CAPÍTULO I – Apontamentos críticos sobre a filosofia da educação: do surgimento
2.4. Positivismo: filosofia e ensino no Brasil
O positivismo, enquanto doutrina e escola criada por Augusto Comte (1798- 1857), se estrutura num momento histórico em que a Europa passava por profundas transformações políticas, econômicas e sociais. Com a Revolução Francesa, a burguesia, auxiliada pelas classes populares, tomou o poder político, acabou com os privilégios da nobreza e do clero, buscando consolidar-se no poder. Trata-se, agora, de assegurar o predomínio político e social da burguesia sobre as demais classes sociais, inclusive sobre as camadas sociais que a auxiliaram na tomada do poder, e manter o seu “status quo”. Para isso, era preciso criar uma ideologia que justificasse a nova estrutura de classe vigente na sociedade, dando a ela respaldo moral para manter sua dominação sobre a grande massa de trabalhadores e aumentar cada vez mais o seu capital através da extração da mais valia.
É a partir deste contexto que Comte elabora a sua teoria e a sua escola, dando a ela um ar de ciência para reformar a sociedade, criar uma nova religião e validar os
projetos da nova classe que está no poder. Assim, ele critica a metafísica e a religião que deram respaldo às antigas classes dominantes e, também critica a idéia de revolução porque, neste novo momento histórico, interessa manter e “petrificar” a estrutura social que garante os seus privilégios de classe. Torna-se necessário um novo poder religioso fundamentado na ciência empírica, positiva. Uma ciência exata que garantiria a ordem, a paz e o progresso da humanidade.
Influenciado pela teoria da evolução de Darwin, Comte aplica os seus princípios ao mundo moral, social e histórico, deixando a marca do evolucionismo em sua filosofia positiva. Como uma doutrina orgânica, tanto prática como teoricamente, é no Curso de filosofia positiva (1831-1842) de caráter mais filosófico científico e no Sistema de política positiva (1851-1854) de conotação político-religiosa que a sua escola se estrutura. De todo modo, “o problema do método, da classificação das ciências e da subordinação de todos os problemas àquele do homem em sociedade, constituíram a problemática comteana” (VITA, 1968, p.133), que tinha a reforma social e política como principal meta, e não a constituição de uma nova ciência ou de uma filosofia diferente. É para atingir a sua principal meta que Comte concebe a filosofia e a ciência sob novas bases, defendendo um novo método de conhecimento.
Epistemologicamente, o positivo é, para ele, fundamentado na observação sistemática da realidade natural ou social que constitui a “única base possível dos acontecimentos realmente acessíveis” (COMTE, 1973, p.16), o que permite verificar nos fenômenos não um simples amontoado de fatos, mas a invariabilidade das leis naturais da realidade estudada. Desse modo, Comte defende que somente pela observação científica é possível provar a universalidade de uma dada lei científica. Com isso ele destrói a metafísica, a abstração, a teologia e, num espírito positivo, postula um conhecimento geral da natureza e do homem, fruto da sistematização científica e lógica. Substitui a busca das causas, do quê, do porquê e do para quê pelo como, isto é, pela pesquisa dos fatos e das relações permanentes entre eles, determinando as leis através da ciência positiva. O espírito positivo de crença na ciência passa a ser um novo dogma, uma nova religião da humanidade.
Pode-se afirmar que o sistema positivista se fundamenta nos princípios da lei dos três estados, na classificação das ciências e na religião da humanidade.
Em sua filosofia da história, Augusto Comte diz que a humanidade passou por três estados sucessivos, que correspondem a atitudes assumidas pela humanidade em seus períodos históricos fundamentais: o primeiro estado é o teológico, em que o homem explica os fenômenos por meio de ação de seres sobrenaturais cujas fases são o fetichismo, o politeísmo e o monoteísmo. O segundo estado é o metafísico em que tudo se explica com base em idéias abstratas, em princípios racionais que trazem consigo uma ausência da ordem, uma tendência à anarquia; portanto, é negativo. Por fim, o terceiro estado é o positivo ou real: aquele em que a investigação, através da observação dos fatos, do dado real, descobre suas relações e revela as leis. “É aquele em que o espírito renuncia a procurar os fins últimos e a responder os porquês. Já não é a velha noção de causa que predomina, mas a noção de lei” (BERGO, 1979, p.34). É a superação da fase crítica do segundo estado. Socialmente, o poder espiritual passa para o controle dos sábios, e o poder temporal passa às mãos dos industriais. Dessa forma, o positivismo defende mais do que uma nova forma de organização da ciência, mas, também, postulava a ordem de um estado total e hierárquico que tomasse “o amor como princípio, a ordem como base, o progresso como fim” (COMTE, 1973, p. 130), de acordo com os interesses da burguesia industrial.
Defendendo uma sociedade extremamente rígida e hierarquizada, COMTE (1972, p.108) subdivide a elite da sociedade em três classes: a classe dos cientistas, “para determinar o plano do novo sistema”; a classe dos artistas, “para provocar a adoção universal desse plano” e a classe dos industriais, “para pôr o sistema em atividade imediata, pelo estabelecimento das instituições práticas necessárias”. Cabe a essas classes conduzir a sociedade através do poder espiritual dos cientistas e pelo poder temporal dos industriais. Ao operário cabe apenas o trabalho obediente e ordeiro. Essa doutrina dos três estados e a sua visão política “constituem uma tentativa conseqüente de atribuir ao processo histórico rigidez análoga à que a ciência do século XIX supunha existir no âmbito da natureza” ( PAIM, 1967, p.187).
Na classificação das ciências, mostra que o saber humano vai numa lógica das ciências mais abstratas (matemáticas, astronomia), para as ciências mais concretas e complexas ( física, química, biologia e por fim a sociologia). A sociologia, concebida como uma física social, completa a filosofia positiva elaborando uma teoria racional que
compreenda e explique o conjunto das leis fundamentais próprias aos fenômenos humanos.
A Religião da Humanidade, onde a humanidade, denominada como o Grande-Ser toma o lugar de Deus, acabou penetrando nos rumos da ortodoxia positivista brasileira, cultuando os grandes homens, os mortos ilustres, pregando uma moral social altruísta e exigindo do homem o viver para o próximo. Deste modo, a religião positiva, tendo como seu clero os filósofos-sociólogos, institui a anterioridade moral que se impõe a todos os membros da sociedade e os leva do egoísmo ao altruísmo. Desse modo, estabelece deveres e subordina a política à moral. Uma moral que, como parte da sociologia, possui uma fundamentação científica.
A partir da segunda metade do século XIX, a história da sociedade brasileira sofre uma grande transformação. Com a abolição do tráfico negreiro, com a inauguração da primeira estrada de ferro, com a construção das primeiras linhas telegráficas, com o incremento das atividades inglesas, surgem e crescem novas iniciativas comerciais, financeiras e industriais no país. O Brasil, já no ano de 1860, apesar de manter o conservadorismo político do império, avança rumo ao progresso econômico num sentido moderno e, também, em sintonia com o capitalismo contemporâneo. Em uma nova conjuntura internacional, a agricultura, com seus respectivos produtos como o algodão, a cana-de-açúcar e tabaco, enquanto principal atividade produtiva do país, entra em decadência nas regiões norte e nordeste. Em contrapartida, com a imigração de mão de obra européia e com o povoamento de terras férteis ainda inexploradas, com clima ameno, a economia ganha novo impulso nas regiões sul e sudeste através do desenvolvimento das lavouras de café.
Este produto ganha importância nos mercados internacionais, alavanca as exportações brasileiras através dos portos do Rio de Janeiro e de Santos, a criação de estradas e se torna a principal fonte de riqueza do Brasil naquele momento. Neste período, “os fazendeiros de café se tornam a elite social brasileira” (PRADO JR, 1988, p.167), seus interesses impulsionam a economia, influenciam nos rumos da organização social e São Paulo lidera o cenário político do Brasil. No entanto, o sistema econômico continua a ser baseado na grande propriedade rural, monocultural, de exportação, trabalhada por escravos até a decadência e a abolição da escravidão em maio de 1888.
Com o fim legal do trabalho servil, a lavoura e as indústrias manufatureiras passam a empregar, em larga escala, a mão de obra de imigrantes europeus.
Enquanto o país se desenvolvia economicamente, novas idéias começam a conquistar espaço entre a intelectualidade brasileira, nos setores médios da sociedade urbana, entre os oficiais das forças armadas e passaram a influir nos rumos políticos e educacionais da Nação. No século XIX e no início do século XX, o país foi marcado pelo pensamento de Augusto Comte. A partir de 1870, essas novas idéias, que já ocupavam espaço no pensamento europeu durante o século XIX, tais como o positivismo contista, o evolucionismo de Darwin e de Spencer, o intelectualismo de Taine e de Renan passam a fazer parte da vida nacional. Pode-se dizer que:
Os paulistas da florescente sociedade cafeeira e os filosofantes da escola de direito do Norte abririam, no último quartel do século XIX, mais largas perspectivas à inteligência nacional. Os primeiros pela sua iniciativa econômica; os segundos, pela agitação de idéias novas de que foi centro o Recife daquela época (COSTA, 1967, p. 116).
É na Escola de Recife que surgem novas idéias, críticas, sobre filosofia e literatura na cultura nacional, instaurando-se uma fase pós-romântica. É na faculdade de direito, entre juristas e advogados, e na imprensa que as novas idéias vindas da Europa ganham espaço e se difundem. Aparecem, aí, fortes críticas ao trabalho servil, à monarquia e faz-se uma vigorosa defesa dos ideais republicanos. Desse modo, dá-se uma formidável renovação no pensamento nacional, tendo Pernambuco um papel de destaque.
Os representantes do pensamento moderno no Brasil eram, também, representantes e herdeiros de uma nova modalidade de burguesia constituída por comerciantes e burocratas que surgiram nas cidades. Esses novos burgueses ingressaram nas faculdades de direito do país, nas escolas técnicas Central e Militar, constituídas principalmente por engenheiros, médicos e militares, se inspiraram nos princípios de Augusto Comte, lutaram contra o regime monárquico e ajudaram na implantação da República no Brasil.
É dessa nova burguesia e seus intelectuais, muitos desiludidos com a filosofia eclética espiritualista ensinada nas escolas, distante das ciências positivas, pois faltavam “instituições destinadas aos estudos filosóficos metódicos e à pesquisa científica, em
que se desenvolvem o espírito crítico e experimental e o gosto da observação e dos fatos” (AZEVEDO, 1963, p.580), que desabrochou o movimento positivista no País.
É nesse quadro econômico e político que o positivismo surgiu e ganhou inúmeros adeptos entre a intelectualidade brasileira, conquistando, de forma dominante, a mentalidade de boa parte dos nossos políticos atuantes. Portanto, “é ao estudo atento da influência do positivismo que se deve recorrer, quando se pretende compreender o sentido de nossa meditação filosófica contemporânea” (PAIM, 1966, p.550). Isto é importante porque a mentalidade positivista ainda está presente na contemporaneidade das idéias filosóficas encontradas no Brasil e, também, no campo científico, político e social.
É a partir de 1837 que os brasileiros que estudavam na escola Politécnica, em Paris, entraram em contato com os cursos de Augusto Comte. Mas é com o matemático e militar Benjamin Constant, representante da pequena burguesia brasileira, que o positivismo ganha um grande propagador e chega a influenciar o movimento republicano e a própria proclamação da república.
O iniciador do positivismo no Brasil foi o Dr. Luís Pereira Barreto, que publica em 1874 o primeiro volume da obra As Três Filosofias. Assumindo as doutrinas de Augusto Comte, ele inaugura a tendência positivista no Brasil, critica a teologia, a decadente influência da igreja e propõe uma luta religiosa para libertar a nação e o seu ensino da secular teologia católica. Apesar de não ser original, Pereira Barreto queria “encontrar, nas novas doutrinas que a filosofia moderna lhe apresentava, uma diretriz nova para a vida política nacional” (COSTA, 1967, p. 136). Apesar de estudar na Europa, ele demonstra sempre, em seus escritos, uma preocupação com os rumos do Brasil. E lhe chamavam muito a atenção os problemas relativos à educação. Para ele, era necessária uma reforma radical do ensino oficial, libertando-o da igreja, dando-lhe uma nova orientação e utilizando-o na educação das massas para, com isso, transformar o país. Aponta o ensino corporativo ministrado pela igreja católica e pela academia como os responsáveis pela corrupção dos nossos costumes. Entretanto engana-se, pois o ensino “apenas reflete os defeitos e fraquezas das nossas condições sociais, políticas e econômicas”(COSTA, 1967, p. 137).
Não se trata, para Pereira Barreto, de um mero jogo de idéias que repita as doutrinas puras, mas de uma reforma prática que apresente a doutrina positiva como um
novo guia para a inteligência de seu tempo, renovando a nossa cultura, libertando-a da tutela eclesiástica e propondo a supressão da teologia.
Como se vê, a filosofia positivista e sua escola não surgem espontaneamente, mas como parte dos problemas de uma certa época histórica do País. Nesta perspectiva, ela corresponde “ao estado geral das ciências que lhes são contemporâneas, procurando lhes dar uma base conceitual e sistemática..., uma coerência metodológica” (MORAES FILHO, 1965, págs. 59,69).
Em seu percurso filosófico, na sua obra Três Filosofias, e adotando um espírito relativista, ele procurava, na filosofia positivista, um método científico que apontasse os caminhos para se compreender, de fato, a realidade política e social brasileira em seu processo de mudanças. Assim, não apenas para Pereira Barreto, mas para o século XIX, o positivismo “representou uma visão de conjunto das ciências naturais e do seu impacto na sociedade moderna surgida depois da Revolução Francesa. Não se limitou à elucubração de um homem só, transformando-se em capa de cultura de todo um século (Ibid, p.62).
Pereira Barreto, influenciado principalmente pelo positivista Emile Littré e outros como Locke, Berkeley, Kant e Hartmann, pode ser considerado um positivista heterodoxo e pouco original em sua doutrina. Ele se preocupa mais com os problemas políticos e sociais, combate a submissão da inteligência aos dogmas e não se interessa tanto pela religião da humanidade. Pelo seu modo de pensar, ele entrou em antagonismo com os positivistas do grupo do Rio de Janeiro, muito mais interessados em seguir as ortodoxias do pensamento de Augusto Comte.
Neste contexto histórico, de grande efervescência política e cultural, surgiram grupos, influenciados pelos ideais positivistas e liberais, que passaram a criticar severamente a escravidão, o atraso da elite política latifundiária, do império e das suas relações com o clero católico que abonava o conservadorismo político e social. Este grupo passa a atuar no sentido de defender uma mudança política: a abolição da escravatura, a instauração da democracia e da república no Brasil. É desse grupo que vão surgir grandes representantes e defensores do positivismo no país, tais como Benjamim Constant, Miguel Lemos, Teixeira Mendes e outros. Nessas condições históricas, preocupados com os desafios de sua época, os positivistas, à semelhança de outros pensadores brasileiros, buscaram suporte teórico em Augusto Comte a partir do
ambiente brasileiro e não como meros reprodutores de idéias elaboradas no exterior, importadas e reproduzidas aqui. Como ressalta AZEVEDO:
Nenhuma doutrina, porém, depois da escolástica, teve maior repercussão entre nós nem exerceu um papel mais disciplinador do que a escola positivista que se introduziu no Brasil na segunda metade do século XIX, e se difundiu, sobretudo no sul, sob a orientação de L. Pereira Barreto e, especialmente, de Miguel Lemos (1854-1916) e Teixeira Mendes (1855-1927).(...) o positivismo, de que se tomaram antes as idéias de reforma social e política do que os métodos, concorreu notavelmente, pela disciplina mental e moral dos homens que receberam a impressão dessa corrente, como um Benjamin Constant, para a reação contra a anarquia, a defesa da ordem e a consolidação do novo regime político (AZEVEDO, 1963, págs. 425-426).
Desenganado das filosofias já conhecidas e divulgadas nas escolas brasileiras, Miguel Lemos, em fins de 1874, entra em contato, pela primeira vez, com a doutrina de Augusto Comte. Sofre a influência de Benjamin Constant que, em 1875, faz a leitura da parte da matemática do primeiro volume do Curso de Filosofia Positiva, se entusiasma e adere às idéias filosóficas de Comte. Também influenciado por Benjamin Constant, Teixeira Mendes adere, no mesmo ano, à filosofia positiva. Lendo e meditando sobre várias obras positivistas, os amigos, Miguel Lemos e Teixeira Mendes, adotam Comte como o pai espiritual de ambos e escreveram várias obras juntos. Influenciados pela matemática e pelas idéias republicanas, viram na ciência positiva de Augusto Comte, as bases de uma política racional que levaria à ordem e ao progresso do País.
Os positivistas se constituíam em dois grupos: o heterodoxo, influenciado pela leitura positivista de Littré, que utilizava o positivismo como um instrumental teórico para a leitura e análise da realidade, incorporando o “espírito positivista” (VITA, 1965, p.154), politicamente mais ativo, e outro ortodoxo, restrito à leitura e interpretação, sem discrepâncias fundamentais, da totalidade da filosofia positivista de Augusto Comte, deixando de lado as preocupações e atividades políticas e sociais. Este movimento intelectual fundou, em abril de 1876, a primeira associação positivista no Brasil, sem caráter religioso, abarcando o conjunto de pessoas adeptas ao comtismo e que buscavam estudar e discutir a totalidade dos aspectos humanos, rompendo, assim, a mistura de teologia e metafísica tradicionalmente ensinada nos cursos de filosofia escolar, _ uma filosofia meramente literária, retórica, erudita, que se limitava a uma reprodução infiel de compêndios estrangeiros ou de reprodução e interpretação de clássicos e de
românticos vindos da Europa. Este foi, sem dúvida, um passo importante para solidificar a escola positivista no Brasil.
Ao comentar as influências do positivismo no país, Miguel REALE diz que o positivismo ortodoxo:
Teve a sorte de realizar no Brasil, uma série de aspirações políticas que não encontraram ambiente propício em França para seu triunfo (...). Sob certo prisma, nós fomos mais comtianos do que os adeptos franceses do autor do Sistema de Política Positiva, cujos pontos de vista teóricos foram convertidos, com o advento da República, em prática ideológica. Mais importante, porém, de que o estudo dos ortodoxos do comtismo é a apreciação daquele movimento que sob a denominação lata de Escola Positivista, congregava, tanto seguidores de Comte como de Spencer, Noiré, ...etc. Pois bem, a essa corrente de pensamento foi dado realizar uma tarefa crítica, no mais amplo sentido desse termo, colocando em xeque valores tradicionais, com o propósito de indagar as raízes de nossas crenças e tradições (REALE, 1973, p. 7).
Na luta brasileira entre os positivistas heterodoxos, influenciados principalmente por Émile Littré, e os ortodoxos, seguidores das idéias de Pierre Laffitte, como Miguel Lemos e Teixeira Mendes, o Apostolado Positivista do Brasil teve grande significado no reforço e na consolidação da ortodoxia positivista brasileira.
Inicialmente littreísta, Miguel Lemos, após se encantar com as idéias de Laffitte, em Paris, critica o cético Littré, converte-se ao positivismo religioso, consegue a adesão de seu amigo Teixeira Mendes, transforma a sociedade positivista do Rio de Janeiro em um núcleo de ação propagadora do positivismo ortodoxo e de suas ações cívicas, tecendo severas críticas à sociedade baseada no trabalho escravo, defendendo uma solução para este problema social e elaborando, inclusive, um projeto de abolição do cativeiro no País. No entanto, por achar que a libertação não deveria ser feita de modo completo e imediato, mas de forma organizada e prudente, Teixeira Mendes apresentou as bases de um projeto muito tímido e que não levaria, efetivamente, à libertação dos escravos.
Este projeto, que revela um sentido das condições históricas nacionais, tendia a estruturar a massa escrava que, pela Lei Áurea, acabaria dispersa e economicamente desorganizada, desorganizando, por sua vez, o País – não teve, porém, a aprovação de Miguel Lemos. Aliás, não era a primeira vez que se propunha a parcial libertação dos escravos, com a adstrição ao solo e com obrigações para aqueles que, durante tantos anos, se haviam aproveitado do trabalho servil (COSTA, 1967, p. 163).
Retornando ao Brasil, Miguel Lemos assume a sua nova função como presidente da Sociedade Positivista do Rio de Janeiro. E a partir de 1878, os positivistas ortodoxos passam a relacionar-se mais com a vida política nacional, criticam firmemente a escravidão, proíbem os membros do apostolado de possuírem escravos, aderem inteiramente à religião da humanidade, e transformam a Sociedade em Igreja Positivista do Brasil visando formar crentes e interferir na vida pública do País.