No capítulo II foram relacionados vários julgados do STF que demostraram a aplicação do princípio da insignificância aos crimes militares, notavelmente eram recursos de Habeas Corpus. Dessa forma, pode se dizer que o Supremo já acenou para a aceitação deste princípio da insignificância em situações que não aquelas expressas no Código Penal Militar.
Como no caso do Habeas Corpus n.º 92.961/SP julgado em 11/12/2007, cujo relator foi o Ministro Eros Grau, decidindo-se pela admissão da incidência do princípio da insignificância no caso em que um militar do Exército fora flagrado, dentro do quartel, fumando um cigarro de maconha e tinha consigo outros três.
No julgado, aplicou-se o princípio da insignificância para absolver militar condenado pela prática do crime de posse de substância entorpecente. Contudo, isso não eximiu o militar de ser punido pelo CPM, eis que no julgado consta que “o paciente já fora punido com exclusão das fileiras do Exército, sanção suficiente para que restassem preservadas a disciplina e a hierarquia militares”. Dessa forma, o que foi afastado foi a tipicidade do crime do artigo 290 do CPM , pois a “despeito do princípio da especialidade e em atendimento ao princípio da dignidade da pessoa humana, considerou-se que a Lei de Drogas (Lei 11.343/2006) deveria incidir na hipótese. (artigo 28 da Lei 11.343/2006). Reza o citado artigo 290 do CPM.
Art. 290. Receber, preparar, produzir, vender, fornecer, ainda que gratuitamente, ter em depósito, transportar, trazer consigo, ainda que para uso próprio, guardar, ministrar ou entregar de qualquer forma a consumo substância entorpecente, ou que determine dependência física ou psíquica, em lugar sujeito à administração militar, sem autorização ou em desacôrdo com determinação legal ou regulamentar:
Pena - reclusão, até cinco anos. (BRASIL, 1969)
Por sua vez, em outras decisões posteriores do Supremo Tribunal Federal não têm confirmado o entendimento do citado Habeas Corpus n.º 92.961/SP (julgado em 11/12/2007).
Como exemplo, há o julgamento no STF do Habeas Corpus n.º 104.923/RJ, do relator Min. Celso de Mello, julgado em 26/10/2010 decidiu que o militar flagrado na posse de substância entorpecente dentro do recinto castrense não é de quantidade, nem mesmo do tipo de droga que se conseguiu apreender. O problema é de qualidade da relação jurídica entre o particularizado portador da substância entorpecente e a instituição castrense de que ele fazia parte, no instante em que flagrado com a posse da droga em pleno recinto sob administração militar. Para o ministro a tipologia de relação jurídica que se instaura no ambiente castrense é incompatível com a figura própria da insignificância penal, pois, independentemente da quantidade ou mesmo da espécie de entorpecente sob a posse do agente, o certo é que não cabe distinguir entre adequação apenas formal e adequação real da conduta ao tipo penal incriminador. É de se pré-excluir, portanto, a conduta do paciente das coordenadas mentais que subjazem à própria tese da insignificância
penal. Dessa forma, conclui-se que uso de drogas e o dever militar são como água e óleo: não se misturam.
Em outro Habeas Corpus n.º 111.017/RS do Rel. Ministro Ayres Brito do STF, julgado em 07/02/2012 decidiu que o tema da insignificância penal diz respeito à chamada “legalidade penal”, expressamente positivada como ato-condição da descrição de determinada conduta humana como crime, e, nessa medida, passível de apenamento estatal, tudo conforme a regra que se extrai do inciso XXXIX do art.
5º da CF, ipsis litteris: “não há crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem prévia cominação legal”. O Ministro assevera que mesmo que as diretivas de aplicabilidade do princípio da insignificância penal não são mais que diretivas mesmas ou vetores de ponderabilidade.
Portanto, não significa que será aplicada em todo caso concreto, como exemplo cita os crimes propriamente militares de posse de entorpecentes e nos delitos de falsificação da moeda nacional, exatamente como assentado pelo Plenário do STF no Habeas Corpus n.º 103.684 (julgado em 21 de outubro de 2010) e por esta Segunda Turma no Habeas Corpus de n.º 97.220 (julgado em 05 de abril de 2011), ambos da relatoria do ministro Ayres Britto. Nesse sentido, o ínfimo valor do bem, ou seja, a reduzida expressividade financeira dos bens objeto da tentativa de furto, o reconhecimento da insignificância material da conduta increpada ao paciente servia muito mais como um nocivo estímulo ao cometimento de novos delitos do que propriamente uma injustificada mobilização do Poder Judiciário.
Noutro julgamento do STF, Habeas Corpus n.º 107.638/PE, julgado em 13/9/2011, a 1ª Turma concedeu habeas corpus para aplicar o princípio da insignificância em favor de militar denunciado pela suposta prática do crime de peculato-furto. No caso foram apreendidos gêneros alimentícios na posse do paciente, no valor de R$
215,22, pertencentes à organização militar em que trabalhava como cozinheiro.
Neste Habeas Corpus acima, a relatora Ministra Cármen Lúcia afirma que mesmo no caso de delito militar, admite a aplicação do aludido postulado desde que,
presentes os pressupostos gerais, não haja comprometimento da hierarquia e da disciplina exigidas dos integrantes das forças públicas. Ressaltou-se, por fim, que na situação dos autos, não houvera lesividade ao patrimônio, pois os bens permaneceram no local. No tocante à hierarquia e à disciplina, assinalou-se que estas não foram comprometidas, uma vez que ocorrera o desligamento do denunciado das Forças Armadas.
Pode até parecer repetitivo colacionar os julgados novamente a respeito da aplicabilidade do princípio da insignificância. Porém, a intenção é demonstrar os diferentes posicionamentos contemplados no entendimento dos Tribunais brasileiros.
O STM pondera quanto a aplicação desse princípio haja vista que a incidência deste princípio em várias ocasiões, havendo julgados favoráveis e contrários conforme o crime, de fato nos julgados mais recentes o Tribunal Militar repele a aplicação do princípio nos crimes de entorpecentes cometido por um militar.
Pela decisão recente não se aplica o princípio, transcreve-se ipsis litteris:
A autoria delitiva é inferida da própria situação de flagrância em que se deu a apreensão de maconha (Cannabis sativa Lineu) no interior do quartel. A materialidade foi comprovada pela constatação, por laudo oficial, de substância entorpecente que determina dependência física ou psíquica, o que impossibilita a pretendida absolvição.
A constatação da pequena quantidade de maconha apreendida em poder do acusado não descaracteriza a tipicidade da ação delitiva. É inviável a absolvição com base na tese da insignificância ou da subsidiariedade do Direito Penal, porque a tipicidade da conduta se dessume do desvalor da conduta que atinge, gravemente, bens jurídicos de relevo para a vida militar e não apenas a saúde do infrator.
As convenções de Nova Iorque e de Viena não podem ser invocadas para confrontar a constitucionalidade com o art. 290 do Código Penal Militar no tocante ao porte de drogas na caserna, haja vista a compatibilidade da aludida norma penal militar com a Constituição Federal de 1988.
Em homenagem ao princípio da especialidade, afasta-se a aplicabilidade, no âmbito militar, da Lei nº 11.343, de 23 de agosto de 2006, que instituiu o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre drogas. A par de reiterada jurisprudência firmada nesta justiça especializada e do que dispõe o art. 1º da Lei nº 9.839 de 27 de setembro de 1999, os institutos jurídicos contidos na Lei nº 9.099 de 26 setembro de 1995 não têm alcance nas ações penais em curso na Justiça Militar da União, ante a especialidade de seu ordenamento normativo.
Apelo defensivo desprovido. Decisão unânime. (Superior Tribunal Militar, Num: 000010498.2015.7.09.0009 UF: MS Decisão: 21/09/2016 Proc:AP -APELAÇÃO; Data da Publicação: 04/10/2016)
Outra decisão recente se verifica a não aplicação do princípio da insignificância no julgamento de n.º 0000117-23.2015.7.05.0005 UF: PR Decisão: 20/09/2016 decidiu que “é pacífico o entendimento desta Corte Castrense e da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal acerca da inaplicabilidade, na espécie, do princípio da insignificância aos crimes relacionados a entorpecentes.”
De fato, o STM possui entendimento firme pela inaplicabilidade do princípio da insignificância aos crimes relacionados a entorpecentes. Assim, o Tribunal Militar em relação às condutas que envolvem entorpecentes não reconhece a atipicidade da conduta do militar (com fulcro no Princípio em estudo) independente da quantidade de entorpecente encontrada no caso concreto.
Por outro lado, o STM aplica o princípio da insignificância em casos de lesão corporal se comprovado a lesão mínima ou irrelevante. Assim, se constata no julgamento de n.º 0000015-16.2013.7.10.0010 UF: Decisão: 13/09/2016, o relator o Ministro Relator Carlos Augusto de Sousa considerou que quando verificados, sob o ponto de vista jurídico, serem inexpressivas as lesões sofridas pelo ofendido, e constatada a presença dos quatro vetores de observância obrigatória e cumulativa para a aplicação do princípio da bagatela, de acordo com a jurisprudência pátria ((a)mínima ofensividade da conduta do agente; (b) nenhuma periculosidade social da ação; (c) reduzido grau de reprovabilidade do comportamento; e (d) relativa inexpressividade da lesão jurídica), deve ser reconhecida a insignificância lesiva da conduta.
Realmente, os tribunais superiores avaliam caso a caso, quanto a aplicação do princípio da insignificância, não há dúvidas que o STM não admite sua aplicação nos crimes em que foi violado a disciplina e hierarquia, eis que são institutos castrenses necessárias a manutenção das Instituições Militares.
6 CONCLUSÃO
O Princípio da Insignificância postula como finalidade principal afastar a tipicidade penal do fato. Dessa forma, o fato passa a ser atípico em razão da ausência de tipicidade material. Quando ele é aplicado a conduta do agente se torna atípica e, portanto não há crime, assim deixa de ser merecer a intervenção do Direito Penal.
Não há dúvidas que os postulados de intervenção mínima e fragmentariedade do direito penal, representam um alicerce para o desenvolvimento e afirmação do princípio da insignificância. Eis que em casos concretos, consta-se que o crime previsto na lei pode ser tido como atípico conforme a explicação acima. É fato que o princípio da insignificância segundo a doutrina exposta no trabalho possui guarita para aplicação em crimes comuns.
Por sua vez, no caso da incidência do referido princípio aos crimes militares próprios ou impróprios não há unanimidade doutrinária e jurisprudencial. Contudo, esse princípio vem se fortalecendo e sendo aplicado aos agentes que praticam crimes militares de menor repercussão jurídica, conforme demonstrado nos diversos posicionamentos do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal Militar.
Constatou-se que as decisões jurisprudenciais contrárias à aplicação do Princípio da Insignificância aos crimes militares se baseiam na tese de que na aplicação do referido princípio deve se levar em conta além do aspecto econômico da lesão causada ao bem juridicamente protegido, os valores militares. É necessário constatar se houve afronta aos princípios basilares da hierarquia e disciplinas militares, em caso positivo não se aplica o Princípio da Insignificância, afinal contraria os pilares da instituição militar. Tal posicionamento é unânime pelo STM quando violam-se os princípios da hierarquia e da disciplina.
O que ainda pôde ser observado é que a aplicação do princípio da insignificância pela autoridade policial militar, no procedimento investigatório, é um assunto mais polêmico que aplicação do referido princípio no curso de um processo criminal
militar, por que não cabe a autoridade militar decidir no processo investigatório pela aplicação do princípio da insignificância, mesmo que tenha razões por considerar aplicável o aludido princípio no caso concreto, afinal, quem decide pelo arquivamento do inquérito policial será o Ministério público.
Caso seja admitida a remota hipótese de admitir que a autoridade policial realizasse a aplicação do princípio seja no caso em flagrante ou no curso final de um procedimento investigativo seria necessário capacitar ainda mais tecnicamente (área jurídica) os investigadores, diante da deficiência técnica que se observa na prática.
Razão pela qual não concordar com uma aplicação mais ampla do postulado da bagatela pela autoridade militar para opor-se a deflagração do procedimento inquisitorial. Contudo, mesmo que tenha o respaldo técnico necessário, admitir a aplicação do princípio da insignificância contraria o disposto co Código Penal, afinal não cabe decidir sobre o arquivamento do inquérito caso seja de aplicação do tal princípio pelo poder judicante, pois isso significa usurpar a competência jurisdicional.
Por outro lado, também há vários entendimentos jurisprudenciais favoráveis à aplicação do citado princípio mesmo quando se trata de crimes militares, porém muitos ocorrem somente na última instância, no STF, que exige que a conduta tenha mínima ofensividade, que não haja periculosidade social, que o grau de reprovabilidade seja reduzido e que a lesão jurídica provocada seja inexpressiva.
De fato, não se pode perder de vista que tais critérios (vetores) revestem-se de elevada subjetividade, devendo ser avaliados individualmente diante de um caso concreto, por parte dos magistrados.
Nesse sentido, pode haver casos que aplicação do princípio não seja admitida pelo Tribunal em determinado momento, porém se alterado os magistrados de uma corte, poderá admitir o princípio em um caso similar que antes não foi admitido. Isso revela em um primeiro momento em uma insegurança jurídica, ainda mais, se considerarmos que o princípio da insignificância possui uma restrita relação na aplicação de uma política criminal que pretende, por exemplo, despenalizar algumas
medidas. Isso seria uma atribuição do legislador, porém diante da inércia, resta aos operadores do direito recorrerem aos institutos principiológicos como o princípio da insignificância.
Finalmente, pode-se inferir de que para a justa e devida aplicação do Princípio da Insignificância deve ser analisado o caso concreto, haja vista que um dano considerado ínfimo, depende de valoração do seu julgador. Ademais, o uso indevido do postulado pode gerar casos de impunidade. Por essa razão vários aspectos e critérios devem ser verificados antes de se aplicar este instituto aos crimes militares, haja vista que a reincidência de um agente público não é uma conduta que se espera dele, pois é considerado defensor da pátria, do patrimônio, e sobretudo dos cidadãos.
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