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2. CRIANÇAS E ADOLESCENTES ANTES, DURANTE E APÓS O PROCESSO

2.3 Posicionamento da doutrina e da jurisprudência

Diante do cenário visto no tópico anterior, a doutrina e a jusrisprudência brasileira vem entendendo que a palavra da vítima tem grande importância em casos de crimes sexuais, em razão da clandestinidade em que é executado o delito em questão e da ausência de vestígios detectáveis por perícia.

Passaremos agora, portanto, à análise do entendimento das quatro câmaras criminais do Tribunal de Justiça de Santa Catarina.

A Primeira Câmara Criminal julgou, recentemente, através do acórdão de relatoria do Desembargador Carlos Alberto Civinski, o recurso de apelação da defesa de E. L. F., condenado pelo crime de estupro de vulnerável contra a infante V. da S.B.G.N., sua enteada (TJSC, Apelação n. 0019954-37.2011.8.24.0023, da Capital, rel. Des. Carlos Alberto Civinski, j. 09-08-2016).

Primeiramente, necessário destacar o interessantíssimo entendimento do Nobre Relator quanto a prefacial de nulidade levantada pela defesa, pois muito pertinente para este trabalho.

In casu, a defesa arguiu que o procedimento criminal seria nulo desde a

audiência de instrução e julgamento, ante a não oitiva da vítima V.

Para rebater a preliminar, fundamentou o Desembargador que não só a oitiva da vítima é facultativa, por força do art. 201, do CPP, como a não oitiva da ofendida, no caso, foi necessária, sob o risco de causar-lhe novos abalos psicológicos. Extraiu-se trechos do decisum:

[…]

É cediço que em crimes sexuais contra vulneráveis, como é o caso dos presentes autos, deve-se preservar a criança ou adolescente vítima, inclusive por força do princípio da proteção integral, garantido tanto pela Constituição Federal de 1988 como pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, diante da tenra idade das vítimas e dificuldade em se expressar sobre os fatos, evitando-se, quando possível, o reavivamento prolongado dos fatos e, por consequência, novos danos psicológicos.

No caso, observa-se que foi realizado estudo psicossocial, sendo oportunizado ao defensor do apelante o oferecimento de quesitos à realização da perícia psicológica (fl. 80), sendo que estes foram devidamente apresentados (fls. 82-83) e, na sequência, os autos

foram encaminhados para o profissional competente, que fez um relatório psicológico da infante, atestando a verosimilhança de seus dizeres, conforme fls. 94-126.

Posteriormente, a Magistrada singular indeferiu o pedido de oitiva da vítima em Juízo, sob os seguintes fundamentos: "também indeferido o pedido de oitiva da vítima em audiência. Com efeito, a vítima é menor de idade e já foi submetida à perícia psicológica, resguardados a ampla defesa e o contraditório. A oitiva dela, em audiência, só serviria a revitimizá-la" (fl. 216).

[…]

Essas circunstâncias permitem concluir que, sendo facultativa a oitiva da vítima, e entendendo o Juízo singular não que era aconselhável e tampouco imprescindível a sua oitiva no presente caso, a fim de não reavivar os fatos e trazer novos abalos emocionais a ela, não há falar em nulidade.

[...]

No mérito do recurso, a defesa clamou pela absolvição do recorrente, sustentando inexistirem provas a sustentar o decreto condenatório.

O relator, por sua vez, expurgou a tese defensiva, entendendo que, embora exista nos autos laudo pericial que não detectou vestígios de atos libidinosos, eles são prescindíveis para a comprovação da materialidade de crimes sexuais, uma vez que estes nem sempre deixam vestígios. Dessa forma, entendeu comprovada a materialidade do ilícito pelo boletim de ocorrência, certidão de nascimento e laudo psicológico acostados aos autos.

Quanto à autoria, o crime ocorria quando o abusador estava sozinho em casa com a ofendida, ocasião em que o criminoso a obrigava a ingerir bebida alcoólica, para, depois, praticar com a vítima atos libidinosos. Assim, considerando a clandestinidade em que se deu o crime e a ausência de vestígios físicos detectáveis com perícia, o julgador deu especial valor probante à palavra da vítima no minucioso laudo psicológico presente no processo criminal, visto que coerentes e respaldadas por outras provas testemunhais, mantendo a condenação de E.

A Segunda Câmara Criminal, em voto de relatoria do Desembargador Getúlio Corrêa, julgou recurso de apelação de A. P. M., condenado por estupro de vulnerável contra sua afilhada K. E. H. (TJSC, Apelação n. 0001343- 84.2011.8.24.0007, de Biguaçu, rel. Des. Getúlio Corrêa, j. 06-09-2016).

carnal e atos libidinosos diversos. Note-se aqui, fato que também é verificável nos outros julgados, o lapso temporal que se deu entre o início da violência sexual e seu desfecho com a responsabilização do recorrente perante a autoridade policial.

Perceba-se como as vítimas postergam a revelação dos fatos para outras pessoas, seja por que demasiadamente ultrajantes, vergonhoso, seja por causa das ameaças sofridas, como ocorreu nesse caso.

A. P. M. visando satisfazer sua lascívia, praticava conjunção carnal e atos diversos com a vítima, sempre ameaçando a menor de idade de morte, assim como seus familiares.

Negou a autoria dos fatos na fase indiciária e em contraditório.

O relator do acórdão, porém, entendeu sua versão dos fatos como isolada e pouco crível. Já, à versão da ofendida, deu especial valor comprobatório, pois coerente e em consonância com o relato das demais testemunhas de acusação e com o estudo psicológico realizado pelo Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS).

A Terceira Câmara Criminal julgou, recentemente, através do acórdão de relatoria do Desembargador Moacyr de Moraes Lima Filho, apelação da defesa de O. B., condenado pelo crime de estupro de vulnerável contra sua filha, J. L. B. (TJSC, Apelação Criminal n. 0006527-89.2015.8.24.0036, de Jaraguá do Sul, rel. Des. Moacyr de Moraes Lima Filho, j. 07-02-2017).

No caso, o estupro ocorria através de atos diversos da conjunção carnal, consistentes em passar a mão da vítima no órgão genital do apelante e sempre que este estava sozinho com a ofendida. Ou seja, além do ilícito não ter deixado quaisquer vestígios físicos, ocorreu longe do olhar de testemunhas.

Nesse passo, apesar de a negativa de autoria por parte de O. B., o entendimento foi por dar especial valor probatório à palavra da vítima, mormente porque amparada por outros meios de prova, tais quais o depoimento da mãe, padrasto e um amigo da infante, o diário desta e o relatório psicológico atestando a presença de indícios de abuso sexual.

relatoria do Desembargador Roberto Lucas Pacheco da apelação criminal de A. B. da S., condenado por estupro de vulnerável contra a infante A. L. G.

Consta do teor do acórdão que o recorrente se valendo da confiança da criança, que frequentava sua casa para brincar com seu filho, abaixava as calças da ofendida e praticava com ela atos libidinosos diversos da conjunção carnal.

A defesa impugnou a decisão de primeiro grau sob o argumento de que a materialidade do delito não restou comprovada. Isso porque, o laudo pericial atestou que a vítima ainda era virgem e que não havia vestígios da prática de atos libidinosos ou de violência.

O desembargador relator, então, expôs seu entendimento, assentando que:

O fato de o laudo pericial consignar não haver vestígios de ato libidinoso e, tampouco, de violência contra a vítima, por si só, não tem o condão de afastar a materialidade do delito, pois, como cediço, o crime de estupro de vulnerável, na maioria das vezes, não deixa vestígios, restando comprovado, então, pela prova testemunhal, principalmente na palavra da vítima, quando firme e coerente.

E, quanto a autoria, firmou:

Tratando-se de crimes contra a liberdade sexual - geralmente cometidos às escondidas - a palavra da vítima assume forte valor probante, notadamente quando seu depoimento encontra consonância nos demais elementos de prova existentes nos autos, em especial nos depoimentos de sua genitora.

Assim, após análise do caso concreto, manteve a condenação de A. B. da S. Vale destacar que a demonstração de violência foi eliminada pela Lei n. 12.015, de 2009. Nesse passo, a simples demonstração de que houve conjunção carnal ou outro ato libidinoso com menor de 14 (quatorze) anos, já é o suficiente para a caracterização do ilícito.

Sabe-se que a discussão a respeito da relativização da vulnerabilidade é presente, havendo entendimentos jurisprudenciais para casos que revelam especial exceção, onde se considera a conduta atípica, ante a relativização da vulnerabilidade.

Porém, em regra, o entendimento majoritário é pela não relativização, firmando-se que, inclusive, o consentimento da vítima menor de 14 (quatorze) anos é irrelevante.

Por derradeiro, a respeito da clandestinidade em que são cometidos os crimes sexuais contra crianças e adolescentes e o especial valor probatório que suas palavras possuem, Tourinho Filho menciona que que naqueles crimes, ocorridos longe dos olhares de testemunhas, a palavra da vítima é de valor extraordinário e constituem a melhor e mais precisa prova do delito, quando firme, segura, coerente e harmônica com outros elementos probatórios e de convicção.58

Mossim, por sua vez, leciona que não pode o julgador e nem é concebido pela administração judicial que, havendo somente a palavra da vítima contra a negativa do réu, este seja absolvido por falta de prova, pois se assim fosse, não deveria ser proposta a aão penal, por ausência de justa causa.59

Quando um delito ocorre na clandestinidade, deve o magistrado ao elavorar sua prestação jurisdicional, observar as palavras do ofendido verificando se são coerentes e uniformes, ou seja, deve-se constatar que sua versão para os fatos merece fé e credibilidade.60

Portanto, como foi visto até agora, ouvir a criança é simplesmente um dos atos mais importantes que ocorrem no processo para a elucidação dos fatos. Primeiramente, porque o delito aqui em comento, ocorre quase que sempre na clandestinidade, o ofensor sabedor da ilicitude, na maior parte das vezes, vai fazer de tudo para escondê-lo, assim como, o repúdio a esse tipo de crime vai fazer com que ele minta e negue ter abusado do infanto adolescente. Então, basicamente, teremos aquela velha máxima, “minha palavra contra a sua”.

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