3. DO ALVORECER DO SÉCULO XX ATÉ OS DIAS ATUAIS: A CONSTRUÇÃO DO
3.9. Artigo 33º, da Convenção Relativa ao Estatuto dos Refugiados de 1951: garantia de
3.9.1. Princípio do non-refoulement
3.9.1.3. Posicionamento da corte interamericana de direitos humanos sobre o princípio
Buscando ampliar o tema, para melhor embasar esta escrita, vale nos direcionarmos para outra região do globo, uma vez que é de suma importância verificar a aplicação desse princípio basilar em outros locais que não o solo europeu, mesmo porque, como se sabe, o refúgio é um instituto jurídico utilizado em larga escala no momento atual.
Vejamos então, o entendimento da CIDH sobre o assunto, no que diz respeito ao artigo 22.8:
Em nenhum caso o estrangeiro pode ser expulso ou entregue a outro país, seja ou não de origem, onde seu direito à vida ou à liberdade pessoal esteja em risco de violação em virtude de sua raça, nacionalidade, religião, condição social ou de suas opiniões políticas.
A Corte entendeu que o direito ao non-refoulement se estende a todos os estrangeiros86, sem distinguir se ele é requerente de asilo, refugio ou apátrida.
Cabe ressaltar também, o texto da Convenção Interamericana para Prevenir e Sancionar a Tortura, artigo 13(4), ―Não se concederá a extradição nem se procederá a devolução da pessoa requerida quando houver presunção fundada de que corre perigo sua vida, de que será submetida a tortura, tratos cruéis, inumanos ou degradantes ou de que será julgada por tribunais de exceção ou ad hoc no Estado requerente‖.
Na lição da ACNUR, em sua Nota de orientação (2008), ―O Tribunal Europeu de Direitos Humanos manteve como jurisprudência que a obrigação de não-devolução está implícita na obrigação de não submeter a nenhuma pessoa a tortura nem a penas ou tratos inumanos ou degradantes conforme o artigo 3º do Convênio Europeu para a Proteção dos Direitos Humanos e Liberdades
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Estrangeiro deve ser entendido como toda pessoa que não seja nacional do Estado em questão, ou que não seja considerada como seu nacional pelo Estado conforme a sua legislação.
76 Fundamentais de 1950, e que estas obrigações são aplicáveis quando existe um risco real de que o indivíduo seja submetido a esse tratamento como resultado de uma expulsão forçada, incluída a extradição‖.87
Uma das bases jurisprudenciais da Corte Interamericana é o caso da família Pachecho Tineo vs. Bolívia, que vinha sofrendo perseguições políticas por parte do governo Fujimori no Peri, o grupo familiar, para tentar escapar das perseguições, fugiu para a Bolívia.
Logo ao cruzar a fronteira, foram identificados e requisitaram o beneficio do refúgio, o qual lhes foi de pronto negado, o que acabou ser ocasionar, por óbvio, seu envio de volto ao Peru.
Já em solo peruano, a família foi formalmente acusada de terrorismo e inconformados tentaram mais uma vez fugir, desta vez para o Chile, onde conseguiram o abrigo do estatuto do refugiado.
Ocorre que três anos depois, com o fim da ditadura no Peru, a família Pacheco Tineo resolveu voltar ao sua terra natal, contudo, ao pisar em solo peruano, foram presos e seus filhos entregues a orfanatos, pois ainda constavam na lista de foragidos, decorrente da acusação de terrorismo que tinha sido julgada a revelia, condenando os acusados.
Nessa altura o Chile já não os aceitou de volta, afirmando que como eles tinham deixado o país e voltado para o Peru, haviam perdido o status de refugiados.
Sem escolha e temendo pela sua vida, apresentaram o caso a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, que após analisar o caso processou o governo da Bolívia perante a CI.
A Corte, após analisar o caso decidiu que a Bolívia violou os direitos garantidos no artigo 28.8 da Convenção Interamericana e condenou ainda ao pagamento de indenização a família Pacheco Tineo.
Além disso, o Estado e precisou se comprometer a implantar programas de formação contínua para os funcionários da Direção Nacional de Imigração e Comissão nacional para os Refugiados e outros funcionários que, em virtude das suas funções em contato com migrantes ou requerentes de asilo.
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Disponível em: http://docplayer.com.br/35795957-Acnur-agencia-da-onu-para-refugiados-nota-de- orientacao-sobre-extradicao-e-protecao-internacional-de-refugiados.html
77 Foi uma decisão muito coerente tomada pela Corte, porém a crítica fica no tempo transcorrido do fato em si até a decisão final, ou seja, de 1998 até 2013. A Comissão da Corte peca pela morosidade e tende a segurar os processos, pois quando os mesmo chegam até a Corte, o julgamento tende a se acelerar.
Por último, mas não menos importante, cumpre abordarmos a situação de conflito que pode ocorrer, quando da colisão entre uma norma do direito dos refugiados, ou princípio, nesse caso, e as normas decorrentes de tratados entre Estados.
3.9.1.4. Hierarquia entre o princípio do non-refoulement e os demais tratados entre os Estados.
Comumente, sabe-se que poderá haver situações de conflito entre normas e princípios, seja no âmbito interno ou no âmbito do direito internacional. Ou mesmo de normas e princípios entre si. Nesse caso, é prudente que haja um sopesar para fins de que a decisão mais acertada possa aflorar.
No que diz respeito ao direito dos refugiados versus o direito internacional, não é diferente.
No documento de orientação da ACNUR, sobre a extradição de refugiados, de 2008, o órgão traça um direcionamento também sobre essa questão. A ACNUR nos diz que, embora haja uma provável situação conflituosa, que gira em torno da obrigação de extraditar, essa adquirida em função de possíveis acordos bilaterais, por exemplo, e o dever de não repulsão decorrente das normas do direito internacional dos refugiados, bem como de direitos humanos, este último deve prevalecer.
Segundo o organismo, no ponto 22, ―o primado de tais obrigações sobre as contidas em tratados de extradição deve-se a sua natureza e a seu lugar dentro da hierarquia da ordem jurídica internacional‖. Essa prevalência decorre diretamente do artigo 103, combinado com os artigos 55 (c) e 56, da Carta das Nações Unidas.
Ainda no ponto 22, há a seguinte explicação: ―O artigo 103 da Carta das Nações Unidas estabelece a prevalência das obrigações da Carta em detrimento de obrigações decorrentes de outros acordos internacionais. Além disso, nos termos dos artigos 55 (c) e 56 da Carta, os Estados-Membros das Nações Unidas são
78 obrigados a trabalhar no sentido da realização dos objetivos das Nações Unidas, que incluem o respeito universal e observância dos direitos humanos e das liberdades fundamentais para todos, sem distinção de raça, sexo, língua ou religião‖.
Vale mencionar, que ainda que haja o conflito com outras normas de direito internacional, sobre a questão de segurança em função do terrorismo, ainda assim, as obrigações que dizem respeito ao direito internacional dos refugiados, prevalecem. Com efeito, o Conselho de segurança da ONU orienta que todas as normas legisladas no sentido de garantir a segurança nos Estados, deva, obrigatoriamente, estar de acordo com as normas do direito dos refugiados.
Na verdade, não é necessário grande raciocínio jurídico em cima desse ponto. É notório que os direitos humanos devem prevalecer sobre qualquer outra norma vigente. Sem espaço para maiores contestações. É da sua natureza o seu caráter de essencialidade para a realização da dignidade da pessoa humana.