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Possibilidade de crescimento pessoal e autodesenvolvimento

6 ANÁLISE DOS RESULTADOS

6.4 Especificidades da autogestão da Dendê da Serra

6.4.2 Possibilidade de crescimento pessoal e autodesenvolvimento

Apesar do foco principal das entrevistas com os professores ter sido os desafios da au- togestão, a análise das entrevistas mostrou repetidamente que os desafios são concebidos co- mo possibilidades para o crescimento pessoal e o autodesenvolvimento. Destacamos, aqui, uma relação entre este “achado de pesquisa” e o que Singer (2002) já havia pontuado quando falava dos casos de sucesso e insucesso de cooperativas da economia solidária. Segundo o autor:

A autogestão tem como mérito principal não a eficiência econômica (neces- sária em si), mas o desenvolvimento humano que proporciona aos pratican- tes. Participar das discussões e decisões do coletivo, ao qual se está associa- do, educa e conscientiza, tornando a pessoa mais realizada, autoconfiante e segura (SINGER, 2002, p.21).

A busca pelo autodesenvolvimento demonstra ser o elemento propulsor da vontade de superar os desafios, de reconhecê-los e de trabalhar na escola: “Acho que o maior aprendizado da antroposofia; a escola é só um pretexto para o desenvolvimento humano, que é o mais for- te”, conclui o professor W. O olhar para os desafios encarados pela comunidade escolar da prática da autogestão revelou também a possibilidade de, individualmente, cada professor envolvido melhorar a convivência em comunidade e, principalmente, tornar-se um ser huma- no melhor. Elencamos a seguir sob quais aspectos esse autodesenvolvimento se efetua.

6.4.2.1. Habilidade de argumentação e escuta

A prática de uma gestão horizontal, em que todos participem e tenham possibilidades iguais de expor suas opiniões, gera, inevitavelmente, conflitos pela divergência de ideias. Esta divergência, no entanto, é entendida como uma possibilidade de se autodesenvolver ao prati- car a tolerância com o outro, desenvolver a habilidade de argumentação e de escuta às ideias trazida pelo coletivo. O processo de tomada de decisão por consenso em especial contribui para este desenvolvimento pessoal, o que se mostrou relacionado a uma dimensão espiritual, sinalizado com maior ênfase pela professora F:

Mas eu gosto muito de trabalhar dessa forma, porque eu vejo assim, que é um desenvolvimento, é uma questão de evolução de cada um de nós, en- quanto ser humano, na questão de olhar o outro, de escutar o outro. Eu acre- dito no mundo espiritual, então acredito que a gente vem evoluindo a várias e várias vidas, isso pra mim era uma realidade antes mesmo de ouvir falar da escola Waldorf, e o caminho para essa evolução é isso, é o relacionamento (Entrevistado 12).

A escuta é uma das habilidades inclusive colocada por Steiner em uma das suas pales- tras em que fala da importância da harmonia social no colegiado de professores: “[...] um ver- dadeiro colegiado de professores somente começa a existir quando uma proporção significati- va daqueles presentes está desperta e escutando ativamente” (GLADSTONE, 2010, p.86).

No entanto, a escuta das várias opiniões e vozes na tomada de decisão por consenso,

não se faz sem que seja exercitada a paciência entre os seus membros, é o que relata a profes- sora C:

Mas única coisa que me incomoda realmente é isso que eu já coloquei da lentidão do processo. E sempre no grupo assim. Aí vem esse trabalho de au- todesenvolvimento. Então sempre tem um que fala, aí o outro repete tudo que o outro falou, aí o outro é mais prolixo ainda. Aí você fica respirando, aí sai bebe um copo d'água e volta e respira e tem que respeitar a vez de falar. Então esse trabalho de ouvir; "gente vamos decidir logo, pelo amor de Deus". É se auto trabalhar, mas isso é difícil (Entrevistada 9).

Ainda, a forma de tomada de decisão por consenso, apesar dos seus desafios em ser um processo longo, em ter que ouvir a voz de todos os envolvidos, traz para aqueles que, de um lado, tem um maior senso de liderança, a oportunidade de poder dividir e compartilhar a decisão com o coletivo, e para aqueles que não sabem ou não tem costume de colocar sua opinião, poder fazê-lo. Portanto, “é um processo mais longo, mais demorado. Não é fácil e às vezes gera conflitos, mas é um processo de crescimento muito interessante”, conclui a profes- sora F. Visto sob outro ponto de vista, segundo análise de alguns entrevistados, o processo de decisão baseada no consenso entre os professores traz consigo maior compromisso com a es- cola, uma vez que os professores se sentem considerados em seus pontos de vista e sentimen- tos, carregam o sentimento de maior pertencimento a escola e dedicação a esta.

Podemos destacar também outra faceta relacionada à escuta nos processos decisórios da escola, relacionado à capacidade de receber críticas e não a levar para dimensão pessoal, conforme colocado pela professora H:

É muito difícil acolher a crítica como forma de crescimento, né? Estar prepa- rado para ouvir sem se ofender ou levar para o lado pessoal. Tem que ter método, sempre resolve tudo. São relações com pessoas que a gente trabalha o tempo todo, eu sou meio coração mole pra falar alguma coisa pra um cole- ga meu. São desafios, e estamos aí para enfrentar (Entrevistada 14).

Também referente à escuta (e a fala) no processo decisório, uma das professoras fun- dadoras revela:

Você tem que aprender a lidar com crítica, a relevar as coisas, a ouvir 10 manifestações diferentes e não levar tudo pro pessoal. [...] Tem que ter um certo couro grosso pra trabalhar com a autogestão. Não pode ser tão melin- droso. Qualquer coisinha já sai ofendido. Já vai ficar sem olhar pra pessoa. Não tem isso [...] Então esse exercício: tô incomodada com uma coisa? Ai, como eu faço? Como eu falo? Mas tem que falar. O que não pode é ficar en- golindo as coisas e não saber se colocar. Isso é nocivo, nocivo. É uma das coisas que acontece em qualquer grupo. De criticar por traz e não dizer pra pessoa o que é que te incomoda nela, o que não tá bom. E aí você também não está apoiando o processo de desenvolvimento do outro. Ele só vai poder evoluir se você der pistas pra ele (Entrevistada 6)

Percebemos, pois, um sentido de apoio ao desenvolvimento do grupo como todo e do desenvolvimento pessoal em saber escutar e expressar a opinião em relação ao outro, num processo de crescimento e decisão coletivas. Este aspecto está relacionado ao que pontuou Rudolf Steiner ao colegiado de professores, em uma das suas palestras reunidas em Tempe- ramentos e Alimentação. Para Steiner, os membros do colegiado deveriam empenhar-se em se tornar um “modelo” de cooperação harmoniosa” e o caminho para o autoconhecimento desa- fia a reconhecer as falhas em vez de direcionar a atenção às falhas alheias.

6.4.2.2. Novas habilidades

A possibilidade de surgimento e identificação de novas habilidades do corpo docente da Dendê da Serra se dá no processo de revezamento de funções e de participação nos diver- sos grupos de trabalho e na própria reunião de colegiado: “Às vezes a pessoa tem um talento que ela não descobriu ainda, e ela escolhe um talento novo. Ela escolhe onde ela quer atuar. Isso é livre.”, relata o professor Y ao discorrer sobre a necessidade de alocar os professores da escola em atividades em que estes se sintam mais à vontade, que possam gerar descobertas de talentos e que possam trazer maiores resultados a escola e pessoais.

Como existe uma rotatividade de funções dentro das instâncias como colegiado de professores e da coordenação pedagógica, é possível que os professores desenvolvam novas habilidades tais como organização, habilidades administrativas, artísticas, de acordo com as funções que passam a ocupar no grupo: “os grupos vão se revezando e todos vão tendo o di- reito e a oportunidade de participar de tudo, desenvolvendo novas habilidades, então mesmo um professor que não penda pra esse lado [administrativo], ele acaba participando também e com o passar do tempo ele vai querer aprender isso e desenvolver essa nova habilidade”, con- sidera o professor X. A função, por exemplo, de coordenador de reuniões, que exige lideran- ça, coordenação da fala, da pauta é, a cada quatro reuniões revezado entre os professores, des- ta forma “aquele que não tem jeito nenhum de ser coordenador precisa ser pra aprender, pra se desafiar”, conclui a professora C.