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5 PSICOLOGIA DISCURSIVA

5.2 Posicionamento e identidade

Para compreender a Teoria do Posicionamento (HARRÉ; VAN LANGENHOVE, 1999c) devemos distinguir entre os conceitos posição e posicionamento (HARRÉ, VAN LANGENHOVE, 1999a; VAN LANGENHOVE, HARRÉ, 1999a). Os discursos disponibilizam posições que o sujeito pode assumir. O conceito posição é metafórico e implica um conjunto de atributos morais e pessoais definidos pelas categorias do discurso. As posições geralmente se organizam em torno de dicotomias, sejam de caráter (dominante/dominado) ou papeis sociais (pai/mãe). Estas posições não existem isoladamente, senão que estão relacionadas umas às outras, ou seja, se tomam “em relação à” outra posição distinta ou incompatível (homem/mulher, rico/pobre, etc.). Este ato implica o posicionamento do falante dentro de um set de localizações construídas a partir de uma variedade de atributos morais. Davies e Harré (1999) agregam que para toda posição existe um repertório conceitual compatível que permite construir seus fundamentos, provendo as categorias, imagens, estereótipos e metáforas necessárias. Também é natural de cada posição estar incorporada a uma estrutural relacional de direitos e deveres para aqueles que usam estes repertórios.

Por outro lado, o posicionamento refere-se ao ato de assumir uma posição. O posicionamento outorga a pessoa uma localização, um lugar social, a partir do qual constrói sua identidade e vê o mundo. No processo interaccional as pessoas sempre estão sendo convidadas a posicionar a si mesmas em relação a uma história pessoal que dá coerência e continuidade a sua identidade. Para Davies e Harré (2007) o posicionamento é um processo de construção da pessoa em relação com os discursos disponíveis, processo que situa o sujeito em certas narrativas de vida que geram formas de conceber a si mesmo e aos demais.

van Langenhove e Harré (1999a) consideram que o sujeito, ao assumir um posicionamento, é capaz de gerar diversos efeitos em suas relações sociais. Esta ideia de um uso, consciente ou não, por parte do sujeito, pressupõe o papel ativo do ator social, entendendo o posicionamento em sua uma pragmática (WETHERELL; POTTER, 1996).

Davies e Harré (2007) agregam que o ato de posicionamento geralmente aciona conceitos com forte componente metafórico e imagético. Estes componentes servem para enfatizar certas características dos objetos ou sujeitos representados. Para Davies e Harré (1999) o posicionamento implica o uso de palavras, termos ou nomeações que mobilizam imagens e metáforas com alto conteúdo emotivo. Estas imagens têm um poder retórico geralmente invisível aos olhos dos falantes.

Apesar de que as posições não são livremente construídas já que os recursos discursivos são limitados pelo contexto cultural, o sujeito dispõe de uma gama de significados para construir sua identidade. A noção de posicionamento concebe um sujeito livre e capaz de escolha. As posições assumidas são filtradas pela experiência pessoal que contribuem a uma forma pessoal de vivenciar estes lugares sociais.

Existem distintos tipos de posicionamento (HARRÉ; VAN LANGENHOVE, 1999a). O posicionamento moral implica localizar-se dentro de uma ordem moral que inclui papeis sociais esperados ou a subscrição a alguma estrutura institucional. O posicionamento pessoal implica posicionar-se segundo características individuais, particularidades da personalidade ou caráter. Outros tipos são o autoposicionamento e o posicionamento dos outros, entendendo que estes se dão em uma lógica relacional. Quando uma pessoa se autoposiciona sempre o faz em relação a outro que está, explicita ou implicitamente, também posicionado no discurso. Estas definições determinam quem tem o direito ou o status moral para julgar ao outro. Relacionalmente, aciona-se um jogo em que o principal objetivo é a validação de si mesmo. Os discursos permitem a construção da própria identidade e da imagem dos outros, mas também possibilitam estratégias de negociação que permitem aceitar ou questionar tais definições. O posicionamento dos outros pode adquirir a característica de um posicionamento forçado, quando as possibilidades de resistência estão mais limitadas. Por exemplo, quando uma instituição tem o poder de classificar as pessoas através de determinadas categorias.

O ato de posicionamento é dinâmico e complexo, já que cada indivíduo se engaja simultaneamente em várias posições que devem ser negociadas para conformar uma identidade única e coerente. Portanto, os sujeitos são capazes de experimentarem uma multiplicidade de posicionamentos que constituem sua identidade. Esta multiplicidade é possível graças a cinco processos (DAVIES; HARRÉ, 1999, 2007):

a) O aprendizado de categorias discursivas que se organizam dicotomicamente (masculino/feminino, homem/mulher, pai/filho, etc.). Isto parece estar relacionado

com certos estereótipos construídos no discurso que definem posições dicotômicas. O posicionamento implicaria em alguns casos “conformar-se” com estes estereótipos senão se ativam estratégias de questionamento;

b) O contato com discursos que incluem estas categorias. Uma vez que estas categorias portam um significado particular, permitem construir posições;

c) O ato de posicionamento nas categorias disponíveis e a utilização dos argumentos que estas disponibilizam para justificar esta pertença. A pertença geralmente é excludente, o sujeito pode se identificar somente com um dos polos da dicotomia;

d) O autoreconhecimento de si mesmo como membro de uma categoria. Isto implica defender um ponto de vista, ter um compromisso emocional e identificar-se com um sistema moral, dados pela pertença categorial;

e) Os processos anteriores são possíveis pela existência da gramática da primeira pessoa (“eu”), que possibilita que o sujeito se compreenda como unitário, contínuo e coerente. O anterior não exclui a possibilidade de contradição, mas esta é vivenciada de forma problemática, sendo algo que deve ser justificado para reduzir a incoerência.

Davies e Harré (2007) propõem a existência de uma identidade múltipla composta por diversos posicionamentos, não livre de tensões internas, que podem ser resolvidas (ou não) através de diversas estratégias retóricas acionadas pelos sujeitos. Por este motivo, Harré (1991) afirma que a pessoa é continuidade, unidade e singularidade, mas também descontinuidade e multiplicidade, a nível psicológico, subjetivo e social.

Harré et. al. (2009) afirmam que para que os sujeitos construam uma identidade coerente alguns posicionamentos se estabilizam e adquirem mais relevância na constituição da identidade. Os posicionamentos estáveis definem a identidade pessoal por serem altamente significativos e integrar a narrativa de vida do falante. Esta dimensão narrativa entrega uma linha de continuidade aos posicionamentos subjetivos, permitindo a unicidade da identidade.

Também, segundo Harré (1991), a ação da gramática da primeira pessoa permite unificar a multiplicidade de posicionamentos em uma identidade unitária. Os pronomes da primeira pessoa (eu, mim, meu, etc.) são os que possibilitam esta integração. Este dispositivo lingüístico permite o senso de continuidade e coerência do sujeito, uma localização espaço- temporal e a manifestação de um ponto de vista singular. Esta gramática permite a existência de um senso de self (Harré, 1991) que agrupa todos os posicionamentos relevantes.

Para van Langenhove e Harré (1999a) o self se conforma como um set de lugares sociais, uma rede de posicionamentos. Esta ideia indica que a multiplicidade de posições assumidas materializa diversas relações sociais. Em cada conversação as posições estão sendo atualizadas e, na medida em que estas conversações se tornam recorrentes, se transformam em padrões relacionais que estabilizam posições relevantes para a identidade. Desta forma, mudança e continuidade podem conviver sem contradição na formação da identidade pessoal.

Para Harré e van Langenhove, (1999b) a construção do self nasce entre a localização do sujeito em identidades sociais múltiplas e uma identidade pessoal particular e única. Para os autores a interrogação relevante que devemos esclarecer é como um mesmo indivíduo tem uma trajetória vital única, mas exerce diversas identidades sociais em sua história de vida. Em outras palavras, devemos tentar entender como uma identidade pessoal continua se relaciona como identidades sociais variáveis. Para van Langenhove e Harré (1999a) a relação entre identidade singular e identidades sociais conformaria a imagem da pessoa completa.