1. Noções gerais
A detenção constitui uma ordem de outrem em manter uma "posse", mas sem animus de mantê-la, atos de mera tolerância do proprietário ou uma situação de posse violenta ou clandestina.
A composse significa o domínio sobre uma coisa comum a mais de uma pessoa, de modo pro indiviso, exigindo que todos possam utilizar a coisa diretamente, sem excluir os demais.
A posse pode ser dividida em espécies. Quanto ao vício objetivo, a posse pode ser justa, se for adquirida por meios legalmente admitidos, a ou seja, posse conforme o Direito, não maculada pela violência, clandestinidade ou precariedade, ou pode ser injusta, ao contrário, aquela adquirida de modo violento, clandestino ou precário.
A posse violenta é aquela adquirida por força, mediante a prática de atos irresistíveis, a posse clandestina é aquela obtida às escondidas, usando de artifícios para enganar o possuidor, e a posse precária, por sua vez, se obtém por abuso de confiança, sem que fosse restituída a coisa devida.
Quanto ao vício subjetivo, há a posse de boa-fé, em que o possuidor ignora o obstáculo que impede a aquisição da coisa. Pode a posse de boa-fé ainda ser real, quando apoiada em elementos evidentes que não deixam dúvida, ou presumida, quando possui justo título. Há também a posse de má-fé, em que, mesmo conhecendo o vício, possui. O estado de dúvida não induz, necessariamente, a má-fé.
Quanto ao desdobramento, a posse pode ser direta, de modo que aquele que detém o domínio, detém a posse direta. Em geral, o proprietário é também possuidor direto, mas nem sempre. O possuidor indireto pode defender autonomamente sua posse, mesmo contra o possuidor direto, se for turbando na posse.
54 87 Pode ainda ser indireta, em que o proprietário, ainda que limitadamente, detém a posse indireta da coisa, mesmo que não a detenha, não a tenha consigo ou não a utilize. É o caso do locador, que não detém a posse direta, mas, por causa do direito de propriedade, detém posse indireto.
Em relação a aquisição, adquire-se a posse desde o momento em que se torna possível o exercício, em nome próprio, de qualquer dos poderes inerentes à propriedade.
A posse pode ser adquirida pelo próprio sujeito, por representante ou procurador, ou por terceiro sem procuração, mas tendo de ratificar, obrigatoriamente.
Por sua vez, a posse será transmitida por sucessão universal, quando os herdeiros continuam na posse dos bens herdados, sendo a transmissão da posse obrigatória, ou por união, havendo sucessão singular quando alguém transfere, por uma relação jurídica, a posse a outrem, pelo que suas posses se unem, sendo a transmissão facultativa.
A posse se perde desde o momento em que cessa o poder do possuidor sobre a coisa, ainda que contra sua vontade. Porém, se exige que o possuidor saiba da perda; se não presenciou a perda, só se considera perdida a posse quando, tendo notícia dela, se abstém o possuidor de retornar a coisa, ou, tentando recuperá-la, é violentamente repelido.
O constituto possessório ocorre quando o possuidor passa a exercer a posse em nome alheio. Esse é um modo especial de tradição da coisa, em que o sujeito deixa de possuir a coisa em nome próprio para o fazer em nome alheio, transferindo-lhe a posse indireta (a tradição da coisa é meramente ficta).
2. Proteção possessória
O direito aos interditos representa o direito a proteger sua posse independentemente da qualidade dela. A proteção possessória é geralmente feita por instrumentos chamados interditos. Excepcionalmente há tutela para a autodefesa da posse, em casos de agressão à posse que exija ação pronta, enérgica e imediata (desforço possessório).
Quanto à percepção de frutos, pertencem os frutos ao possuidor de boa-fé, desde que a percepção ocorra antes de sua cessação. Ao possuidor de má-fé, restituem-se apenas as despesas de produção e custeio dos frutos percebidos, mas os produtos devem ser restituídos.
Já as benfeitorias necessárias devem ser ressarcidas ao possuidor a qualquer título, as benfeitorias úteis são indenizadas somente ao possuidor de boa-fé e as benfeitorias voluptuárias comportam apenas o levantamento, se puderem ser retiradas sem destruição do bem principal.
As benfeitorias compensam-se com os danos, e só obrigam ao ressarcimento se ao tempo da evicção ainda existirem. O reivindicante tem o direito de optar entre o valor atual e o seu custo ao possuidor de má-fé;
ao possuidor de boa-fé indeniza pelo valor atual.
Além disso, o possuidor de boa-fé tem direito de retenção da coisa principal até que lhe seja pago o valor das benfeitorias necessárias e úteis, enquanto que o possuidor de má-fé não tem esse direito. Também o
55 87 possuidor de boa-fé tem direito de retenção das benfeitorias voluptuárias, no caso de o proprietário não lhe pagar, desde que sua retirada não implique em destruição do bem principal.
No tocante à indenização pelos prejuízos, o possuidor de boa-fé não responde pela perda ou deterioração da coisa a que não der causa. O possuidor de má-fé responde pela perda ou deterioração da coisa, ainda que acidentais, salvo se provar que mesmo que a coisa estivesse na posse do reivindicante teria ocorrido a perda ou deterioração.
3. Ações possessórias
As ações possessórias não se limitam a discutir posse, mas também indenização e multa, mesmo sob rito especial.
Elas tem caráter dúplice, pois decidem de quem é a posse, e não a mera procedência do pedido, e possuem rito especial, em que tendo prazo de ano e dia (posse nova), o rito será mais célere.
Ademais, há fungibilidade entra elas, de modo que se estiverem presentes os requisitos de um pedido, o juiz deve acatá-lo, ainda que, na verdade, o pedido seja outro
Com relação à imissão na posse, a doutrina se divide quanto ao seu caráter possessório, eis que quando o possuidor não pode exercer a posse porque terceiro nega-se a efetivar a tradição cabe, em verdade, ação de reintegração de posse.
O Interdito possessório representa ação de caráter preventivo (turbação ou esbulho), que exige o justo receio da turbação ou do esbulho, mas não animus turbandi do eventual transgressor.
A manutenção da posse serve ao possuidor no caso de turbação, entendido esse como o ato que embaraça, dificulta, atrapalha o livre exercício da posse.
Estando a petição inicial devidamente instruída, o juiz deferirá, sem ouvir o réu, a expedição do mandado liminar de manutenção ou de reintegração.
Já a reintegração de posse é cabível nos casos de esbulho (perda), para o fim de recuperar a coisa privada por violência, clandestinidade ou precariedade, seja diretamente contra quem praticou o esbulho ou terceiro que a recebeu, sabendo que era esbulhada
4. Usucapião Imobiliária
A usucapião ordinária pode ser rural e urbana, ocorre no prazo de 10 anos e exige boa-fé, com justo título.
Já a usucapião extraordinária pode ser rural e urbana, ocorre no prazo de 15 anos, podendo ocorrer com 10 anos se o possuidor houver estabelecido sua moradia ou realizado obras ou serviços de caráter produtivo, e exige requisitos comuns (não exige boa-fé nem justo título).
Constitucionalmente, tem-se a usucapião rural e urbana, no prazo de 5 anos. São requisitos da usucapião urbana (especial, pro moradia): área de até 250 m², sem oposição, moradia sua ou de família, não ser
56 87 proprietário de outro imóvel, e não pode usucapir deste modo mais de uma vez. Por seu turno, constituem requisitos para usucapião rural (especial, pro labore): área de até 50 ha, sem oposição, tornar produtiva e ter moradia, e não ser proprietário de outro imóvel.
A usucapião coletiva é somente urbana, e ocorre no prazo de 5 anos. Os demais requisitos são: área superior a 250 m², ocupada por população de baixa renda, para fins de moradia, sem oposição, e impossibilidade de identificar os terrenos ocupados por cada possuidor.
A sentença de procedência da usucapião coletiva constitui um condomínio entre os possuidores, sendo que a sentença deve atribuir igual fração ideal de terreno para cada um dos possuidores. Esse é o caso de um condomínio especial, pois dotado de indivisibilidade, sendo somente divisível se por decisão favorável de dois terços dos condôminos, desde que na hipótese de uma urbanização posterior à constituição do condomínio.
A usucapião familiar também é somente urbana, e se dá no prazo de 2 anos. São seus requisitos: área de até 250m², para fins de moradia, sem oposição, seja o único imóvel, e haja abandono do lar conjugal pelo cônjuge/companheiro.
5. Usucapião Mobiliária
A usucapião mobiliária ordinária possui o prazo de 3 anos e exige ainda boa-fé e justo título, e que não haja oposição, enquanto que a usucapião mobiliária extraordinária ocorre no prazo de 5 anos e exige apenas os requisitos comuns (não exige boa-fé nem justo título).