa somente por ter algum mediatismo, e se por acaso nalgum momento tiver uma postura não ajustada a quem sou, serei o primeiro a reconhecer que posso ter estado mal.111

Além de Sam the Kid, em Portugal há vários outros MCs que produzem rap underground, entre os quais: Adamastor, Valete, Bomberjack e Bónus. Importa cantar o que se viveu, ser fiel a si mesmo, ter uma atitude e uma visão que não depende de fenómenos de ‘moda’, importa a genuinidade do discurso em detrimento da reprodução de fórmulas, mediatismo, padrões ou lucro financeiro. Ainda nas palavras de Sam the Kid:

Não percebes o que eu digo Não percebes o que eu falo Não percebes onde eu vivo Não percebes o que eu galo

110 Da Weasel, Iniciação a uma vida banal –O Manual – A Harmonia (Sentimento, Talento e Fundamento), EMI –

Valentin de Carvalho, Música Lda, 1991

Aprende que a lição não é estar no top É vazio, caga nisso

Não percebes o Hip Hop112

Por outro lado, importa atender ao facto deste género ter chegado a Portugal após a sua ‘conversão’ em produto de consumo – mercadorização113– e transformação em produto vendável – comercialização, portanto, diferente daquilo que foi na sua génese. As produções locais correm mercados globais, ainda assim servem discursos e códigos locais. Em Portugal podemos estabelecer uma diferenciação entre o rap produzido no norte e no sul do país. Os fluxos de imigração estabelecem relações diferentes com contextos locais e com a diáspora africana, permitindo a construção de discursos identitários particulares, ainda que difundidos globalmente.

Paralelamente, os contextos locais contaminam-se entre si, levando à reformulação e reinvenção de fórmulas, o que fomenta a diversidade e a reestruturação criativa.

Mi lembro bem Do tempo ke era bom Rappista todo junto A kriar um granda som Harmonia fantasia Rappi era a minha vida Noiti a kriar

Kriar improvisar A koisa era tão boa Mas akabou você tá doido Mi traz di novo o tempo Ke era bomrappi kresceu

Harmonia morreu, ganância venceu E todo o rappista perdeu

Agora já não tamos juntos Tamos separados114

Este género musical sofreu ainda um processo de masculinização, onde as mulheres tiveram de conquistar o seu espaço. Ao fazerem-no trouxeram novos temas para o rap, tais como o controlo sobre a sua liberdade sexual, importância do discurso feminino, desigualdade de

112 Sam The Kid, Não Percebes, Nação HIP-HOP - 10 anos de hip-hop em Portugal - Compilação – 2003 EMI –

Valentim de Carvalho, Música, Lda.

113 Fradique, , op.cit.,. p.36. cf. supra

direitos entre géneros. Também em Portugal as mulheres tiveram de vencer resistências, existindo muito poucos grupos exclusivamente femininos ou mistos. São exemplos de grupos exclusivamente femininos Mc Lady D, Djamal (já extinto), JJ e No Coments; grupos mistos: Kombination, G-Boyz.