• Nenhum resultado encontrado

2 DIREITO DE PROPRIEDADE

2.1 POSSE E PROPRIEDADE

2.1.1 Posse

Etimologicamente, a palavra posse vem de possessio, que pode ser conceituada como poder e sedere (firme, assentado). Numa superficial interpretação, a posse seria o poder sobre determinada coisa.

Nos ensinamentos de Hércules Aghiarian, a “posse se constitui no exercício de um dos poderes, ou faculdades, inerentes à propriedade. Isto é, no exercício do

60 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito das coisas. 8° ed. rev. São Paulo: Saraiva, 2007. p. 2.

61 Ibidem.

62 AGHIARIAN, Hércules. Curso de direito imobiliário. 6° ed. Rio de Janeiro: Editora Lúmen Júris.

2006. p. 2.

63 DINIZ, Maria Helena. op. cit. p. 19.

direito de usar e gozar do bem jurídico” 64, porém, não é unicamente o exercício do direito de propriedade, pois se assim fosse, estaríamos diante de um direito que só o proprietário faria jus.

A dificuldade em conceituarmos de forma certeira a posse vê-se refletida na ambigüidade das teses doutrinárias que há muito tempo, desde os romanos, sente desconforto em desenvolver convictamente essa classificação.

O instituto posse, no direito pátrio, tem importância fundamental no contexto social, já que tem proteção não só quando advém da propriedade e justo título, mas também independentemente deles. A boa lógica nos faz crer que é protegida pelo direito brasileiro, a posse daquele que dispõe de documentação regular dando conta da propriedade de um determinado bem, como dá proteção também àquele que de maneira não violenta mantém a posse de determinado bem por mais de ano e dia, adquirindo o chamado jus possessionis. Neste caso, fundamentado na posse mansa e pacífica durante determinado tempo, o possuidor é assegurado da posse contra terceiros e até contra o próprio proprietário em sede de liminar. Obviamente que no transcorrer de um procedimento ordinário, outras variantes incidirão na decisão final.

Toda essa estrutura visa a procura pela paz social.

Entre as correntes que no decorrer da história aproximaram-se da razoabilidade na definição do instituto posse, temos: a de Saviny, intitulada de Teoria Subjetiva e a de Ihering, chamada de Teoria Objetiva.

A teoria subjetiva de Saviny explica que a posse é o poder de ter para si a coisa, motivado em tê-la como sua e defendê-la de qualquer interferência de outrem.

Nesta característica subjetiva fica patente a necessidade da existência do elemento material, poder físico (corpus); e um elemento pessoal de vontade (animus), que é o propósito de ter a coisa como sua.

Assim, há a necessidade do corpus na efetividade da posse, sob pena de só permanecer o “possuidor” com a vontade de ter para si determinada coisa. Bem como do animus domini, já que a detenção do bem não enseja a invocação de dispositivos legais de segurança da posse. Nessa teoria é inadmissível a posse de outrem que não seja o proprietário. Locatário e mandatário não dispõem de legitimidade, por exemplo, para reivindicar a coisa em caso de turbação, devendo estes motivarem o proprietário do bem turbado para que providências promova.

64 AGHIARIAN, Hércules. op. cit. p. 3.

Desta forma, não existiria posse e sim detenção da coisa. 65 Numa rápida análise, as duas figuras defendidas por Saviny (corpus/animus) têm que estar presentes na caracterização de posse, pois ausente uma delas, carece a situação de proteção legal.

Na teoria objetiva de Ihering temos o entendimento que “para constituir a posse basta o corpus, dispensando assim o animus e sustentando que esse elemento está ínsito no poder de fato exercido sobre a coisa.” 66

Aqui na teoria objetiva, ao contrário da teoria subjetiva, fica dispensada a vontade de dono (animus domini), caracterizando-se a posse como exercício de propriedade, protegendo a lei aquele que age sobre a coisa como se proprietário fosse admitindo, para tanto, direitos ao locador, mandatário etc. Sendo algo ligado ao proprietário a posse pode, neste caso, ser exercida pelo próprio detentor do justo ou por aquele que este o determinar, através de regular instrumento a título oneroso ou não.

Na teoria de Ihering, a posse fica patente com a utilização econômica da coisa possuída, pois, através dessa utilização, fica demonstrada a atitude do possuidor frente ao bem, diante da sociedade, que percebe sem muito refletir que aquela coisa está sendo cuidada economicamente.

Para Silvio Rodrigues, “a posse é uma rota que conduz à propriedade” 67. A afirmação deste capaz doutrinador fica nítida quando notamos que no Código Civil Brasileiro a posse é um dos meios de aquisição da propriedade, como vemos no artigo 1.238 deste diploma legal, onde se adquire a propriedade através da usucapião que veremos mais adiante. Vale dizer que nosso Código Civil acolheu em parte a doutrina objetiva de Ihering, aprimorando-a como direito posto. No artigo 1.196 temos que “considera-se possuidor todo aquele que tem de fato o exercício, pleno ou não, de algum dos poderes inerentes à propriedade”.

Com o passar do tempo, a posse foi sendo concebida como ligada, porém autônoma, à propriedade, principalmente quando advieram os conceitos contemporâneos do “caráter econômico e de função social da posse”. 68 Neste

65 AGHIARIAN, Hércules. op. cit. p. 6.

66 DINIZ, Maria Helena. op. cit. p. 36.

67 RODRIGUES, Silvio. Direito civil. v. 5. Direito das coisas / Silvio Rodrigues. – 27 ed. rev. e atual. de acordo com o novo Código Civil – São Paulo: Saraiva, 2002. p. 31.

68 GONÇALVES, Carlos Roberto. op. cit. p. 08.

diapasão, dependendo da situação, o direito de posse chega a sobrepor-se ao direito de propriedade, como inclusive já vimos anteriormente.

Apesar desse avanço que a posse vem alcançando nos tempos contemporâneos, existem situações diferenciadas como é o caso da detenção, que se distancia do conceito de posse. O Artigo 1.198 do Código Civil explica:

“Considera-se detentor aquele que, achando-se em relação de dependência para com o outro, conserva a posse em nome deste e em cumprimento de ordens ou instruções suas”. Logo, um caseiro que cuida de determinada propriedade sob o comando do dono não é um possuidor e sim um detentor. Como tal, deverá tomar todas as providências para salvaguardar a coisa que detém como atribuição de boa vigilância sem, contudo, estar habilitado para invocar qualquer remédio possessório.

2.1.1.1 Objeto e Natureza Jurídica da Posse

Quanto ao objeto da posse, podemos destacar todas as coisas corpóreas e incorpóreas que, através de atribuição econômica, permitem ser objeto de apropriação.

Assim, os bens particulares, mesmo revestidos pela couraça da inalienabilidade, também podem ser suscetíveis de posse por outrem, como é o caso da locação, do arrendamento etc., onde apesar de vedada a venda, o proprietário pode conferir uso e gozo a terceiros.69 Quanto aos acessórios, resta pacificada que só poderão ser possuídos separadamente se, neste caso, não tiver o acessório mudança em sua substância.

Entre as demais possibilidades como objeto de posse, podemos destacar os direitos patrimoniais ou de crédito, coisas coletivas e direitos reais de fruição como usufruto, habitação etc. Como podemos perceber, o objeto da posse tem ampliado seu número de representações de maneira que hoje alcança campos que nem Saviny, nem Ihering, poderiam ter imaginado em suas teorias.

A natureza jurídica da posse gera um certo desencontro de opiniões. Parte da doutrina fala em posse com fato, outra parte fala em posse como direito, e uma terceira aceitando as duas possibilidades.

69 DINIZ, Maria Helena. op. cit. p. 42.

A primeira é explicada por Windscheid, Trabuchi e outros, como sendo em decorrência “da espontaneidade das relações, preexistindo o fato ao direito positivo, reconhecida por inevitável realidade de simples política social.” 70

A segunda tem como defensores Ihering, Teixeira de Freitas, entre outros, afirmando que a posse, sendo um interesse juridicamente protegido, fundado na tese de utilização econômica da propriedade, só pode ter como natureza jurídica o direito, responsável pelo regramento no seio do direito das coisas e direitos reais. 71

Já na terceira, Saviny, Lafayete, Pothier sustentam que a posse é um fato e um direito, de forma simultânea, uma realidade híbrida de fato, capaz de produzir efeitos na esfera jurídica.

2.1.1.2 Tipos de Posse

Apesar de ter enfoque jurídico único, a posse apresenta várias espécies, caracterizadas cada qual pela sua amplitude, forma e abrangência dentro do contexto social. Vejamos alguns tipos de posse:

- Originária e derivada

A primeira configura-se na aquisição originária, onde não há registro histórico de possuidor anterior. Advém por título novo. Já a derivada é exatamente a que decorre de transmissão por ato de vontade validado através de instrumento jurídico.

- Direta e indireta

O artigo 1.197 do Código Civil define a posse direta e indireta. A direta é aquela em que “o possuidor tem a coisa em seu poder, temporariamente, através de instrumento jurídico, como contrato de locação, por exemplo, onde o locatário recebe seu direito de outrem. A indireta pertence àquele que concede o direito de posse a um terceiro, no caso exemplificado, o locador, que cede o uso a outrem. 72

70 AGHIARIAN, Hércules. op. cit. p. 9.

71 DINIZ, Maria Helena. op. cit. p. 49.

72 FULGÊNCIO, Tito. Da posse e das Ações possessórias. v. 1, 8.ª ed., Rio de Janeiro: Forense, 1994. p. 43.

- Justa e injusta

A justa é adquirida sem vício jurídico, de forma regular, portanto, não clandestina ou violenta, conforme preceitua o artigo 1.200 do Código Civil. A injusta é fruto de ação viciada, não respeitando o curso de aquisição regular e jurídica.

- Boa fé e má fé

Na boa fé, o possuidor tem convicção de que sua situação é perfeita, justa e não se dá conta de prováveis vícios que possam impedir-lhe a aquisição da coisa.

Na posse de má fé, o possuidor sabe dos vícios que norteiam seu suposto direito. O artigo 1.202 do Código Civil traz essa espécie onde age o possuidor ciente de sua ilegitimidade. 73

- Posse nova e velha

Aqui temos uma nomenclatura jurídica estabelecida através do trabalho legislativo. Quando nova, a posse tem tempo menor de ano e dia. Quando velha, terá ano e dia ou mais tempo.

- Posse natural ou jurídica

Natural é aquela “que se configura através da efetiva detenção material da coisa possuída” 74. A jurídica tem como característica a força de lei determinando a posse.

- Posse ad interdicta e ad usucapionem

A primeira pode ser defendida através de interditos ou ações possessórias.

Na segunda, a aquisição da posse se faz no transcorrer de determinado lapso temporal.

- Posse pro diviso e pro indiviso

A pro diviso, também conhecida por utilização simultânea (composse), porém, dividida entre os compossuidores. A pro indiviso é exercida “ao mesmo tempo sobre a totalidade da coisa.” 75

73 Ibidem.

74 AGHIARIAN, Hércules. op. cit. p. 11.

75 GONÇALVES, Carlos Roberto. op. cit. p. 28.